Ira de Deus: Como Entender?

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Há muitos temas controversos na Bíblia e um dos mais complicados é a ira de Deus. Não temos dificuldade em aceitar um Deus de amor e compaixão. Não temos dificuldade de entender um Deus que tem todo poder. Mas Deus irado parece coisa de mitologia pagã e trás à mente um ancião de barbas brancas que do céu lança raios sobre as cabeças de todos os que não o agradam e que exige submissão total. Essa imagem incomoda e cria muita rejeição. Mas, a Bíblia fala mesmo da ira de Deus e não poucas vezes. No Antigo Testamento temos 432 menções à ira do homem e de Deus e no Novo Testamento mais 36 vezes. Como entender, então, essa ira em nosso contexto? Como explica-la a alguém que usa esse argumento para negar o Deus da Bíblia? 

Nossas dificuldades com o tema começam por causa de toda a tradição antiga que vem de muitas origens e fala da ira de Deus como algo caprichoso. São mitologias diversas que falam de deuses em termos antropomórficos, deuses que mostram sentimentos e reacções iguais as dos homens e cuja ira é maligna e nada santa. Essa tradição dificulta muito a nossa compreensão porque quando a Bíblia fala da ira de Deus fala de algo que não é nada parecido com a nossa ira. O homem se ira injustamente por egoísmo, por frustração, por entender que alguém falhou em seus direitos, que algo lhe foi negado. Ora, a ira de Deus não é nada disso, e se olharmos melhor para os momentos em que Deus se ira teremos que reconhecer que a sua ira é mesmo obrigatória. Vejamos como:  
  • A ira é obrigatória diante do mal, do erro, do abuso, da discriminação, da injustiça, da crueldade. Deus fez um mundo perfeito e um homem bom. Este escolheu o pecado e desvirtuou tudo o que Deus criou. Tornou-se mau e danificou tudo o que o Senhor criou. Tornou-se mau sobretudo para com seus semelhantes. Diante disso como não se irar? Poderia Deus ser Deus de verdade e não se irar contra a destruição da sua bela criação? Seria Ele Deus justo se não se irasse contra a maldade humana que abusa, maltrata, tortura e mata outros seres humanos? Que tipo de Deus ficaria indiferente diante de tanta maldade? Essa ira não é errada, é obrigatória.  

  • A ira é obrigatória quando existe amor. Imaginemos um pai que ama sua filha de todo coração ou um marido que ama sua esposa com todas as forças. Agora imaginemos que alguém está a fazer mal a esta filha ou esposa. Acharíamos natural que este homem não se irasse? Seria aceitável que ele assistisse ao abuso de suas amadas sem revelar uma ira intensa? Certamente que não e ninguém o condenaria por se irar. Porque, então, não percebemos que a ira de Deus está ligada a seu amor? Ele ama intensamente o mundo e a humanidade e quando vê o abuso que lhe é feito tem que se irar. Sua ira é mais que justificada pois é santa e voltada exclusivamente contra o mal e não algo egoísta e para proveito próprio.  

  • A ira é obrigatória diante do desperdício. Quem nunca se irritou ao ver comida desperdiçada ou outros bens que poderiam fazer a diferença para outras pessoas sendo jogados fora com desprezo? Desperdício é algo maligno e que desperta justificadamente a ira. E Deus? Como não se mostraria irado contra o desperdício de tudo de bom que Ele nos deu e que não sabemos usar e ainda esnobamos?  
Vemos então que a ira de Deus é sempre santa e nunca menos santa ou nobre que sua justiça. A ira nesse caso é mesmo parte da justiça santa de Deus. Mesmo em relação ao homem, a Bíblia distingue a ira justa e positiva da ira tola e precipitada que é viciante e deve ser vencida e dominada. Quando Jesus se irou contra os vendedores do templo ou com a hipocrisia dos fariseus, não era algo maligno ou errado, mas uma ira santa e justificada. O facto de termos dificuldade com nossa ira por ser quase sempre errada não significa que a de Deus o seja. A ira de Deus nunca é errada e nunca é egoísta mas se volta contra o mal, contra o pecado, contra o que prejudica. A ira de Deus visa a salvação e a recuperação do pecador e por isso nunca será maligna. 

O contrário da ira não é o amor, como alguns podem pensar, mas a indiferença. Deus se ira exactamente porque ama e o contrário seria se tornar indiferente ao homem e ao seu estado bem como ao seu destino. Deus não encara a humanidade como um empecilho à sua felicidade ou um problema no caminho. Ele ama o mundo e por isso se preocupa e por isso, por vezes, se ira. 
O que também devemos guardar em relação à ira de Deus é que ela não é eterna, nem vingativa e nem rancorosa. Ela é aplicada na medida certa e com objectivos bem definidos de mudar a situação para melhor visando a recuperação. 

A ira que Deus manifesta serve como correctivo e disciplina para que encontremos um caminho melhor. É seu prazer desviar sua ira e seu furor e o faz com muita frequência na palavra. O que alegra o coração de Deus é poder deixar de lado a disciplina punitiva e mostrar seu abundante amor. Cabe ao homem reagir de modo a permitir que seja assim. Como um pai que ama, o Senhor prefere mil vezes abençoar seus filhos amados que respondem ao seu amor com uma atitude positiva que ter que disciplinar os filhos desobedientes que se prejudicam e prejudicam outros. Afinal a ira de Deus até faz muito sentido e deve ser vista como parte essencial de sua santa justiça.

Encontros com Jesus - As Crianças no Templo



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Crianças no templo… uma combinação, em geral, difícil. Há mesmo muita gente que pensa que não é lugar para elas. As crianças têm dificuldade em se concentrar por períodos maiores. Não pensam muito em termos teóricos. O culto, por regra, não está adaptado às suas necessidades. Acabam por ficar irrequietas e fazer barulho. Logo, o melhor é não tê-las no templo… ou será que deveríamos pensar diferente (Nota: a principal razão para termos actividades com as crianças no tempo de culto em outro local não é para que não façam barulho, mas para que recebam algo mais adequado à sua idade e capacidade de captação). Quando olhamos para o ministério de Jesus o vemos sempre próximo de crianças e sua resposta a elas é sempre positiva. Um dos exemplos mais interessante está numa referência breve de Mateus.


E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas;
E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.
E foram ter com ele no templo cegos e coxos, e curou-os.
Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se,
E disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?
Mateus 21:12-16
"E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas;
E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.
E foram ter com ele no templo cegos e coxos, e curou-os.
Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se,
E disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?"

Mateus 21:12-16

E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas;
E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.
E foram ter com ele no templo cegos e coxos, e curou-os.
Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se,
E disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?
Mateus 21:12-16

Esta é uma cena confusa e de muita agitação. Passa-se no dia em que Jesus chega a Jerusalém para sua visita final. Ele sabe que antes de uma semana será crucificado. Para isso veio ao mundo e não irá fugir. A sua relação com as lideranças já é a pior possível. Desde que ressuscitou Lázaro que o desejam matar e tomaram essa decisão e no entanto, em vez de fugir, ele vai para a cidade e para o templo e ainda antagoniza os líderes religiosos ao expulsar os cambistas e derrubar as mesas dos vendedores. Todo o episódio é barulhento e com muita gente a volta. Jesus está sempre cercado de multidões.


Seu acto de purificação do templo, possivelmente o segundo, de acordo com ao evangelho de João, é simbólico, mas crucial. Ele está a representar a chegada do Messias e mostra quem realmente é e os líderes religiosos conseguem ler nas entrelinhas e percebem isso. Ao limpar o pátio dos gentios ele está a declarar sua autoridade e a abrir espaço para os gentios se aproximarem e conhecerem a Deus. Esse era o único espaço que eles podiam acessar e com todo barulho não havia condições de orarem ou ouvirem ensinamentos. Mas o objectivo da casa de oração era esse, pelo que Jesus restaura a ordem. Para que serve o templo? Oração e ensino. E nada mais, e para isso ele o restaura. 


Mas a cena não termina ali. Logo há doentes à procura de Jesus, e ele cura-os. E a cura tem tudo a ver com o que ele acabara de fazer. Se assumia a chegada do Messias e sua autoridade devia dar sinais e motivos para que aceitassem suas reivindicações. E ao curar ele confirma as profecias e prova que é o Messias. E tudo isso aumenta a raiva dos seus inimigos. Não podem negar seu poder, não podem contrariar seu ministério. Ele dá mostras de estar firme em seus propósitos e os saduceus e fariseus já aliados entendem que devem agir sem demora. E então, no meio de toda essa confusão temos as crianças envolvidas. Bem próprio das crianças, estarem onde há agitação.


Mas o que faziam as crianças no templo? O que estavam a fazer no meio de toda essa agitação e de Jesus? E podemos aprender muito com elas olhando esta breve nota de Mateus:


·         Não estavam para obter vantagem. Os doentes tinham acorrido mas para ser curados. Eles se chegavam a Jesus para ganhar alguma coisa mas as acrianças não. Não estavam a espera de receber nada de Jesus.

·      Não estavam para criticar. Os líderes religiosos que se achavam donos do espaço, estavam ali para julgar a Jesus e encontrar algum erro, alguma falha para o condenar. É para isso que vivem neste momento e é o que os faz estar no templo mesmo odiando Jesus. 


As crianças estavam ali porque eram atraídas por Jesus. Porque amavam seus ensinos fáceis de perceber e sentiam seu calor para com elas. As crianças estavam ali porque sabiam que o Senhor as amava e as recebia. Ao contrário de outros rabis, que achavam perda de tempo ministrar aos pequenos, Jesus as acolhia e por isso o buscam e gostam de estar perto dele. Vemos que isso era comum pelo número de vezes que Jesus usa as crianças como exemplo e aqui também o fará.


Os líderes então abordam a Jesus. Não suportaram nada do que ele fez, mas os clamores das crianças parecem ser o que mais incomoda. A profundidade teológica do que as crianças diziam podia não ser captado por elas, mas mexia com os religiosos. Anunciavam a Jesus como o Messias e isso não podiam tolerar. O elogio a outro, a honra dada a outro feria seu orgulho e abordam Jesus para tentar calar as acrianças.


O Senhor responde com o Salmo 8. Trata-se de um Salmo que mostra a pequenez do homem e a grandeza de Deus e faz essa afirmação que pode parecer estranha. O Deus Todo Poderoso, derrota seus adversários por meio do louvor puro das crianças. Devemos entender que é uma afirmação do mundo espiritual. O maligno odeia a adoração sincera e pura das crianças e esta o derrota porque Deus habita no meio dos louvores de seu povo. Podemos também dizer que era uma palavra profética já que Jesus “derrota” seus adversários com estas palavras simples de louvor das crianças no templo.


Na resposta de Jesus podemos tirar as seguintes conclusões sobre as crianças:


·       As crianças crêem mais facilmente. 
     Para elas a fé é mais natural e simples, mais genuína e bonita. Não tiveram ainda das experiências que fazem dos adultos pessoas desconfiadas. Por isso elas criam com facilidade e isso se nota em qualquer época ou cultura e com as nossas crianças também. Daí o valor de conhecerem ao Senhor desde cedo em suas vidas.

·      As crianças louvam mais livremente
     Se é verdade que todos nós louvamos, as crianças o fazem com uma liberdade especial, porque não estão ainda contaminadas pela hipocrisia e o desejo de agradar. Seu louvor é sincero e flui com uma naturalidade própria da inocência. Elas admiram-se mais facilmente e não perdem o encanto, mesmo com as coisas mais pequenas e isso faz delas adoradoras maravilhosas. Por isso o Senhor exaltava o louvor que elas podem dar.


·      As crianças testemunham mais fielmente
     As crianças não têm dificuldade em falar do que amam. Não sentem que seja inapropriado ou constrangedor. Nem se preocupam se os outros vão ou não valorizar o que elas amam. Simplesmente falam e dão testemunho dique amam por isso são evangelizadoras por natureza e gostam de falar de seu Senhor quando o conhecem. 



Candidatos a Discípulos

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Visitar Roma foi uma oportunidade especial que me foi dada num congresso médico. Ver as antigas ruas e monumentos e conhecer o ambiente daquela que foi a capital do mundo é sempre marcante sobretudo para quem ama história. Na visita estava incluída uma passagem pela praça de São Pedro e a sua famosa catedral. Na saída paramos junto de muitas lojas de lembranças apinhadas de turistas. As lembranças eram sobretudo de cunho religioso, mas não me interessavam. No entanto, entrei na loja apenas para acompanhar meus companheiros. Um dos médicos da nossa comitiva parou junto a um conjunto de cruzes muito bonitas e coloridas. Olhou para duas delas, verificou os preços e então comentou com a esposa: “quero uma cruz mais barata…”. E a frase dele me chegou como uma bomba e me acompanha até hoje. Quero uma cruz mais barata parece ser o mote de milhões de cristãos no mundo de hoje. Por isso há tantos que se apresentam como “não praticantes”. Mas, será isso possível? Será que pode haver não praticantes nas fileiras de seguidores de Jesus? O que ele teria a dizer sobre isso? E temos o texto certo para responder:

Lucas 9: 57 a 62
E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.

E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Lucas 9:57-62
E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Lucas 9:57-62
E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Lucas 9:57-62
Este é um texto de caminho como muitos de Jesus. Quando lemos os evangelhos parece que Jesus estava sempre em movimento e poucas vezes parado. Ele não parava muito tempo em lugar nenhum, sempre à procura de um novo auditório ou gente para abençoar e os discípulos atrás dele. Aqui o vemos novamente a caminho da Judeia e encontramos 3 personagens nessa parte da viagem. Podemos chama-los de candidatos a discípulos.
Temos muito que aprender com o que se passou com eles:

1º Candidato: o entusiasta
O texto em Lucas não diz mas pelo relato de Mateus sabemos que este era um escriba. Algo notável. Os escribas como grupo eram contrários a Jesus. Eles eram em geral mestres, rabis e viam Jesus como concorrência. Além disso eles eram seguidores estritos da lei que viam em Jesus um radical que desprezava a lei curando o sábado e comendo com as mãos por lavar. Mas este escriba vence a pressão de grupo (já por si digno de nota) e se apresenta voluntariamente ao Senhor cheio de entusiasmo com uma afirmação que parece notável. Olhamos para sua afirmação e parece tudo o que Jesus poderia desejar. O mestre acaba de passar por Samaria e de ser rejeitado lá. Ele tentara hospedagem numa aldeia samaritana, mas fora rejeitado. E vindo dessa experiência, receber um escriba entusiasmado parecia ser o remédio certo.

O homem parece convicto. Sua afirmação é impressionante. Mateus diz que ele se dirigiu a Jesus chamando-o de Rabi. No texto de Lucas não há designação dada a Jesus, mas fica implícita a aceitação dele com mestre. As versões que colocam o homem e chamar Jesus de Senhor não estão de acordo com os textos mais aceitos. Na verdade ele vem a Jesus com a declaração que está pronto para ser seu seguidor, seu discípulo, por onde quer que Jesus vá. Ele parece muito convencido sobre o valor de Jesus ou não teria rompido a barreira de seu grupo. Ele parece também convicto de sua devoção visto que se ostra disposto ao que Jesus desejar. Irá com ele a qualquer lugar. O que poderia o Senhor fazer se não aceitar com alegria? E, no entanto, a resposta de Jesus parece estranha… como quase sempre…

Jesus fala de raposas e aves do céu. Certamente animais fáceis de ver na região sobretudo nos caminhos. Mas o que quer ele dizer com isso? Porque rejeitar o entusiasmo do escriba? Que tipo de resposta é essa? Ora Jesus conhecia os corações e ele viu o interior deste homem. Era entusiasmo a mais e sem entendimento. Ele queria mas não sabia bem o que. Ele olhava para Jesus e via multidões, sucesso, curas, maravilhas, milagres e queria fazer parte de tudo isso. Ele entendeu que poderia se juntar a Jesus para usufruir de todas essas vantagens. Vamos sair por aí mestre e vai ser maravilhoso. Mas Jesus lhe dá uma resposta que parece perguntar: está preparado para o preço? Já avaliou o custo disto tudo? Será que já percebeu que ao lado de multidões e maravilhas há muita rejeição, muita animosidade e pouco conforto? Se o que você deseja é um festival de milagres e uma boa recepção a noite, veio ao mestre errado. Com Jesus não há conforto, não há repouso e o fim será uma cruz onde não havia mesmo lugar onde repousar a cabeça.

Jesus é profundamente honesto com o escriba. Mostra-lhe que para o seguir há um custo, há uma exigência e há um sacrifício. Não posso seguir a Cristo pensando em meu conforto, em meus investimentos, em meu bem estar. Se o seguir posso ter a certeza de nunca ficar a perder em nenhum sentido, mas p custo será alto. Será total. E porque seria diferente? Se Ele deu tudo por mim, se Ele fez tudo por mim, se Ele deixou tudo para a minha salvação, porque o custo de o seguir seria menor?... Não há cruzes baratas!

2º Candidato: o relutante
Então temos um segundo homem. Não sabemos do escriba mas me parece que a resposta de Jesus foi tipo balde de água fria que o assustou e levou a repensar seu chamado. Mas aqui temos uma história bem diferente. Este candidato não se apresenta a Jesus. É abordado pelo mestre. Deveria ser alguém que o seguia de algum modo. Já deveria ser conhecido ou então foi daqueles, como Mateus, que o Senhor viu e simplesmente chamou. As palavras de Jesus para ele são curtas e directas como foi no caso de outros discípulos chamados: Segue-me. Sem rodeios, sem discursos, sem apelações. Simplesmente segue-me. E que privilégio. Quantos discípulos Jesus chamou? Não eram 12 os apóstolos? Não deveria ter sido só 12? Como podia ele chamar outros? Quem seria esse homem que recebeu tal privilégio? E ficamos sem saber. Nem um nome temos pela simples razão de que ele não percebeu o que se passava.

A prova de que não percebeu foi sua resposta. E pode ser que achemos a resposta razoável. Na lei judaica o cuidado dos pais e dos funerais dos pais se sobrepunha a qualquer exigência religiosa. Alguns ao lerem isto ficam com a ideia de que o pai do homem acabara de morrer e por isso era só uma questão de ir fazer o funeral e voltar. Mas não deve ser esse o caso. A linguagem é oriental. O pai do homem nem devia estar doente. Não se tratava de uma urgência. O que ele disse a Jesus foi: “tenho que cuidar de outros interesses primeiro; há outras prioridades; quando meu pai morrer e eu tiver minha herança e a vida estiver resolvida então posso pensar em te seguir e terei alegria nisso.” O homem não entendeu o privilégio e nem a palavra de Jesus apesar de breve e a resposta vai explicar o que Jesus pensava disso.

O Senhor lhe responde: “Vivemos num mundo morto em relação a Deus; as pessoas vivem sem entender a razão de sua existência; tu tens tido a oportunidade de perceber onde está a vida real; tens tido o privilégio de conviver com o Senhor da vida; podes fazer parte da maior missão que existe, a de Deus, de restaurar a humanidade; portanto, deixa aqueles que não entendem a vida, que estão na verdade mortos, tratar dessas coisas, mas tu segue a ordem dada e anuncia a reino de Deus que não há nada mais valioso neste mundo”. Jesus não estava a negar a este homem a responsabilidade de enterrar seu pai. Estava era a mostrar-lhe que suas prioridades estavam trocadas e que segui-lo não era um hobbie para a velhice ou uma actividade paralela numa vida cheia de outros compromissos.

O que este homem falhou em perceber é que Jesus não lhe fez um convite. Não foi um apelo e muito menos uma sugestão. Foi uma ordem! E ELE tem todo o direito de o fazer. Só Ele tem esse direito. Deu sua vida para ter esse direito. Tem direito de criação e de salvação. E no entanto, nós como este 2º candidato, muitas vezes olhamos para as ordens de Jesus como meras sugestões. Como se seu comando fosse uma opinião ou um convite amigável. ELE é SENHOR! Ele não sugere, ordena. E segui-lo é seguir o Senhor e entender que sou servo e que minha vida só será bem vivida se for a seu serviço. E por não entender isso concluímos que este candidato também ficou pelo caminho. Não há cruzes baratas!

3º Candidato: o confuso
Ainda outro candidato se cruza com Jesus nesta viagem. E novamente um voluntário que aborda com aparente alegria. E este parece mais centrado, visto que chama a Jesus de Senhor. Não é tão descritivo como o 1º candidato e não parece tão entusiasta, porque junto com sua proposta lança logo uma condição. A situação aqui começa complicada porque este homem acha que pode seguir a Jesus colocando as suas condições. “À minha maneira”. Vou te seguir, mas há certos pontos que devem ficar bem claros. Vou ser teu discípulo, mas deves perceber que tenho minhas colocações. Quero ser teu seguidor, mas há alguns limites e coisas que devo fazer também…”. Ele quer seguir a Cristo, mas a família, os amigos e provavelmente outras coisas mais ainda tinham um lugar muito importante em sua vida. Ele queria Jesus mas não estava preparado para fazer dele sua prioridade. Nós que já vimos os outros 2 candidatos percebemos que isto não pode terminar bem.

O comentário de Jesus a este candidato fala sobre compromisso e prioridade. A ilustração é óbvia. Quem está a arar não pode se desconcentrar muito menos olhar para trás. Se o fizer vai estragar todo o trabalho. O que certamente aconteceu com este homem é que ele perdeu a oportunidade de seguir a Jesus. Com suas outras prioridades em mente ele vai deixar que o Senhor siga viagem e nunca mais terá a chance de o seguir e de ser seu discípulo. Para Jesus não havia como segui-lo e ainda manter outras agendas. Ele exigia a prioridade máxima. Não há cruzes baratas!

E, no entanto, não há como seguir a Jesus. Ele deu sua vida por nós. Ele nos ama com amor incondicional. Ele nos chama para uma caminhada de glória em glória cada vez mais perto de Deus e com a certeza da eternidade. Que mais poderíamos pedir? Seguir a Jesus é o começo do céu na terra mesmo com todas as dificuldades, mas exige compromisso, prioridade, desprendimento.


O Véu Rasgado - Momento Chave da Salvação



Tudo o que envolveu a morte de Jesus foi marcante e significativo. Foi o momento chave da salvação planeada por Deus. O culminar do seu plano para o resgate da humanidade. Fica difícil assinalar um ou outro aspecto. Entre os eventos que marcaram a morte de Jesus se contaram as trevas estranhas que envolveram a cidade, o terremoto e as ressuscitações. Mas um deles, pouco trabalhado, tem um significado marcante e implicações especiais para aqueles que entendem a Jesus como o salvador e a sua igreja como a sequência da sua obra na terra. Esse evento foi o rasgar do véu do templo.
O Véu do templo era, na verdade, uma pesada cortina feita de modo semelhante ao reposteiro que separava a entrada do lugar santo. Era feito de lã trançada com linho (só a lã conseguiria ser tingida naqueles tempos e o pano era colorido) numa mistura que era proibida para vestuário (Levítico 19:19 e Deuteronómio 22:11). Essa cortina tinha uma mistura de cores com azul, púrpura e escarlate e tinha bordada querubins. Servia para separar o lugar santo do lugar santíssimo ou santos dos santos, mantendo o local mais sagrado do tabernáculo em escuridão e fora dos olhares de quem estivesse no lugar santo a trabalhar. Esse véu era sustentado por 4 colunas de madeira de acácia revestidas de ouro com bases de prata e ficava pendurado através de colchetes de ouro. A ordem dada para o tabernáculo foi seguida bem de perto na preparação do templo. A sustentação no templo seria diferente, mas a cortina em si e a estrutura seria a mesma. Era uma cortina grossa e muito difícil de rasgar. Mas, o que aconteceu de maravilhoso na crucificação não foi o facto de o véu se ter rasgado, mas que foi rasgado de alto a baixo abrindo o santo dos santos. Deus abriu o véu e ao faze-lo assinalou muitas coisas maravilhosas.
"E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito.
E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras."
Mateus 27:50,51
Este evento é estranho e significativo. Fora o Senhor que dera a planta para o tabernáculo que depois foi usada no templo. Foi Ele que mandou reservar um lugar para ficar separado dos demais. Foi ELE que mandou executar o véu e colocá-lo. Era ELE que tinha o direito de mudar essas regras e o fez na hora da morte de Jesus. E o que isso queria dizer? Certamente muita coisa e ao meditar sobre o assunto podemos chegar a várias conclusões:
         A implicação mais natural é o acesso à presença de Deus. Se a função do véu era reservar o santo dos santos para apenas o sumo-sacerdote, o seu rasgar significa a abertura deste espaço reservado, desta privacidade da presença do Senhor para todos. Não mais um lugar fechado, mas agora aberto. Não mais a limitação de acesso a uma pessoa só, mas agora a todos. Não mais um ritual complicado e difícil para chegar à presença de Deus. A presença do Senhor não se manterá algo misterioso e único, mas será algo a que todos os homens podem aceder pelos méritos de Jesus. Sua morte nos abre a entrada no santuário e a chegada ao trono da graça. E como deveríamos valorizar isso. Não um Deus distante, mas um Deus acessível a qualquer um e enquanto o desejar. Claro que apenas pelos méritos de Jesus ganhos com o seu sangue.
         Mas a abertura não foi só em termos de presença, mas também de tempo. Antes o santuário era acessível apenas uma vez por ano. Agora passa a estar aberto sempre. A qualquer hora se pode entrar pois não há mais véu a separar. O homem, qualquer homem, pode entrar na presença do Senhor a qualquer hora e esta bênção é demasiado grande para sequer a entendermos.
         O rasgar do véu simboliza a mudança de era e de aliança. A antiga aliança era marcada pela lei e pela restrição. A lei, por melhor que fosse, era marcada pelo negativo. Não faça isso, nem aquilo nem aquilo outro… agora na graça somos livres, não para fazer o que queremos, mas para andar com Deus e nessa comunhão desejar o que ELE deseja e aprova e desse modo usufruir de uma comunhão sem paralelos. Não mais a velha aliança que se provou incapaz de salvar, mas a nova que sendo aberta é livre e trás liberdade a todos.
         Mas o rasgar do véu nos fala de revelação. Um véu serve para ocultar, para manter em segredo, para esconder. O seu rasgar abre a todos os olhos o que era oculto. A salvação era dada em figuras, em símbolos, em imagens e parábolas ligadas ao sistema sacrificial. Agora está patente. Não há mais dúvida do que ela é e significa. Agora podemos entender a salvação de um modo mais claro como nunca. Agora vemos o que ela representou e significa. Agora a temos bem patente e isso faz toda diferença. Agora podemos compreender o Senhor e seu amor de um modo novo muito mais amplo que antes. Ainda não vemos tudo mas temos muito mais clareza que na velha aliança porque o véu foi rasgado.
         O rasgar do véu abre a possibilidade de um sacerdócio universal. Antes, só o sacerdote especial entrava no santo dos santos. Para que? Para interceder pelo povo. Para fazer expiação pela nação, para pedir a Deus pelos seus pecados e pelos dos outros. Era necessário um sacerdote. O homem não podia fazer isso sem essa ajuda. Agora, com a abertura, todos têm acesso e o quadro muda. Não mais limitados em relação a entrada não temos também mais necessidade de um sacerdote, mas podemos nós mesmos nos tornar sacerdotes de Deus. E na igreja somos sacerdócio real. Cada crente um intercessor, cada crente um sacerdote que leva a Deus as vidas e lutas dos outros e pode fazer sua parte para a bênção da nação. Uma igreja feita não de duas classes distintas (sacerdotes e povo, clero e laicado) mas de irmãos e irmãs que juntos fazem a obra de Deus.
         O rasgar do véu faz com que cada crente, com acesso pleno a presença de Deus, com sacerdócio universal reconhecido, passe a levar consigo essa glória do Senhor. Não mais um santo dos santos fechado e separado, mas um santuário ambulante. De certo modo voltamos ao tabernáculo, mas ainda mais abrangente, com todos os crentes servindo de templos vivos para a manifestação da graça de Deus onde quer que se desloquem.
O rasgar do véu foi muito mais que um capricho ou um evento menor. Foi mais um dos modos do Senhor nos mostrar a maravilha que estava a acontecer e a bênção que a humanidade estava a receber. Hoje, quando lembramos novamente esse evento, sejamos gratos e celebremos. O véu foi rasgado. Não criemos mais mistérios e nem nos cansemos em inventar novas restrições. A graça nos alcançou. Entramos na presença do Altíssimo pelos méritos de Jesus com corações lavados no sangue do cordeiro. Entramos para receber, para interceder, para levar a glória connosco e testemunhar dessa salvação.


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