A Dúvida Honesta do Crente


A aula está prestes a terminar e o professor faz a pergunta chave: alguma dúvida? O silêncio que se segue não é indicador da falta de dúvida, mas sim da vontade de terminar logo a aula e seguir para o intervalo. Os alunos suprimem as dificuldades e o professor faz de conta que acredita. A aula acaba e todos parecem satisfeitos. Mas a pergunta ainda ecoa: alguma dúvida?
Dizer que não temos dúvidas é mentir. A dúvida nos acompanha todos os dias de múltiplas formas. Há a dúvida banal como querer saber a hora, se vai chover ou quando passa o próximo transporte que preciso usar. Há a dúvida interesseira como saber o que há para o almoço. Há a dúvida vaidosa como pensar no que vou vestir. Há a dúvida existencial e global de saber quem somos e o que fazemos neste mundo. Mas dúvidas não faltam.
Na vida cristã a dúvida também esta bem presente. O cristão que diz não duvidar não está na verdade fazendo uma boa afirmação de sua fé mas de sua falta de avaliação e raciocínio. Pensar é duvidar. Viver é passar por dúvidas e o crente mais sincero e fiel as teve como podemos encontrar em todos os capítulos da história bem como no AT e NT. A dúvida honesta não é o contrário da fé, mas pode até ser a melhor maneira desta crescer. O que a Bíblia nos fala sobre a dúvida? Que tipos de dúvida encontramos na escritura e como lidar com elas?
Dúvida Obstinada
Comecemos pela pior forma de dúvida mas que existe em todos os lados – a dúvida obstinada. Um bom exemplo é o que encontramos em Mateus12:38. Os fariseus e seus acólitos pedem um sinal a Jesus com a desculpa de que se ele mostrar mais um sinal talvez possam crer que ele é o Messias ou pelo menos um profeta especial como aparenta ser. Mas a dúvida deles era obstinada. Convencidos de sua superioridade, desprezando Jesus por sua criação galileia e seu sotaque de interior, negando sua sabedoria apenas com base nem sua falta de treino académico, os fariseus não queiram crer.
Durante meses e mesmo anos seguiram Jesus. Estudaram sua vida, suas palavras e viram seus milagres. Presenciaram coisas inauditas e ficaram sem saber como responder. Juntaram as mentes mais brilhantes a fim de o desmascarar e fazer cair. Montaram armadilhas as mais espertas com o intuito de o derrubar. Tudo em vão. A vida de Jesus era limpa, sua memória inatacável, seu procedimento o mais correto, sua sabedoria inigualável, seus milagres abertos, claros e sem questionamento possível. Conclusão: dúvida obstinada. Eles não queriam crer.
Talvez o momento mais marcante seja a ressuscitação de Lázaro. O que poderia ser mais conclusivo que o morto sair da sepultura depois de 4 dias? Não seria a prova final? O momento da mudança de mente? Mas quando viram o milagre dos milagres, o Senhor da Vida em pleno, então é que fecharam mais ainda seus corações e tomaram a firme decisão de o matar. Se não podiam derruba-lo então o matariam. A dúvida que tinham sobre Jesus não era solucionável porque era obstinada, permanente e sem remédio. Era a blasfémia conta o ES, o pecado sem salvação.
Hoje temos essa posição ganhando muitos adeptos. As respostas bíblicas e cristãs às questões da vida nunca foram tão acessíveis. A quantidade de mentes brilhantes que adotaram a fé e que a defendem nas mais variadas áreas do conhecimento humano é inigualável em termos históricos. Nunca tivemos tantos crentes de formação superior elevada e em posições tão importantes, mesmo nos organismos e instituições mais reconhecidos do mundo. Da filosofia à física, passando pela medicina e genética, cristãos têm respondido às questões levantadas contra a fé de forma credível, séria e sistemática e no entanto os ateus aí estão. Alguns filosoficamente firmes, outros apenas seguros em sua ignorância e com perguntas gastas e cansadas, mas que não serão respondidas por uma razão simples: eles não querem saber!
Diante da dúvida obstinada e sistemática, a dúvida pela dúvida, não há muito que possamos fazer. Nem o Senhor pode vencer aqueles que não querem crer porque simplesmente não querem. Sua dúvida não é racional, é muito mais emocional e sem dúvida volitiva. Não há como ultrapassar. Sendo assim o mais que podemos fazer é orar, esperar e acreditar que enquanto há vida há a esperança de que algo na vida ajude esses duvidosos a abrir a mente para as evidências.
Dúvida pela Impossibilidade
Um tipo de dúvidas mais aceitável e também comum é a dúvida pela impossibilidade. Exemplo bíblico bom seria Zacarias em Lucas 1:18. Fazendo eco da dúvida de sara no AT, o velho sacerdote não conseguiu aceitar facilmente que sua esposa já idosa pudesse ser mãe. Algo semelhante aconteceu com maria quando questionou o anjo sobre a impossibilidade de engravidar sendo virgem. 
Esta dúvida não é maldosa e nem renitente, é apenas lógica. Como pode acontecer algo que contraria as regras? Como acontecer algo que nunca foi visto antes? Há o que se pode esperar. Há o que é comum, o que é frequente e depois o que acontece pouco e raramente. Mas se nunca aconteceu, se é a 1ª vez, a dúvida se instala. Será possível?
A dúvida da impossibilidade, no entanto, é repreendida no caso de Zacarias e em outros casos (a dificuldade dos discípulos em aceitarem a ressurreição de Jesus por exemplo). O Senhor não esta limitado por nada. O tempo para Ele não existe e a matéria é totalmente manipulável. Nada é impossível para Deus. Jesus curou todas as doenças, andou sobre as águas de u mar tempestuoso, transformou água em vinho e multiplicou 5 pães e 2 peixes para mais de 10 mil pessoas. O que é impossível para nós é banal para o Deus que é todo-poderoso. Além disso, devemos lembrar que todos os dias acontecem coisas que nunca tinham acontecido antes. Todos os dias há uma 1ª vez de algo. Logo, tudo é possível no reino de Deus e nas mãos do Senhor. A questão para Deus nunca é de possibilidade mas de vontade já que Ele em sua santa e sábia vontade sabe o que é melhor, quando e como acontecer.
Dúvida que surge da Mágoa
Mas o tipo mais comum de dúvida na vida do crente é aquela que surge da mágoa. É a dificuldade de entender o que esta a acontecer que leva a questionar o poder, o amor, a presença interessada de Deus. Um bom exemplo disso será o de João Batista conforme lemos em Lucas 7:18. João tinha vivido uma vida justa, uma vida digna, uma vida consagrada a Deus. Fora profeta e segundo o próprio Jesus fora o maior de todos. Não temera nada nem ninguém em sua proclamação arrojada da necessidade de arrependimento. Mas embatera justamente com o homem mais perverso da terra – Herodes.
A família de Herodes era famosa pela ganancia do poder e pela vida desregrada. Herodes pai, chamado o Grande, governara a Judeia toda sob autorização romana e vivera obcecado com a paranoia de um golpe de estado. Matou esposas e filhos nessa obsessão. Ao morrer deixou filhos fracos que não conseguiram manter o poder. Seu filho Herodes Antipas acabou por governar só a Galileia na partição quadrupla da terra, daí ser chamado o tetrarca. Entre suas falhas de carácter estava a de ter seduzido a esposa de seu irmão Filipe, de nome Herodias, que era simultaneamente sua sobrinha. João não se intimidara e falara contra tal união incestuosa e maligna. Herodes o mandou prender na fortaleza de Machaerus a alguns quilómetros do mar morto, numa colina da Pereia uma das residências de férias dos Herodes.
E agora que João estava preso. Como explicar isso sendo Jesus o Messias? Ele que era seu primo, que conhecia tão bem as histórias de seu nascimento e do nascimento de Jesus. Ele que dera testemunho de Cristo ao mundo e que o mostrara como o messias, agora duvidava. Estava preso há cerca de 1 ano e sem saída. Na prisão, em agonia, as dúvidas começavam a chegar. Seria afinal engano? Seria Jesus o messias na verdade? Seria possível que o justo passasse por tudo aquilo? Como Elias um dia, duvidou mas em grande parte porque esperou algo diferente do que Deus prometera. Como entender isso? Como aceitar isso? Não era Jesus o Messias? Esse tipo de mágoa que seria natural em João era também eco de uma expectativa errada.
Outro episódio que nos leva a dúvida pela mágoa é o de Tomé que temos em João 20:23. Temos a tendência de criticar Tomé e temos algumas razões para isso mas também devemos no colocar em seu lugar. Ele vira Jesus fazer coisas incríveis por 3 anos. Durante todo desde tempo criara junto com os outros uma expectativa enorme em relação ao que Jesus seria e faria e de repente, justamente na semana em que tudo se conjugava para um sucesso tremendo, eis o golpe, eis a surpresa macabra. Jesus preso, condenado, crucificado. Como vencer essa mágoa? Como ultrapassar a morte do mestre? Como entender e explicar que o messias deles tinha sido torturado até a morte de forma tão cruel. E a mágoa era tanta que quando chega a notícia de uma ressurreição ele não pode crer, não consegue crer, age com total incredulidade e declara com petulância: só se eu vir e tocar. Dúvida sincera, de quem crera e queria crer mas cuja mágoa era grande demais para facilitar.
Outra forma da dúvida ou causa comum dela nesses momentos de mágoa é a dúvida que surge de expectativas erradas. Um bom exemplo será o dos discípulos no caminho de Emaús em Lucas 24:21. Eles não conseguiam crer na possibilidade da ressurreição, descartavam o testemunho das mulheres e seguiam profundamente desanimados. Mas além da mágoa pela morte de Jesus a razão principal de sua dúvida e dificuldade estava na frase “nós esperávamos”. A sua expectativa de um messias com características políticas, militares e governativas tinha criado uma atitude mental que não possibilitava a morte de Jesus e não entendia a sua ressurreição. Esperavam algo que o Senhor não prometera. Na verdade, até esperavam algo que era contrário as profecias e ao que o próprio Jesus já tinha dito e isso os colocava em rota de colisão com a realidade.
Uma das razões porque Jesus encontrou tanta fé fora de Israel, como no caso do centurião romano ou da mulher cananeia, era que eles não tinham essas expectativas erradas a respeito de um messias. Não esperavam nada. Não contavam com nada e por isso acabavam tão maravilhados com Jesus. Sua fé era simples e sem esperanças falsas e se entregavam sem limitação por isso mesmo.
Em todos esses casos de dúvida pela mágoa e pelas expectativas erradas Jesus se mostra compreensível e sua resposta tem a ver com a nossa necessidade de estar mais perto do Pai. Aos discípulos de Emaús ele explica a escritura, a João ele manda um relato do que está a acontecer e a Tomé ele aparece em pessoa. O que falta nessas horas de dúvida é chegar mais perto, confiar que quando não entendo, o seu amor não diminuiu e que a esperança nele é sempre renovada.
Dúvida Honesta do Crente
A Bíblia não nega assim a dúvida na vida do crente e até a aceita como natural mas não deixa de nos mostrar como encara-la. Talvez a melhor maneira de lidar com a dúvida seja reagir honestamente como aquele homem que levou seu filho endemoninhado para Jesus curar. Encontramos suas palavras marcantes em Marcos 9:24. Provavelmente mais que todos os demais, este episódio nos ajuda mais que qualquer outro no entendimento da dúvida honesta do crente.
Este pai passara por várias fases no caminho da dúvida. Primeiro a dúvida da incredulidade: isso não pode estar a acontecer bem na minha família. Depois a dúvida da cronicidade pois os ataques se sucediam e nada os parava e a vida se tornara um inferno. Então a dúvida da desilusão magoada, os discípulos nada tinham conseguido. Não eram eles os discípulos de Jesus? Não tinham recebido dele o poder? Será que esse Jesus era só conversa? Seria ele como os outros que o tinham enganado?
Mas ele quer crer. Sabe que sua fé é pequena mas está desesperado. Resta só um pouco de esperança e sem querer sua boca acaba mostrando seu coração “se puderes” e Jesus o questiona: se? Que fé é essa? Que tipo de pedido é esse? Você duvida diante do Senhor da vida? Como quer ajuda com essa atitude? E o homem humildemente, sem querer perder a bênção, sem poder corrigir o que já mostrou de seu coração clama: eu quero crer, mas sou fraco, eu creio, mas com uma  fé microscópica, Senhor tenha misericórdia e ajuda a minha fé, entende a minha dúvida, auxilia a minha incredulidade. E a maravilha é que Jesus faz exatamente isso – Ele cura o menino.
O crente honesto terá que reconhecer momentos de dúvida. São humanas, são quase impossíveis de evitar. Por vezes sentiremos mesmo que nossa fé não está a altura das circunstâncias.
Lembre-se: o amor do Senhor não muda; Seu poder não se altera; Sua sabedoria sabe o melhor; Sua soberania controla e providencia.
Entregue seu coração com sinceridade, abra sua alma e ore com paixão: eu creio Senhor, ajuda a minha pequena fé!

 

Sucessão Pastoral - Quatro princípios a ter em conta!


Trata-se de uma velha história repetida até a exaustão com frequência assustadora. Acontece em Igrejas, ministérios para-eclesiásticos, campos missionários, seminários e escolas de treinamento e até na direção de uma EBD ou classe de estudo bíblico.

Um novo líder se levanta ou é indicado. À chegada traz as suas experiências, seu conhecimento, seus preconceitos e dramas pessoais. Chega, avalia a obra feita e rapidamente, com o olhar claro de quem veio de fora sentencia: está tudo errado!

Por vezes, a história até acaba menos mal. O novo líder com o tempo vai se adaptando e tendo sucesso. Outras vezes é complicado ou mesmo desastroso porque em sua ânsia de resolver os "problemas" deixados pelo antecessor, o recém-chegado destrói mais do que constrói e logo tem que ser substituído para que algo sobreviva. Já vimos isso em muitos lugares e realidades diferentes, desde ministérios pastorais locais de igrejas pequenas e grandes a ministérios missionários transculturais.

Haverá princípios a ter em conta que possam ajudar essas transições?
 Podemos vencer os traumas que elas trazem?

 Meditemos um pouco nessa realidade à luz da verdade bíblica evangélica.

1) Respeito

Provavelmente o princípio inicial deva ser o do respeito. A Palavra ensina a amar o próximo, a considerar os outros mais do que nós, a ser paciente, a mostrar um amor altruísta. Certamente tudo isso se manifesta também em respeito. No caso em conta respeito significa cuidado com o que se fala, cuidado com os comentários, criticas e sentenças, valorização do trabalho dos outros.

Segundo Jesus a regra áurea é fazer aos outros o que gostariam que fizessem conosco. É uma regra pró-ativa. Não apenas não fazer o mal mas fazer positivamente o bem. Como gostaria de ser lembrado de onde saiu? Como gostaria que falassem de si nos lugares onde já trabalhou? Que cuidado desejaria que fosse dado a sua memória? Responda a isso com sinceridade e saberá como tratar aquele que vai substituir.

Facilmente encontramos quem tenha algo para falar criticando o trabalho do seu líder. Devemos lembrar que alguém que faz isso com facilidade também nos irá criticar com facilidade, talvez em pouco tempo. Dar corda a essas conversas é começar da pior maneira.

Procure os fiéis do ministério anterior porque , uma vez que tenham entendido a nova visão, serão os seus auxiliares.

2) Paciência

A paciência necessária aqui deve existir por duas razões. Uma para se conhecer a verdade do ministério em causa, outra porque mudança precisa de tempo. Comecemos pela primeira. Antes de criticar ou mesmo avaliar precisamos conhecer. Chegar tirando conclusões é sinal de imaturidade e precipitação. É preciso paciência para se conhecer e entender um trabalho. Com o tempo perceberemos porque as coisas são como são, o que levou a certas decisões, que razões estão por trás de tradições e costumes que podem nos parecer estranhos ou incorretos. Com tempo poderemos chegar a admirar quem inicialmente tínhamos disposição para criticar, mas é preciso paciência.

Trata-se de coisa fácil a arte de encontrar defeitos. Todos temos e nenhum trabalho será perfeito. Entender porque as coisas caminharam como caminharam é bem mais demorado mas também muito mais elucidativo. Abster-se de comentar o que na verdade não entendemos é uma medida sensata, afinal, até o louco quando se cala passa por sábio.

Mas é evidente que novo líder significa em geral mudanças.

Mudanças são necessárias constantemente. Posso entender porque algo é feito de certo modo e até concordar com o rumo tomado na altura em que foi tomado e mesmo assim entender que agora é preciso outra abordagem. Aquilo que era natural há 10 anos, 5 anos ou mesmo 1 ano pode já não ser o ideal hoje. Mas mudanças exigem paciência. Mudar sem entender, sem estar preparado e suficientemente motivado pode muitas vezes significar mudar para pior. Nesses casos há em breve um regresso ao modo antigo e muito mais enraizado porque já se tentou "novidades" e não funcionaram.

A regra então é paciência. A sabedoria demanda paciência e perseverança para qualquer alvo digno de ser alcançado. Então caminhemos com a paz do Senhor e a certeza de que ELE nos auxilia nas medidas necessárias.

3) Principio vs Forma

Vivemos hoje obcecados pelas formas. Desde a forma física ao design, tudo parece se render ao domínio dos sentidos que nos dizem que a formas mandam. Poucas coisas tem prejudicado tanto as vidas e mesmo a obra do Reino porque, na verdade de Deus, o mais importante são o princípio. Quando olhamos para a criação vemos que as formas de vida são incontáveis, mas os princípios de vida são os mesmos sempre se repetindo seja em animais sejam em vegetais.

Normalmente o que mais discutimos são as formas. Vemos algo dando certo e logo queremos copiar a forma. Se não temos o mesmo sucesso é porque não conseguimos ter a mesma forma. Se um casal amigo tem um casamento sólido e faz férias nas Bahamas logo julgamos que é por isso e lamentamos não ter condições para tirar essas férias. Se a igreja X tem um ministério bem sucedido com certos tipos de eventos logo lamentamos não poder ter o mesmo resultado porque não há condições de ter os eventos.

A verdade é que o casamento bem sucedido nunca depende apenas de umas férias anuais e um ministério feliz não é produzido só por certo tipo de eventos. Imitar formas leva a desilusão, traz cansaço e irritação e depois ainda deixa o gosto amargo do fracasso. Precisamos aprender a reconhecer os princípios que fazem a diferença. Numa sucessão pastoral algumas formas podem até mudar, mas não é isso que fará a diferença se não houver respeito pelos princípios básicos do reino de Deus.

Avalie os princípios bíblicos, veja que estejam sendo aplicados e o mais, lembre-se, é passageiro, mutável e negociável.

4) Amor à Obra

Seja uma igreja, uma campo missionário, um ministério ou uma classe de EBD, o importante numa sucessão é o amor que preserva e respeita. Certas sucessões avançam por meio da quebra de padrões e costumes, sem o menor respeito ou cuidado com a obra, sem o menor respeito aos que lá estão e sem o cuidar dos corações.

Sob a capa das mudanças necessárias e com auto justificação autoritária atitudes são tomadas que até poderiam ser necessárias, mas que por sua maneira de acontecer causam escândalo, tristeza, desânimo e derrubam corações. Não temos o direito de agir assim.

Antes do orgulho pessoal está a Igreja pela qual Jesus morreu, mesmo que tenha que me sacrificar.

Paulo lembrava os crentes das igrejas a quem escrevia que se algo escandalizava o irmão, mesmo que não fosse pecado, mesmo que não fosse errado, mesmo que pudesse faze-lo de consciência livre, deixaria de o fazer por amor ao irmão e a obra. A isso se chama maturidade, a capacidade de suportar em prol do bem de outro

Será Deus Amor? Porque temos tanta facilidade em crer no amor de Deus?



“Deus é amor” ouvimos com frequência, mesmo de quem não sabe que isso é uma citação bíblica direta de João. “Somos todos filhos de Deus” também se ouve no sentido de enfatizar que todos temos algum direito a receber dele algo de bom. Por outro lado, a maior acusação dos ateus é que diante do sofrimento não se pode aceitar um deus de Amor. O que significa que eles também partem do princípio de que Deus é amor. A noção geral parece ir no sentido de que Deus é bom, amável e que no fim há de salvar a todos com exceção talvez de algumas figuras como Hitler, Pol Pot e outros grande criminosos. Dizer que Deus é amor é entender, na maioria das vezes, um  Deus que não julga e que sobretudo não condena. Não foi Jesus que proibiu o julgamento das pessoas? Não foi ele amigo dos pecadores? O verso mais conhecido da Bíblia talvez possa ajudar pois nos fala de Deus em amor. Em João 3:16 vemos um Deus que ama e dá. Será por isso que temos facilidade de pensar assim? Porque temos tanta facilidade em falar de um Deus de amor?

Talvez seja porque a ideia nos veio do tempo de Jesus quando Deus era visto assim. Será? Uma avaliação mesmo superficial negará isso. A esmagadora maioria da população no Império Romano era pagã, seguindo uma lista quase infindável de deuses. Os deuses pagãos eram fortes, poderosos, por vezes justos, por vezes cruéis, por regra arbitrários e seletivos, mas nunca apresentados como amor. As deusas apresentadas como do amor eram deusas do amor físico, do sexo, não da compaixão ou amor altruísta. Nada no meio pagão falava de um Deus que se auto sacrificasse pelo homem. Na visão pagã os deuses viviam por regra em total indiferença para com os humanos, daí que eram necessárias ofertas e presentes para os atrair e agradar.

Talvez a ideia tenha vindo dos judeus de onde surgiu o Cristianismo. Novamente errado. Para a maioria dos judeus Deus era um Ser tremendo em poder e majestade e deveria ser temido e respeitado. Era poderoso, justo e fiel mas sobretudo legalista e rigoroso além de muito ciumento. Não havia a noção de um Deus amoroso no sentido cristão de amor incondicional e sacrificial. A noção de um messias que era Deus encarnado e que vinha para viver uma vida de serviço aos pobres e depois morrer pelo homem era ridícula e mesmo ofensiva. Jesus foi morto por a proclamar essa mensagem e assumir esse papel.

Talvez a noção venha então da população mundial atual. Mas se olharmos melhor ficaremos assustados. Os Budistas não aceitam um Deus pessoal e a vida para eles é só sofrimento (são cerca de 380 milhões), as religiões tradicionais chinesas com perto de 400 milhões de adeptos são filosofia sem um Deus central, a religião Hindu tem milhões de deuses e nenhum deles é amor no sentido cristão e eles são cerca de 1 bilhão, para os Muçulmanos Deus é justo e fiel mas muito longe de ser amoroso mesmo que falem dele como misericordioso, na verdade é vingativo e por vezes cruel e os muçulmanos são mais de 1,2 bilhões. Se acrescentarmos os ateus que não aceitam a Deus e as religiões tradicionais Africanas em que Deus é em geral distante e sem interesse no homem teremos mais algumas centenas de pessoas. Ou seja, desses mais de 4 mil milhões de pessoas, mais de metade da população mundial, nenhum vê Deus como amor. Porque então nós falamos assim?

Falamos de Deus como amor porque vivemos no ocidente numa cultura que ainda tem muito de influência cristã, que aprendeu e cresceu com a noção bíblica de um Deus que ama, que dá, que se sacrifica pela sua criatura. Vivemos ainda numa cultura que foi marcada pelos princípios de bondade e altruísmo, de sacrifício pessoal. Uma cultura que deu origem a serviços públicos, escolas, hospitais, leprosários, bibliotecas, bombeiros e outras instituições de apoio ao povo. Essa mentalidade nos faz pensar em Deus como amor. Mas o que significa isso? O que a Bíblia realmente diz sobre o amor de Deus? Estará o povo correto em sua visão de um Deus que ama de um modo incondicional? Será correto pensar em um Deus que não julga e não condena porque ama? Pensemos na revelação Bíblica.
Deus Ama
Realmente a Bíblia revela um Deus que ama. Novidade especial na revelação e surpresa para os povos em geral. Um Deus pessoal, relacional e que ama é algo bom demais. Mas é o que a Bíblia diz dele. Deus nos criou em amor e deseja ter uma relação de amor connosco e esse é todo o enredo da Bíblia. Como tivemos esse amor em modo perfeito, como o perdemos no Éden e como Deus agiu para que o recuperássemos. 
Deus Convida
O amor de Deus na Bíblia é um amor convidativo. Deus apela, chama, convida, apela. Como amante que tenta puxar para si o ser amado o Senhor age em relação ao homem. Desde o pecado de Adão que temos o Senhor na história bíblica a chamar o homem para si de muitas formas, por meio de bênçãos, milagres, libertação e profecias. E o homem resiste a esse chamado de forma por vezes violenta, mas sempre insensata.
Deus ama incondicionalmente
E a Bíblia nos fala realmente de um amor incondicional. Deus nos ama quando somos pecadores, quando somos inimigos, quando fazemos o mal. Ele ama o pecador, o criminoso o adúltero, o ofensor. Esse amor é por vezes descrito como o de um marido traído ou um pai abandonado. Na parábola do filho pródigo, Jesus coloca Deus como um pai que corre e beija um filho que ofendera, violentara, roubara e desperdiçara a fortuna do Pai de maneiras as mais terríveis. É figura máxima de um amor sem condições. Deus ama mesmo quando o deixamos de lado e nada queremos com Ele.
Amor seletivo e relativo
Mas não é só isso que a Bíblia diz. Ela também diz que o amor de Deus é seletivo. Ele ama o justo e aborrece o impio. Ele abençoa o justo e condena o pecador. E dizemos: há contradição? Será? Pensemos. Amo meu filho. Amo-o incondicionalmente. Ele é um bom filho que fez seu curso na faculdade e está a trabalhar para fazer carreira. Eu o amo por isso também. Agora imagine que ele fosse em vez de um bom aluno e um trabalhador dedicado um traficante de drogas? Imagine que fosse um criminoso na noite de lisboa? Deixaria de o amar? Não. Mas poderia lhe dar o mesmo tipo de amor e aprovação? Não. Não se for justo, se for honesto, se for verdadeiro e correto em meu amor. Posso ainda ama-lo e o amarei por ser meu filho mas terei que o condenar pelo que faz. Posso apelar para que ele se emende e continuar a amar mesmo que me rejeite, mas se ele recusar terei que o entregar a polícia para correção, para seu bem e dos outros.
Ora, se eu que sou limitado sei isso e posso agir assim. Como é que um Deus santo e justo seria diferente? Como iria Deus amar sem sentido dando a salvação a um malvado criminoso que não se arrepende ou a um homem que simplesmente faz de conta que Ele não existe se fazendo Deus em sua vida? Não é possível. Não é isso que a Bíblia diz. Seria isso julgamento? Não disse Jesus não para julgarmos? O que Jesus disse foi para não nos fazermos juízes quando não sabemos a estória toda, não sermos preconceituosos em nossos relacionamentos e não limitarmos a nossa boa ação mas também disse: pelos frutos os conhecereis. Também falou de hipócritas e mentirosos e falou da condenação mais do que qualquer outro pregador do NT. Não nos enganemos, Deus não pode amar todos como gostaria. Simplesmente não pode salvar todos como gostaria porque seria simplesmente errado, injusto e Ele é Deus santo e perfeito.
A medida do Amor
A medida desse amor é Jesus. A medida maior que nenhum pagão poderia conceber e nenhum judeu conseguiu naturalmente entender. O amor de Deus em Jesus foi escândalo total para todos. Só quem recebeu a iluminação do ES no seu espirito pode entender esse amor tão extraordinário. Um Deus que vem viver entre nós, que vive a nossa dor, que partilha a nossa vida de sofrimento mas que mais que isso, leva o nosso pecado, carrega as nossas culpas, passa pela nossa vergonha para nos dar uma vida nova. Essa é a medida infindável e gigantesca do amor de Deus. E foi necessária porque não havia outra maneira de haver reconciliação. Deus amou em Jesus até a cruz para que nós pudéssemos voltar a viver dentro de seu amor gracioso.
Amor que exige Resposta
E esse amor exige resposta. Não é um amor que recebamos simplesmente deixando estar. Deixa avida, vive como queres e Deus te ama… não é assim. Ficamos felizes de ouvir de um amor tão grande, mas algo assim não pode ser adquirido sem alguma resposta, sem uma entrega verdadeira. Deus deu, mas só usufrui da dádiva o que nele crê. Se não aceitar, se não crer, se não houver arrependimento e fé, haverá morte eterna mesmo com todo amor que Deus tem.

Como responderemos? Que o amor de Deus, tão anunciado, não seja motivo para deixarmos de fazer a nossa parte. Esse amor maravilhoso exige resposta e aí entra novamente a graça de Deus que nos dá liberdade para escolher. Escolhamos Vida e recebamos de forma plena esse amor maior.

A Radicalidade da Coerência


 
Ser Radical já foi um dia algo negativo, mas hoje é moda e é sinonimo de fazer coisas ousadas e mesmo perigosas como desportos radicais ou outras coisas que colocam a vida em risco. Mas quando falo de radical não me refiro a manobras de carros em alta velocidade ou desportos que exigem muita adrenalina, mas de uma vida coerente. Vai sendo cada vez mais radical viver de forma coerente neste mundo. Deixem-me dar alguns exemplos:

Hoje se fala muito em liberdade. É mesmo um dos conceitos mais valorizados no mundo. Ser livre é essencial. Mas o que a cultura ocidental entende por liberdade? Será realmente liberdade no sentido verdadeiro da palavra? A liberdade moderna é no fundo uma falta de restrições. Ser livre significa fazer o que quero, como quero, quando quero e com quem eu quiser. Isso não é liberdade. É falta de princípios e moral; é viver como os animais, liderado por instintos e prazeres. A liberdade que se exige é a que vem com respeito e valorização do outro. Sem isso a vida fica insustentável.

Outro conceito muito valorizado é o da Tolerância. Provavelmente a maior crítica actual ao Cristianismo Evangélico é que é intolerante. Para o mundo, tolerância é a aceitação de toda e qualquer prática, escolha ou forma de vida. Ser tolerante é aceitar o homossexual, a lésbica, a prostituição, o aborto, a eutanásia activa, o uso de drogas leves, a mudança de sexo e outras coisas mais, consideradas modernas e próprias de quem tem a mente aberta. Quem não aceita isso é considerado retrógrado, ignorante, talvez mesmo estúpido e quem sabe até digno de ser eliminado (muito tolerante essa posição…)

É nesse contexto que somos chamados a ser coerentes e com isso, radicais. “Eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” dizia Paulo ao escrever 2 Timóteo 1:12. Ele nos lembrava que “não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” Romanos 1:16. E nós queremos fazer coro com Paulo. Num mundo em que defender convicções é ser considerado teimoso, onde lutar por princípios de fé e ética é chamado de intolerante, onde defender a Fé Cristã e a Divindade de Jesus é dito loucura, nós somos radicais. Radicais como o próprio Jesus foi. E felizes em o ser.

Coerência é saber o que cremos e viver pela nossa fé e princípios. É não ser levado por cada correnteza ou vento novo que a moda dita mas estar firme em nossas convicções. É estar seguro do que se crê em vez de ser deixar dominar pelas opiniões que são impostas por supostas celebridades. É Conhecer o Deus que professo, saber porque creio nele e viver de acordo com isso cada dia e a cada decisão. Isso é coerência. Isso é radical. No mundo em que tudo é cada vez mais relativo, essa é a radicalidade da Coerência.
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