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Ira de Deus: Como Entender?

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Há muitos temas controversos na Bíblia e um dos mais complicados é a ira de Deus. Não temos dificuldade em aceitar um Deus de amor e compaixão. Não temos dificuldade de entender um Deus que tem todo poder. Mas Deus irado parece coisa de mitologia pagã e trás à mente um ancião de barbas brancas que do céu lança raios sobre as cabeças de todos os que não o agradam e que exige submissão total. Essa imagem incomoda e cria muita rejeição. Mas, a Bíblia fala mesmo da ira de Deus e não poucas vezes. No Antigo Testamento temos 432 menções à ira do homem e de Deus e no Novo Testamento mais 36 vezes. Como entender, então, essa ira em nosso contexto? Como explica-la a alguém que usa esse argumento para negar o Deus da Bíblia? 

Nossas dificuldades com o tema começam por causa de toda a tradição antiga que vem de muitas origens e fala da ira de Deus como algo caprichoso. São mitologias diversas que falam de deuses em termos antropomórficos, deuses que mostram sentimentos e reacções iguais as dos homens e cuja ira é maligna e nada santa. Essa tradição dificulta muito a nossa compreensão porque quando a Bíblia fala da ira de Deus fala de algo que não é nada parecido com a nossa ira. O homem se ira injustamente por egoísmo, por frustração, por entender que alguém falhou em seus direitos, que algo lhe foi negado. Ora, a ira de Deus não é nada disso, e se olharmos melhor para os momentos em que Deus se ira teremos que reconhecer que a sua ira é mesmo obrigatória. Vejamos como:  
  • A ira é obrigatória diante do mal, do erro, do abuso, da discriminação, da injustiça, da crueldade. Deus fez um mundo perfeito e um homem bom. Este escolheu o pecado e desvirtuou tudo o que Deus criou. Tornou-se mau e danificou tudo o que o Senhor criou. Tornou-se mau sobretudo para com seus semelhantes. Diante disso como não se irar? Poderia Deus ser Deus de verdade e não se irar contra a destruição da sua bela criação? Seria Ele Deus justo se não se irasse contra a maldade humana que abusa, maltrata, tortura e mata outros seres humanos? Que tipo de Deus ficaria indiferente diante de tanta maldade? Essa ira não é errada, é obrigatória.  

  • A ira é obrigatória quando existe amor. Imaginemos um pai que ama sua filha de todo coração ou um marido que ama sua esposa com todas as forças. Agora imaginemos que alguém está a fazer mal a esta filha ou esposa. Acharíamos natural que este homem não se irasse? Seria aceitável que ele assistisse ao abuso de suas amadas sem revelar uma ira intensa? Certamente que não e ninguém o condenaria por se irar. Porque, então, não percebemos que a ira de Deus está ligada a seu amor? Ele ama intensamente o mundo e a humanidade e quando vê o abuso que lhe é feito tem que se irar. Sua ira é mais que justificada pois é santa e voltada exclusivamente contra o mal e não algo egoísta e para proveito próprio.  

  • A ira é obrigatória diante do desperdício. Quem nunca se irritou ao ver comida desperdiçada ou outros bens que poderiam fazer a diferença para outras pessoas sendo jogados fora com desprezo? Desperdício é algo maligno e que desperta justificadamente a ira. E Deus? Como não se mostraria irado contra o desperdício de tudo de bom que Ele nos deu e que não sabemos usar e ainda esnobamos?  
Vemos então que a ira de Deus é sempre santa e nunca menos santa ou nobre que sua justiça. A ira nesse caso é mesmo parte da justiça santa de Deus. Mesmo em relação ao homem, a Bíblia distingue a ira justa e positiva da ira tola e precipitada que é viciante e deve ser vencida e dominada. Quando Jesus se irou contra os vendedores do templo ou com a hipocrisia dos fariseus, não era algo maligno ou errado, mas uma ira santa e justificada. O facto de termos dificuldade com nossa ira por ser quase sempre errada não significa que a de Deus o seja. A ira de Deus nunca é errada e nunca é egoísta mas se volta contra o mal, contra o pecado, contra o que prejudica. A ira de Deus visa a salvação e a recuperação do pecador e por isso nunca será maligna. 

O contrário da ira não é o amor, como alguns podem pensar, mas a indiferença. Deus se ira exactamente porque ama e o contrário seria se tornar indiferente ao homem e ao seu estado bem como ao seu destino. Deus não encara a humanidade como um empecilho à sua felicidade ou um problema no caminho. Ele ama o mundo e por isso se preocupa e por isso, por vezes, se ira. 
O que também devemos guardar em relação à ira de Deus é que ela não é eterna, nem vingativa e nem rancorosa. Ela é aplicada na medida certa e com objectivos bem definidos de mudar a situação para melhor visando a recuperação. 

A ira que Deus manifesta serve como correctivo e disciplina para que encontremos um caminho melhor. É seu prazer desviar sua ira e seu furor e o faz com muita frequência na palavra. O que alegra o coração de Deus é poder deixar de lado a disciplina punitiva e mostrar seu abundante amor. Cabe ao homem reagir de modo a permitir que seja assim. Como um pai que ama, o Senhor prefere mil vezes abençoar seus filhos amados que respondem ao seu amor com uma atitude positiva que ter que disciplinar os filhos desobedientes que se prejudicam e prejudicam outros. Afinal a ira de Deus até faz muito sentido e deve ser vista como parte essencial de sua santa justiça.

Thank God it's Friday!

MALDITO TRABALHO!!?
O individuo parecia transtornado. Os músculos da face tensos e contraidos enquanto por entre os lábios saía o impropério: "se um dia encontrar quem inventou o trabalho dou-lhe um tiro nos miolos!"  Assisti a cenas parecidas com esta por mais de uma vez. Era um desabafo contra uma atividade penosa que servia apenas para sustentar a familia.

Outras expressões menos dramáticas, mas igualmente contrárias ao trabalho são as que vemos nas tiras de banda desenhada do gato Garfield onde ele confessa: "I hate mondays" (Detesto segunda-feira) ou "Thank God it´s friday" (Graças a Deus é sexta).  Todas essas expressões servem para transmitir a mesma mensagem: o trabalho é algo detestável do qual todos nos queremos ver livres!  Será essa a visão biblica e cristã do assunto?

Devemos começar por reiterar que o cristão deve ter uma cosmovisão guiada pela Biblia em todas as coisas. A vida cristã não pode ser apenas a que se vive em algumas horas no domingo ou em dias sagrados, mas deve ser a vida diária que engloba todas as atividades que desenvolvemos.  Uma fé que não diga respeito ao meu trabalho será de pouco valor. Se gasto a maior parte do meu tempo trabalhando então minha fé deve ter algo a dizer sobre isso ou não será uma fé relevante! 

Encurralar meu cristianismo aos domingos é destituí-lo de toda influência prática e
real na minha vida! 

Logo, minha fé tem que me falar de meu trabalho.   E o que aprendemos na Bíblia sobre o trabalho?

1) O Trabalho precedeu o pecado na História Humana

Biblicamente, o trabalho aparece antes do pecado.  Deus criou o homem e o colocou no jardim para que cuidasse dele e dos animais. O primeiro homem foi jardineiro, agricultor e criador de animais. Essa atividade era plena, ocupava os dias de Adão e Eva e representava uma boa utilização das capacidades com que o Criador os dotou.   Logo, sendo algo original ao homem, estava inicialmente em estado puro. O trabalho não veio como castigo por causa do pecado como pensam alguns, mas o precedeu com o intuito de dar ao homem propósito e realização.

2) O Trabalho foi instituído por Deus
Segundo Genesis 1 e 2,  foi Deus o inventor do trabalho.  O Criador conhecia a criatura como ninguém.  Deus trabalhou e ainda hoje trabalha, criou o homem à sua imagem, logo, criou um ser trabalhador.  Deus deu ao homem trabalho especiífico e esse mandato precedeu todos os outros inclusive os da era da Igreja.  Aqueles que se insurgem contra o trabalho em si, se rebelam contra Deus.   Aqui não discutimos a existência de trabalho escravo, de trabalho injusto, de trabalho infantil ou mal remunerado(fruto do pecado e da ganância dos homens).  Falamos do trabalho como instituição!  Do trabalho honesto, que serve para sustento próprio e para prover outros.  O trabalho como tal, foi criação de Deus para valorizar e honrar o homem e por isso mesmo nenhuma cultura do mundo até hoje honrou o preguiçoso.

3) O Trabalho foi valorizado nos 10 mandamentos
Sabemos que o decálogo tem as bases de toda a lei.  Nesses 10 mandamentos encontramos o resumo daquilo que seria o guia prático para o povo de Israel.  No oitavo e no décimo mandamentos há uma clausula de proteção a propriedade privada que nos mostra o valor do trabalho. Na lei estipulada pelo Senhor há regras especificas para salvaguardar aquilo que é fruto do trabalho do homem.

4) O Trabalho era muito valorizado pelo povo de Deus
Na cultura judaica resultante da orientação divina o trabalho sempre foi valorizado. Todo menino judeu deveria aprender uma profissão mesmo que depois se dedicasse a outras atividades mais intelectuais. Isso demonstra a importância do trabalho para o povo de Deus.

5) Jesus e os lideres Cristãos foram trabalhadores
Todos sabemos que Jesus foi carpinteiro.  Até os 30 anos ele exerceu essa profissão que aprendeu de seu pai terreno dando assim uma visão elevada do trabalho humano. O Criador feito criatura não rejeitou a vida de trabalho.  Os apóstolos de modo geral eram homens simples de trabalho que o Senhor chamou para a missão.  Paulo manteve sua profissão como fazedor de tendas e em boa parte de seu tempo, mesmo como missionário, ele se sustentava com sua atividade profissional.

Ainda a propósito da vida de trabalho de Jesus será interessante lembrar o episódio de seu batismo.  Deus o Pai falou do céu "Este é meu filho amado, em quem me comprazo!"para referir seu contentamento com Deus o Filho.  Fica a questão: Por qual milagre o Pai exaltou o Filho?  De que sermão falava Deus ao elogiar Jesus?  Na verdade, o seu ministério público ainda estava por começar, logo,  o contentamento do Pai não se referia a nenhum milagre, maravilha ou mensagem.  O Pai estava feliz com Jesus, que até então vivera como um simples carpinteiro, honesto, trabalhador, sustentando a familia e vivendo um testemunho de profunda comunhão com o Pai.  Seria bom meditarmos nisso.

6) O Ensino bíblico incentiva o trabalho
Muitas das parábolas de Jesus acontecem no ambiente do trabalho.  A famosa parábola dos talentos diz respeito ao galardão de trabalhadores esforçados.  As epístolas seguem nessa linha e Paulo incentiva mesmo os escravos a serem bons trabalhadores e darem exemplo como servos dedicados.  O trabalho recebe nas escrituras uma posição destacada como parte fundamental da vida.  Na verdade, o trabalho é um dos modos mais importantes de expressarmos nosso caráter e personalidade.  Um mal trabalhador dificilmente convencerá as pessoas de que é uma boa pessoa.  Minha forma de encarar e viver minha vida de trabalho certamente revela muito de quem eu sou. por isso a Biblia incentiva o crente a ser um bom trabalhador.

_ Se o trabalho é assim tão valioso e de origem divina, então por que é que hoje temos uma visão tão negativa do trabalho?

- Os gregos faziam uma dicotomia marcante entre o material e o espiritual.  Uma das correntes mais fortes da filosofia grega apresentava tudo o que é matértia como negativo e mal.  Nessa visão, o trabalho físico perdia valor em relação ao espiritual.  O Cristianismo bebeu nessa fonte, passando a considerar o trabalho do espírito (pregação, ensino, serviço religioso) como mais valioso que o do corpo.  Isso contribuiu bastante para uma visão negativa do trabalho no mundo de cultura judaico-cristã.

- O pecado contaminou tudo, inclusive o trabalho. Quando pecou, o homem perdeu a comunhão com Deus e nessa perda se foi o propósito para a vida, que incluía o trabalho.  O homem sem Deus não tem razão para viver e se vê como fruto do acaso.  Nessa perspectiva o trabalho é verdadeira prisão que nos impede de aproveitar a vida.  Surge uma visão negativa do trabalho.

- A mentalidade de consumo e lazer que impera hoje incentiva o entretenimento em detrimento do trabalho.  O homem moderno vê o trabalho como aquilo que tem que fazer para poder ter dinheiro para gastar em coisas e em serviços que lhe tragam prazer e bem estar.   Nessa perspectiva o trabalho é novamente o vilão que nos rouba a melhor parte da vida.  A aposentadoria se torna a terra prometida, um período em que não precisaremos fazer nada que não queiramos e vamos gozar a vida.  Muitos, senão mesmo a maioria, descobre tempos depois que era mais feliz quando trabalhava e não sabia...

_Qual deve ser a posição do cristão sincero diante do trabalho?


Propósito: Deus nos criou com um propósito e para tal nos dotou de talentos e virtudes. Devo entender como fui criado, desenvolver minhas habilidades e usa-las para experimentar toda a razão da minha existência. Dou glória a deus como Criador quando cumpro minha missão na terra trabalhando de acordo com as caracteristicas que deus me deu. Uns serão bons para certas coisas, outros para outras. Podemos e devemos todos encontrar alegria e realização no que fazemos.

Honra: O trabalho honesto deve ser valorizado e honrado no meio cristão e no seio da igreja. Não devemos cair na mentalidade errada de desacreditar certos tipos de trabalho. Precisamos de todos para viver melhor e a igreja deveria estar na linha da frente na preservação da dignidade do trabalho.

Bênção: Se estou a trabalhar naquilo em que sou bom, porque Deus me criou assim, então vivo para a glória de Deus e posso ser bênção para os demais!  Por exemplo: um pintor de parede:  num mundo escuro, sujo e sem graça por causa do pecado, o pintor pode se ver como aquele que traz vida, cor e alegria.  Depois de terminar seu trabalho, um lugar que antes era feio e sem vigor pode ter graça, beleza e animar os espíritos. O pintor pode se ver como sócio de Deus no propósito de recuperar as cores que o pecado manchou.

Eu sou médico. Entendo que a doença não fazia parte do plano de Deus para o homem e surgiu como consequência do pecado. Quando luto contra a enfermidade e trabalho para a saúde entendo que estou engajado na tarefa Divina de recuperar o homem por inteiro.

Cada profissão pode entender sua atividade como uma sociedade com o Criador na restauração da Criação e desse modo cada profissional passa a ser um agente de salvação na terra.  Essa visão madura e abençoada do trabalho deveria encher o coração de cada cristão. Como seria diferente um trabalho feito assim!  Deixe-se contagiar e contagie outros com essa visão e estaremos trabalhando por um mundo melhor para a glória de Deus!

Joed Venturini

PORQUE A BIBLIA TERMINA?


 
Eis uma questão interessante e que no entanto nunca me tinha ocorrido. Se a Bíblia é a revelação de Deus, se Ele é um Deus que fala e se comunica, e se a Bíblia é nossa principal forma de receber revelação (uma vez que a presença encarnada de Deus entre os homens foi para um período curto de tempo em Jesus) então porque a Bíblia terminou? Porque não temos hoje profetas e apóstolos escrevendo as suas revelações com a mesma autoridade de então?

Esta pergunta longe de ser irrelevante está na verdade na raiz de uma das questões mais significativas para todo Cristão – a autoridade das escrituras. Nós defendemos nossa fé unicamente com base na Palavra Sagrada. A Escritura é para nós revelação direta e especial de Deus para o Homem e nossa principal fonte de entendimento de um Deus de outro modo transcendente. Mas vivemos num mundo que questiona cada vez mais essa nossa afirmação. Vivemos num mundo que vê a Bíblia apenas como mais um livro velho, válido pelo valor histórico e cultural, mas irrelevante para nossas vidas práticas e não ser que sejamos fanáticos religiosos obcecados pela igreja. E em que ficamos?

Nós cremos nas afirmações e defesas internas da Bíblia como as de Paulo e Pedro e as marcantes afirmações do Senhor Jesus:

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.” 2 Timóteo 3:16-17

“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” 2 Pedro 1:21

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar.” Mateus 24:35

Como podemos então entender que essa revelação tenha terminado? Eis a questão que desejava meditar brevemente com os irmãos.

Iniciamos com o próprio conceito de revelação de Deus. Ele era NECESSÁRIA, ou seja, não tínhamos capacidade, como humanos limitados que somos, de perceber a verdade de Deus se Ele mesmo não se revelasse. Na Bíblia encontramos essa revelação a nós que nos permite conhecer a Deus, sua pessoa, sua forma de agir e seus planos.

Mas essa revelação era SALVADORA ou seja, era feita de modo a trazer o homem de volta a comunhão que tinha sido perdida no jardim quando do pecado. Toda a revelação de Deus na Palavra visa só isso – o retorno do Homem ao plano original de Deus de viver em comunhão plena e estável com Ele.

Essa revelação foi então dada de forma PESSOAL. Foi revelação de um ser pessoal e outro ser pessoal, o homem. O Senhor o fez por meio de homens que escreveram por Ele inspirados, o que Ele desejava que ficasse escrito, de modo a estabelecer essa relação. Enfatizamos isso porque a revelação não foi para nos trazer ritual, ou cerimónia ou religião no sentido litúrgico, mas relação no sentido pessoal. A revelação visava e visa a salvação e o resgate dessa comunhão.

A revelação de Deus foi então PROGRESSIVA. O Senhor não mostrou tudo de uma vez, mas como bom professor foi nos revelando passo a passo, dando ao homem a capacidade de assimilar essas verdades. No AT temos muitas coisas, que vivendo hoje, não são fáceis de entender. Mas tratava-se de uma fase inicial da revelação. Como uma espécie de primária. O homem estava na escola primária e não podia lidar com matéria de liceu ou de faculdade. Mas a medida que o tempo passa, de modo progressivo e sistemático, o Senhor vai levantando mais e mais o véu até Jesus, auge da revelação.

Ora, sendo salvífica e progressiva, podemos então perceber que a revelação fosse passível de ser COMPLETADA. No que diz respeito ao que precisávamos saber para a nossa salvação e a nossa volta a comunhão com Deus a Bíblia termina porque acaba a revelação nesse sentido. Tudo o que precisávamos saber para sermos salvos e voltar a comunhão com Deus foi dito. Tudo que era preciso saber para viver bem com o próximo, ser cheio do Espírito de Deus, cumprir nosso propósito nesta vida e estar preparados para a próxima, foi dito e terminado. Por isso a Bíblia terminou.

É bem provável que os escritores do texto sagrado não pudessem perceber o que estava acontecendo. Olhamos para os escritos de Moisés, Davi, os profetas e mesmo os evangelistas ou o Apostolo Paulo e os vemos como uma bordadeira debruçada sobre seu bordado, cuidando para que aquela parte do trabalho fique perfeita. Mas pare um pouco e recue permitindo uma visão completa do bordado e verá o que na verdade representa cada parte do trabalho.

Nós vivemos em uma época privilegiada. Podemos olhar o “bordado” terminado. Na Revelação que temos em mãos há um trajeto completo, uma história terminada que começa num jardim e caba numa cidade celestial, que começa com o homem criado perdendo a comunhão e termina com ele vivendo em total harmonia com o Criador. Temos a aliança inicial e a aliança final, o Israel de Deus e a Igreja de Cristo. Temos tudo e ficamos maravilhados com o que o Senhor nos dá. Sabemos como tudo começou porque começou e o que foi que deu errado. Somos orientados no caminho da solução do problema maior do pecado e temos um vislumbre claro e definido de como tudo irá acabar. Revelação necessária, salvífica, pessoal, progressiva e terminada.

Mas, não podemos terminar aqui, apesar de tudo o que vimos ser maravilhoso e nos chamar de novo à maravilha do livro que temos em nossas mãos. De facto temos a revelação de Deus a nós de modo definitivo e completa e isso deveria nos fazer amar, proteger, reverenciar essa revelação de amor e poder mais que qualquer outro bem que tenhamos. Mas mesmo assim não podemos terminar porque se há verdade na afirmação de que essa revelação salvífica está completa também é verdade que a história ainda não terminou e somos a sua continuidade.

Podemos usar a metáfora de uma peça de teatro em 5 actos. O primeiro: a criação de Deus, o segundo: a queda em pecado, o terceiro: o povo de Israel, o quarto: a pessoa, obra e salvação de Jesus e o quinto: a Igreja.

Este ato final não terminou. Somos a Igreja. A continuidade da história e da atuação de Deus no Mundo.

O livro de Atos continua, somos o seu capítulo 29, a igreja viva e gloriosa. O povo escolhido, nação santa e ativa na terra para que a vontade do Senhor seja cumprida em nós e através de nós.

Não tenho Vontade de Ler a Bíblia?

Ciganos brasileiros vão ler a Bíblia em sua própria língua

A mãe estava irritada com as notas baixas do filho. O garoto passava a maior parte do tempo vendo televisão ou jogando no computador. A mãe tentara várias estratégias para o motivar mas, aparentemente, nada resultava. Tentara oferecer prémios, tentara ameaçar com represálias. O menino reagia impávido e sereno e quando a mãe perguntava: Filho não vai estudar? A resposta era invariavelmente a mesma: estou esperando que me dê vontade…

Há coisas que fazemos com vontade como comer um gelado, passear na praia, ir a uma exposição de arte de um pintor que admiramos ou a um concerto de uma banda favorita. Há coisas que fazemos por necessidade, como tomar os remédios diários, ir ao trabalho ou fazer exercício. Se esperarmos que nos dê vontade de tomar a medicação, provavelmente, nunca o faremos. Mas, há momentos na vida em que descobrimos que é necessário e precisamos dela, sabemos que sem ela a nossa tensão dispara ou as dores voltam com força.
 Na vida espiritual esta regra também se aplica. Há quem nunca ore porque simplesmente não sente vontade de orar. Vai orar só na hora da urgência, da crise, da fatalidade apenas para descobrir que não sabe orar e que não tem intimidade com Deus. Há quem espere para ler a Bíblia só quando vontade e por isso nunca o faz. Enfim chega o dia em que precisa de direcção do Senhor e então corre para as escrituras mas descobre que as páginas parecem em branco e não fazem sentido. Há quem deixe para vir a igreja só quando bate o desejo e então nunca vem. E quando num dia especial o faz é para perceber que não conhece quase ninguém, não entende bem o funcionamento do culto e não se sente bem como achava que deveria.
Assim como há muitas coisas na vida que devemos fazer independente do nosso desejo, também na vida espiritual precisamos aprender o sentido da disciplina. Oro diariamente, leio a Bíblia e medito todos os dias, participo dos cultos e actividades da igreja porque aprendi que são vida para minha alma e força para meu espirito. É assim que Deus preparou as coisas para acontecerem e é assim que caminho com Ele de modo a enfrentar as lutas e ter vitórias nas adversidades. Não espere pela vontade, meu irmão. Pratique, participe e verá a bênção descendo sobre sua vida.

O Reino de Deus aos olhos de Jesus

"Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas" Mateus 6:33.
 
Um dos textos mais conhecidos do NT e das afirmações de Jesus. Talvez um dos mais usados e com razão. Surge num contexto sempre moderno e atual. Jesus fala sobre ansiedade, estresse, pressões da vida diária, posse de bens materiais. Fala sobre a atitude diante da vida e chama a uma prioridade diferente. Mas o que queria Ele dizer? O que significava buscar o reino de Deus e a sua justiça? O que entenderiam seus ouvintes da época ao ouvi-lo falar do Reino de Deus? Entender isso será provavelmente uma das coisas mais importantes para quem deseja seguir a Cristo. Então tentemos entendê-lo.

No tempo de Jesus a expressão "reino de Deus" ou "reino dos céus" era bastante comum. Muito mais que nos nossos dias. Mas o que significava? Certamente coisas diferentes a pessoas diferentes, como até hoje. Podemos identificar pelo menos três principais tendências na palestina do I século:

1)    Reino de Deus Imperial

Havia os que entendiam que significava um domínio físico e efetivo de Deus na terra. Uma dominação material. O Senhor daria vitória a seu povo, Israel e lhe devolveria a dominação como nos tempos de Davi e Salomão e isso representaria o reino de Deus numa época de paz e prosperidade nunca vista. É claro que Deus não viria pessoalmente reinar e então se acreditava nessa visão que seria um governante humano a ocupar essa posição.

Essa era a visão de Messias da época. Era aceita pela maioria da população, pelos fariseus, partido importante da época e pelos zelotes revolucionários. Seria, em última análise, a visão que levaria às revoltas judaicas que acabariam por levar à destruição de Jerusalém e à diáspora judaica pelo mundo.

Essa visão seria repetida na história. O reino de Jerusalém, fundado pelos cruzados, era chamado de Reino de Deus. Os reis europeus, muitas vezes, se apresentavam como representantes de Deus, considerando-se príncipes designados diretamente pelo céu e por isso autorizados a governar.

2) Reino de Deus Fora do Mundo

Uma segunda visão seria tida pelos essénios, grupo que pode ser visto como precursor dos mosteiros e conventos cristãos. Criam que a sociedade estava toda pervertida e para viver a vida certa, o reino de Deus, era preciso fugir do mundo e criar comunidades santas. Eles viviam em mosteiros na zona do mar morto sob estrita lei que era exigente ao máximo. Sua visão era escatológica na expectativa da destruição do mundo e início de uma nova era. Essa visão radical era tida por poucos mas muito respeitada.

3) Reino de Deus Conformista

Uma terceira perspetival dizia que já tinham esperado o messias tempo demais. O Senhor não iria dar a Israel o governo. Já o dera a outros povos. Havia que aceitar isso. Viver o reino de Deus seria reconhecê-lo na situação atual e fazer o melhor proveito disso. Esses eram os conformistas que tentavam se adaptar a cultura dominante e viver. Seriam os publicanos mas também os saduceus de modo diferente e a casta sacerdotal dominante que fazia do templo sua fonte de rendimento. Para eles o reino de Deus estava ali mesmo nos proveitos que tinham em tentar viver a vida na presente situação.

4) Reino de Deus no Porvir

Mais tarde, já na era cristã, muitos interpretaram essa questão como o mundo do porvir. Aqui temos aflições mas um dia deixaremos esta realidade e iremos viver noutra. Lá teremos plena paz e viveremos fora do perigo do mal e do pecado. Lá será então total a dominação do Senhor e viveremos uma verdade diferente. Lá será o reino de Deus que aqui na terra não era possível conhecer.
 
5) A visão de Jesus sobre o Reino

O problema é que Jesus não tinha nenhuma dessas posições. Ele sabia que o messias não seria um guerreiro santo que devolveria o poder a Israel. Rejeitava essa visão. Mas não entendia que se devia fugir da vida e por isso não levara seus discípulos para mosteiros mas andava nas vilas e aldeias e era acusado de comer e beber com o povo. Não os queria fora do mundo, mas brilhando nele.

Isso não tornava-o conformista, pois não aceitava a governação vigente como correta. Foi ele quem atacou a forma de os sacerdotes agirem inclusive expulsando os vendilhões do templo aparentemente sem ter recebido autoridade para isso. Tampouco Jesus defendeu que o Reino de Deus seria só para depois da morte, em outra vida, porque falava aos discípulos exatamente das questões diárias que deviam ser enfrentadas. O que era então o reino de Deus para Ele?

Jesus defendia o plano de Deus eterno. O homem, criado para governar com Deus na terra, fora criado puro e sem pecado. Aceitara um golpe de estado que deixara o maligno no poder. Deus então encetara um plano de recuperação, renovação da humanidade e da própria criação. Esse plano passava por formar uma comunidade nova de homens e mulheres salvos do poder do mal, vivos para Deus e no meio de quem, em cujas vidas, Deus pudesse reinar e mostrar o que seria seu domínio no porvir.

Era essa a posição de Jesus. O reino viria um dia em forma física, mas começava já. Seria perfeito um dia, mas não esperava pela consumação dos séculos. Não dizia respeito apenas a uns poucos religiosos que viviam em separação de tudo, mas dizia respeito a todo discípulo de Jesus em meio ao cotidiano. Dizia respeito a não se permitir dominar pelas ansiedades de quem não conhecia o plano de Deus, não conhecia a realidade maior e podia então viver pelo plano maior. O discípulo entende-se parte dele. Baseando sua vida nas palavras e ensinamentos do mestre e salvador.

Jesus exemplificou exatamente isso em sua vida e em sua comunidade de discípulos. Uma vida em prol de outros. De serviço, de festa e alegria, de funerais e tristeza, de companheirismo e amizade. Era vida no sentido maior.

No fim de sua mensagem em Mateus 7: 24 a 27 deixava outra pista na parábola da casa construída sobre a rocha. Em geral vemos essa história como falando de vidas e podemos entendê-la assim. Mas Jesus falava de contrastes presentes. A casa em construção que todo Israel acompanhava era o templo de Jerusalém. Era o sinal maior das aspirações judaicas. Mas era construído por visões erradas do que seria o reino de Deus e acabaria por ruir. Seria a comunidade de Jesus, edificada em suas palavras que viria a triunfar. A profecia acertou em cheio. O judaísmo decresceu e se manteve marginal na história do mundo enquanto o Cristianismo se tornou a maior fé do planeta. Era a casa edificada sobre a rocha - Jesus.

O que isso significa para nós? Vamos parar de trabalhar? Vamos olhar o céu a espera que Jesus venha? Vamos chorar aqui e aspirar pelo céu? Não. Jesus nos chama a ser parte de sua renovação da humanidade. Parte do plano eterno de Deus. Vencendo a preocupação com estas coisas que dominam as mentes de quem não vê o quadro maior. Podemos viver e devemos viver. Trabalho, família, amizade, lazer, festas e funerais. Fizeram parte da vida de Jesus e fazem da nossa. Mas sempre com uma visão maior. Somos salvos pela graça. Somos instrumentos da graça. Somos chamados e viver para mostrar a verdade de Deus e a sua vontade. Acima dos stresses e ansiedades da vida sabendo que aqui e agora participamos da restauração da terra e vamos reinar com Jesus.

O Eleito não estava em Casa

Samuel fora enviado por Deus a ungir um novo rei para Israel. Tratava-se de um ato arriscado que poderia facilmente ser tido como traição. O rei Saul não era propriamente um homem tranquilo e paciente. Samuel sabe os riscos que corre e por isso vai a Belém fazer um sacrifício aparentemente comum. Deus lhe revelou a casa de Jessé como o local onde encontrará o novo monarca. O profeta age com cuidado e logo se entusiasma com o fogoso Eliabe. Apesar de maduro no serviço de Deus ainda se deixava levar pela vista e o Senhor o corrige. Sete filhos aparecem e nenhum é escolhido. Mas falta um, o mais novo, o que tem menos importância. E onde está? Trabalhando! Estava nos campos apascentando as ovelhas do Pai. O eleito não estava em casa!

Não deixa de ser curioso que a Palavra nos mostra de modo repetitivo que o Senhor chama os que trabalham. Ele não busca os ociosos. Não procura os dorminhocos. O Senhor não procura na lista de desobrigados para encontrar seus servos. Ele vai aos que já mostram disposição para o trabalho. Veja uma breve lista:

·       Davi estava nos campos guardando as ovelhas (I Samuel 16)

·       Moisés estava no monte apascentando os rebanhos de Jetro (Êxodo 3)

·       Gideão estava malhando o Trigo (Juízes 6)

·       Eliseu estava arando com bois (I Reis 19)

·       José servia nos calabouços quando é finalmente elevado a governador do Egito (Gênesis 41)

·       Daniel servia no palácio do Rei quando o Senhor lhe dá sabedoria para entender sonhos e visões (Daniel 2)

·       Amós era boiadeiro e cultivador de figos 8Amós 7:14)

·       Habacuque estava de sentinela nas muralhas quando recebeu a resposta do Senhor (Habacuque 2)

·       Pedro e André estavam pescando (Mateus 4)

·       Tiago e João estavam consertando redes (Mateus 4)

·       Mateus estava coletando impostos (Mateus 9)

·       Paulo estava perseguindo a Igreja (Atos 9)

Parece bastante evidente que a regra é que o eleito não está em casa, esta trabalhando. Pensando nisso podemos então tirar algumas conclusões sobre a questão do chamado do Senhor:

·       Deus chama os ocupados, os que trabalham e com isso mostram que se aplicam ao que fazem. Se Ele chama para o serviço é até natural que chame gente que gosta de trabalhar e esteja ocupada. Portanto, não espere terminar sua atividade atual para receber um chamado. Se acha que o Senhor só vai lhe falar quando já não tiver o que fazer, então é provável que não entenda o apelo do Espírito e deixe passar as oportunidades de serviço que o Senhor quer lhe dar. Ele chama gente que esta ocupada e que tem as mãos muitas vezes cheias. Se é um indivíduo cheio de trabalho então saiba que o Senhor pode muito bem convoca-lo.

·       O Senhor chama gente de todas as idades e de todas as áreas de atuação. Pescadores, pastores de rebanhos, agricultores, mas também aristocratas, administradores e príncipes. Sua área de atuação ou sua idade não é limitação para o chamado. Ele convocou Samuel quando era criança pequena e Moisés com 80 anos. Convocou Amós que mal sabia falar em público e Paulo que era um Mestre com alto nível de formação.

·       O sentido do chamado pode ter a ver com o que já faz mas pode ser também uma mudança radical de vida. Daniel e José se mantém em áreas administrativas, Ezequiel e Jeremias já estavam no serviço sacerdotal, mas Eliseu vai de agricultor a Profeta e Pedro de pescador a Apóstolo. Não há limite ao que Deus quer fazer. Hoje em dia temos muitos pastores que são filhos de pastores, mas também vemos pessoas sendo usadas de modo poderoso a quem Deus mudou radicalmente a Vida.

·       Há chamados para a vida toda e há chamados para ministérios específicos e temporários. O Senhor tem a liberdade de usar nossas vidas como quer. O importante é entender o chamado, compreender seu escopo e ser fiel.

Se sua vida está bem organizada, se sua família está vivendo um bom momento, se seu trabalho parece satisfazê-lo em pleno e você louva a Deus por tudo o que tem, parabéns! Louvo a Deus por você e com você. Mas atenção! Esteja atento à voz do Senhor. Ele chama exatamente aqueles que estão trabalhando, afinal, o eleito nem sequer estava em casa...

FLORES OU JARDINS?

O homem foi inicialmente criado para viver num jardim, ou pelo menos é assim que nos conta o Gênesis. Creio que essa descrição da forma como fomos criados ajuda bastante a entender a razão pela qual o homem gosta tanto de flores. Fomos feitos para viver num jardim e nosso primeiro trabalho foi jardinagem, e o cuidado das flores. Amamos vê-las, sentir seu perfume. Fazemos arranjos florais, capturamos seus cheiros em aerossóis para o bem-estar da casa, pintamos e esculpimos flores por todo lado e até nomeamos nossas filhas com nomes florais: Rosa, Margarida, Violeta...
Para desfrutar do prazer especial das flores temos dois métodos básicos: colher flores ou comprá-las numa loja ou então plantar um jardim. Colher flores ou comprá-las é rápido, fácil, na maioria dos casos barato e seguro. Entramos na loja ou no campo, escolhemos o que nos agrada e pegamos. Levamos para casa e escolhemos um jarro e um canto para ornamentar a sala, o quarto ou o hall de entrada. Tudo sem grande esforço e já está! Ali estão elas, as flores, trazendo a alegria, o perfume e a beleza que queríamos. Há evidentemente um senão nessa história. Flores fora do chão murcham. Podem durar 1 ou mais dias, mas por mais resistentes que sejam não passarão de uma semana. Murchas, serão lançadas no lixo e teremos que substituí-las por outras e começamos o processo novamente. Procura, pega, paga, arranja e já está.

A outra forma de ter flores é bem mais trabalhosa. Para isso temos que plantar um jardim. É preciso escolher a terra, comprar adubo, separar as sementes, regar, tirar ervas daninhas, podar, regar novamente e isso em base diária. O custo é bem maior, e exige muito mais tempo. Há risco de nos cortamos com os materiais de jardinagem, há o perigo de nos constiparmos ao pegar uma chuvada ou um vento mais forte ou ainda uma insolação. Mas aqueles que pagam o preço têm outro tipo de flores e de prazer com elas. Têm flores sempre, desfrutam de sua presença e aroma o ano inteiro. A qualquer momento um ou outro canteiro floresce com vida, enquanto o outro amadurece a semente. No jardim a profusão de vida é muito mais exuberante e eventualmente quando algumas flores morrerem, servirão de adubo as próximas e logo o ciclo se reinicia.

Na vida espiritual temos também esse tipo de atitudes. Há os que colhem flores e há os que plantam jardins. Os colhedores investem pouco, querem resultados imediatos, de curto prazo, prezam o momento, amam o evento, vivem na superficialidade da emoção rápida e passageira. Pulam de igreja em igreja, correm atrás de oradores famosos, lêem o livro da moda, escutam o CD da banda ou do cantor da hora, tudo para terem a alegria veloz e a satisfação imediata de seus desejos. Vivem tendo que jogar fora os restos mortais de seus esforços momentâneos e passam a vida procurando uma nova florista onde reacender a chama que dura pouco.

Os plantadores pagam o preço de investir na comunhão. Passam tempo com Deus, valorizam as disciplinas. Adubam seu coração com a palavra e o regam com a oração. Plantam sementes selecionadas e estão atentos às ervas daninhas. É um trabalho por vezes lento. Há sementes que demoram para brotar. Há plantas que exigem muita atenção e cuidado. Mas, ó que glorioso jardim suas vidas é. Florescem e perfumam tudo ao redor. Permanecem e persistem, mesmo nos dias maus. Vicejam com abundância na estação certa. Abençoam tudo que está em sua volta.

Que tipo de apreciadores de flores somos nós? Que tipo de florescimento espiritual queremos? Flores exuberantes por certa quantia de dinheiro ou jardins regados com valor infinito? Vamos plantar jardins espirituais. Vamos arregaçar as mangas, dobrar os joelhos e mergulhar as mãos na terra. Os resultados serão muito mais compensadores.

Um Travesseiro de Pedra

Dormir é importante e creio que você já sabe. Para dormir bem há vários requisitos. Deve evitar muita agitação antes de ir dormir, deve fazer refeições leves a noite, deve deixar de pensar em problemas... e convêm ter um bom travesseiro. Não sei o que é um bom travesseiro para você. Há pessoas que gostam de travesseiros altos, outras preferem os baixos, macios, mais duros, com certos tipos de material como pena de ganso, etc. Mas, acho que todos concordaremos que uma pedra não será um bom travesseiro! 

Em Gênesis 28:11 lemos que Jacó depois de deixar a casa de seu pai, rumou em direção a leste, dormiu ao relento e usou uma pedra por travesseiro. Não admira que tenha tido uma noite agitada e acordasse para lá de assustado. Pedras não dão bons travesseiros e Jacó estava nessa situação por sua própria conta. Era um homem que desconhecia Deus, toda sua vida agira de acordo com esquemas e trapaças e nunca se preocupara em colocar o Senhor em sua agenda. Resultado: dormia ao relento com uma pedra por travesseiro.
Primeiro Jacó fugira daquilo que se esperava dele. Em vez de ser homem do campo, afoito e corajoso, destemido na caça e nas lutas familiares preparando-se para a chefia do clã, preferia ficar pelas tendas da familia aprendendo a cozinhar com Rebeca sua mãe. Depois esperara a oportunidade para ficar com a primogenitura do irmão. Quando lemos o episódio em que Esaú vende sua primogenitura (Gênesis 25: 27 a 34) fica evidente que tudo foi arquitetado. Não aconteceu por acaso. Jacó conhecia seu irmão e planejou as coisas. Esperou o momento certo, armou o palco e fechou a cilada.

Por fim, veio todo o esquema levado a cabo para conseguir receber a benção de seu pai, Isaque. Jacó faz uso de artimanhas, explora a cegueira do pai e rouba a benção de Esaú. Esse era seu perfil, um sujeito ardiloso e cheio de artificios. Mas, o que isso lhe valeu? Ter que fugir de casa. Sair meio sem saber para onde ía. Logo ele que tanto gostava de ficar junto das tendas familiares e da mãe protetora. Teve que sair pelo mundo, sem rumo certo, sem saber bem onde ficar e sem ter consciência de que o próprio Deus, Criador da terra e céu estava todo o tempo junto a ele (Gênesis 28:16). É isso que deu viver de esquemas. Estava só, dormindo na rua, com uma pedra por travesseiro.

O homem em geral gosta de levar vantagem. Amamos furar fila, ultrapassar os outros antes do sinal fechar num cruzamento, receber o primeiro pedaço do bolo e a última fatia da torta. Alguns são mesmo especialistas nisso. Em certos países já não vemos a meritocracia, mas sim a "jeitocracia", onde em tudo é possível dar um "jeitinho. Se há alguma forma de pularem as leis, os protocolos e as regras podemos estar certos de que o farão. E depois se regozijarão disso e falarão a todos como são espertos. É bom ter cuidado! Jacó também pensava que era... ele é o santo padroeiro dos espertos!

O homem/mulher de Deus deve viver de um modo bem diferente de Jacó, antes de chegar até Betel. Primeiro porque tem que ter consciência da presença Divina a todo tempo. A Palavra nos diz que o temor do Senhor é o principio da sabedoria. Princípio aqui no sentido de começo, mas também de base. Ter a noção da presença do Senhor e um santo temor é básico para uma vida sábia e proveitosa. Há muitas coisas que não faremos e que não falaremos se cultivarmos a perspectiva da presença permanente de Deus conosco.

Depois devemos entender que os esquemas podem parecer vantajosos para nós mas representam invariavelmente perda para alguém. Se eu passo na fila alguém ficou para trás. Se eu uso uma cunha ou conhecimento outros serão prejudicados. Ao agir assim eu me igualo a todos os demais. Me desculpo com a resposta tradicional "Todos fazem isso". Mas nós não somos "todos". Somos filhos de Deus, salvos por Cristo para viver em novidade de vida.

Lembremos que o Senhor nos instrui na Palavra a obedecer as autoridades e as leis (Romanos 13: 1 a 7). Isso quer dizer que se há leis, regras, limites e outros estabelecimentos são para serem cumpridos. Meu testemunho exige isso. Meu temor de Deus exige isso. Meu respeito e amor ao próximo exige isso. Vivendo assim contribuo para um mundo melhor. Se todos vivessem assim, teríamos um mundo muito melhor. Farei doravante a minha parte. Outros certamente vão preferir continuar dependendo de esquemas... a esses dizemos: cuidado! Um dia desses pode acabar descobrindo que tem uma pedra por travesseiro.

ELE IA ADIANTE

Certa vez, na Guiné, tivemos que ir buscar lenha ao mato para que as mulheres pudessem cozinhar numa festa da igreja.  Recolher lenha não era minha especialidade, por isso limitei-me a seguir os irmãos da igreja que tinham bastante experiência nesse trabalho. O carro ficou na estrada de terra relativamente perto do local onde tirávamos a lenha, mas fora de nosso campo de visão. Três vezes peguei meu fardo de lenha e segui atrás de meu guia, chegando ao carro sem problemas. Na quarta vez achei que já sabia o suficiente para fazer o percurso sozinho e assim segui para o carro.

 À medida que andava comecei a perceber que o caminho parecia mais longo e que as vozes dos irmãos pareciam ficar mais distantes. Tentei mudar de direção e achar meu caminho, mas tudo parecia igual, por onde quer que olhasse só via arvores e caminhos semelhantes. Por fim, tive que reconhecer que estava perdido e gritei por ajuda. Fiquei chocado ao ver o quanto tinha me desviado! Afinal, era fundamental ter alguém que conhecesse bem o caminho, indo adiante de mim.
  Em Marcos 10:32 lemos que "Jesus ia adiante dos discípulos". A expressão simples indica porém muita coisa importante.

Ele ia adiante fisicamente.
Assumia assim de modo claro sua liderança. Ele era o líder e por isso tinha que ir à frente. Jesus nunca fugiu de suas responsabilidades. Ele sabia que o caminho seguia para Jerusalém e para a cruz e mesmo assim ia adiante com resolução e certeza.

Mas ele ia adiante deles intelectualmente.
Os discípulos ainda não tinham entendido que tipo de Messias era Jesus. Em suas mentes ainda esperavam um chefe político/religioso/militar que devolve-se a glória a Israel. Jesus sabia que era o Messias sofredor, o servo humilde que viera para dar sua vida em resgate de muitos. Em seu entendimento da realidade a volta deles estava muito adiante dos discípulos.

Jesus ia adiante emocionalmente também.
Os discípulos oscilavam como ondas ao vento. Por vezes estavam entusiasmados, por vezes deprimidos. Logo seriam capazes de declararem-se prontos a morrer por Cristo para depois fugirem e esconderem-se. Eles não sabiam ainda que a vida emocional tem que estar sob o controle do Espírito e por isso variavam tanto. Mas Jesus era resoluto e seguro. Não deixava de sentir e sofrer, mas não deixava que isso turvasse sua mente e sua comunhão.

 O Mestre ia adiante espiritualmente.
Sua comunhão com o Pai era perfeita. Seu tempo de comunhão era prioridade e sua disciplina o levava a estar em contato permanente com o Pai. Os discípulos ainda estavam longe de entender o que isso significava. Desejavam ter o que viam em Jesus mas não eram capazes de vigiar nem uma hora. Por isso também Jesus ia adiante e estava preparado.

Logo viria os dias terríveis de dor e morte. A crucificação e o sábado de silêncio sepulcral. Mas o domingo da ressurreição traria nova luz e as palavras dos anjos às mulheres em Marcos 16:7 eram as mesmas de antes "ele vai adiante de vós". O Cristo ressurreto continua adiante de vós e hoje está adiante de nós.

 Interessante notar que quando alguém vai adiante de nós apenas vemos suas costas. Essa experiência já era conhecida. Moisés a tivera no deserto. Em Êxodo 33:23 quando ele pediu ao Senhor para ver sua glória a resposta foi: "me verás pelas costas". O Senhor ia adiante, e seu servo o veria pelas costas.

Ele vai adiante de nós! Isso quer dizer que sabe mais, conhece tudo, não pode ser apanhado de surpresa.
Ele vai adiante para preparar o caminho, para antecipar o que é necessário, para deixar tudo pronto. Ele vai adiante o que quer dizer que quando lá chegamos Ele já lá esteve e já fez seu trabalho, já começou sua obra. E nós somos chamados a entender, a olhar e reconhecer onde Ele já agiu, o que já preparou, onde já iniciou atividade e então nos juntarmos a Ele e desfrutarmos de sua bênção. Não há necessidade de nervosismo ou stress, Ele vai adiante e já chegou!

Nesta vida há tantas coisas desconhecidas, tantos becos escuros, tantas voltas que tememos. Fica a palavra breve mas tranquilizante.
Onde vamos hoje, Ele já esteve ontem!
Pode parecer assustador,
mas concentre sua atenção
e lembre-se,
ELE vai sempre adiante!
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