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Thank God it's Friday!

MALDITO TRABALHO!!?
O individuo parecia transtornado. Os músculos da face tensos e contraidos enquanto por entre os lábios saía o impropério: "se um dia encontrar quem inventou o trabalho dou-lhe um tiro nos miolos!"  Assisti a cenas parecidas com esta por mais de uma vez. Era um desabafo contra uma atividade penosa que servia apenas para sustentar a familia.

Outras expressões menos dramáticas, mas igualmente contrárias ao trabalho são as que vemos nas tiras de banda desenhada do gato Garfield onde ele confessa: "I hate mondays" (Detesto segunda-feira) ou "Thank God it´s friday" (Graças a Deus é sexta).  Todas essas expressões servem para transmitir a mesma mensagem: o trabalho é algo detestável do qual todos nos queremos ver livres!  Será essa a visão biblica e cristã do assunto?

Devemos começar por reiterar que o cristão deve ter uma cosmovisão guiada pela Biblia em todas as coisas. A vida cristã não pode ser apenas a que se vive em algumas horas no domingo ou em dias sagrados, mas deve ser a vida diária que engloba todas as atividades que desenvolvemos.  Uma fé que não diga respeito ao meu trabalho será de pouco valor. Se gasto a maior parte do meu tempo trabalhando então minha fé deve ter algo a dizer sobre isso ou não será uma fé relevante! 

Encurralar meu cristianismo aos domingos é destituí-lo de toda influência prática e
real na minha vida! 

Logo, minha fé tem que me falar de meu trabalho.   E o que aprendemos na Bíblia sobre o trabalho?

1) O Trabalho precedeu o pecado na História Humana

Biblicamente, o trabalho aparece antes do pecado.  Deus criou o homem e o colocou no jardim para que cuidasse dele e dos animais. O primeiro homem foi jardineiro, agricultor e criador de animais. Essa atividade era plena, ocupava os dias de Adão e Eva e representava uma boa utilização das capacidades com que o Criador os dotou.   Logo, sendo algo original ao homem, estava inicialmente em estado puro. O trabalho não veio como castigo por causa do pecado como pensam alguns, mas o precedeu com o intuito de dar ao homem propósito e realização.

2) O Trabalho foi instituído por Deus
Segundo Genesis 1 e 2,  foi Deus o inventor do trabalho.  O Criador conhecia a criatura como ninguém.  Deus trabalhou e ainda hoje trabalha, criou o homem à sua imagem, logo, criou um ser trabalhador.  Deus deu ao homem trabalho especiífico e esse mandato precedeu todos os outros inclusive os da era da Igreja.  Aqueles que se insurgem contra o trabalho em si, se rebelam contra Deus.   Aqui não discutimos a existência de trabalho escravo, de trabalho injusto, de trabalho infantil ou mal remunerado(fruto do pecado e da ganância dos homens).  Falamos do trabalho como instituição!  Do trabalho honesto, que serve para sustento próprio e para prover outros.  O trabalho como tal, foi criação de Deus para valorizar e honrar o homem e por isso mesmo nenhuma cultura do mundo até hoje honrou o preguiçoso.

3) O Trabalho foi valorizado nos 10 mandamentos
Sabemos que o decálogo tem as bases de toda a lei.  Nesses 10 mandamentos encontramos o resumo daquilo que seria o guia prático para o povo de Israel.  No oitavo e no décimo mandamentos há uma clausula de proteção a propriedade privada que nos mostra o valor do trabalho. Na lei estipulada pelo Senhor há regras especificas para salvaguardar aquilo que é fruto do trabalho do homem.

4) O Trabalho era muito valorizado pelo povo de Deus
Na cultura judaica resultante da orientação divina o trabalho sempre foi valorizado. Todo menino judeu deveria aprender uma profissão mesmo que depois se dedicasse a outras atividades mais intelectuais. Isso demonstra a importância do trabalho para o povo de Deus.

5) Jesus e os lideres Cristãos foram trabalhadores
Todos sabemos que Jesus foi carpinteiro.  Até os 30 anos ele exerceu essa profissão que aprendeu de seu pai terreno dando assim uma visão elevada do trabalho humano. O Criador feito criatura não rejeitou a vida de trabalho.  Os apóstolos de modo geral eram homens simples de trabalho que o Senhor chamou para a missão.  Paulo manteve sua profissão como fazedor de tendas e em boa parte de seu tempo, mesmo como missionário, ele se sustentava com sua atividade profissional.

Ainda a propósito da vida de trabalho de Jesus será interessante lembrar o episódio de seu batismo.  Deus o Pai falou do céu "Este é meu filho amado, em quem me comprazo!"para referir seu contentamento com Deus o Filho.  Fica a questão: Por qual milagre o Pai exaltou o Filho?  De que sermão falava Deus ao elogiar Jesus?  Na verdade, o seu ministério público ainda estava por começar, logo,  o contentamento do Pai não se referia a nenhum milagre, maravilha ou mensagem.  O Pai estava feliz com Jesus, que até então vivera como um simples carpinteiro, honesto, trabalhador, sustentando a familia e vivendo um testemunho de profunda comunhão com o Pai.  Seria bom meditarmos nisso.

6) O Ensino bíblico incentiva o trabalho
Muitas das parábolas de Jesus acontecem no ambiente do trabalho.  A famosa parábola dos talentos diz respeito ao galardão de trabalhadores esforçados.  As epístolas seguem nessa linha e Paulo incentiva mesmo os escravos a serem bons trabalhadores e darem exemplo como servos dedicados.  O trabalho recebe nas escrituras uma posição destacada como parte fundamental da vida.  Na verdade, o trabalho é um dos modos mais importantes de expressarmos nosso caráter e personalidade.  Um mal trabalhador dificilmente convencerá as pessoas de que é uma boa pessoa.  Minha forma de encarar e viver minha vida de trabalho certamente revela muito de quem eu sou. por isso a Biblia incentiva o crente a ser um bom trabalhador.

_ Se o trabalho é assim tão valioso e de origem divina, então por que é que hoje temos uma visão tão negativa do trabalho?

- Os gregos faziam uma dicotomia marcante entre o material e o espiritual.  Uma das correntes mais fortes da filosofia grega apresentava tudo o que é matértia como negativo e mal.  Nessa visão, o trabalho físico perdia valor em relação ao espiritual.  O Cristianismo bebeu nessa fonte, passando a considerar o trabalho do espírito (pregação, ensino, serviço religioso) como mais valioso que o do corpo.  Isso contribuiu bastante para uma visão negativa do trabalho no mundo de cultura judaico-cristã.

- O pecado contaminou tudo, inclusive o trabalho. Quando pecou, o homem perdeu a comunhão com Deus e nessa perda se foi o propósito para a vida, que incluía o trabalho.  O homem sem Deus não tem razão para viver e se vê como fruto do acaso.  Nessa perspectiva o trabalho é verdadeira prisão que nos impede de aproveitar a vida.  Surge uma visão negativa do trabalho.

- A mentalidade de consumo e lazer que impera hoje incentiva o entretenimento em detrimento do trabalho.  O homem moderno vê o trabalho como aquilo que tem que fazer para poder ter dinheiro para gastar em coisas e em serviços que lhe tragam prazer e bem estar.   Nessa perspectiva o trabalho é novamente o vilão que nos rouba a melhor parte da vida.  A aposentadoria se torna a terra prometida, um período em que não precisaremos fazer nada que não queiramos e vamos gozar a vida.  Muitos, senão mesmo a maioria, descobre tempos depois que era mais feliz quando trabalhava e não sabia...

_Qual deve ser a posição do cristão sincero diante do trabalho?


Propósito: Deus nos criou com um propósito e para tal nos dotou de talentos e virtudes. Devo entender como fui criado, desenvolver minhas habilidades e usa-las para experimentar toda a razão da minha existência. Dou glória a deus como Criador quando cumpro minha missão na terra trabalhando de acordo com as caracteristicas que deus me deu. Uns serão bons para certas coisas, outros para outras. Podemos e devemos todos encontrar alegria e realização no que fazemos.

Honra: O trabalho honesto deve ser valorizado e honrado no meio cristão e no seio da igreja. Não devemos cair na mentalidade errada de desacreditar certos tipos de trabalho. Precisamos de todos para viver melhor e a igreja deveria estar na linha da frente na preservação da dignidade do trabalho.

Bênção: Se estou a trabalhar naquilo em que sou bom, porque Deus me criou assim, então vivo para a glória de Deus e posso ser bênção para os demais!  Por exemplo: um pintor de parede:  num mundo escuro, sujo e sem graça por causa do pecado, o pintor pode se ver como aquele que traz vida, cor e alegria.  Depois de terminar seu trabalho, um lugar que antes era feio e sem vigor pode ter graça, beleza e animar os espíritos. O pintor pode se ver como sócio de Deus no propósito de recuperar as cores que o pecado manchou.

Eu sou médico. Entendo que a doença não fazia parte do plano de Deus para o homem e surgiu como consequência do pecado. Quando luto contra a enfermidade e trabalho para a saúde entendo que estou engajado na tarefa Divina de recuperar o homem por inteiro.

Cada profissão pode entender sua atividade como uma sociedade com o Criador na restauração da Criação e desse modo cada profissional passa a ser um agente de salvação na terra.  Essa visão madura e abençoada do trabalho deveria encher o coração de cada cristão. Como seria diferente um trabalho feito assim!  Deixe-se contagiar e contagie outros com essa visão e estaremos trabalhando por um mundo melhor para a glória de Deus!

Joed Venturini

Encantada


Uma das bênçãos do pastorado é a visitação. Bênção para quem é visitado e recebe uma palavra de conforto e ânimo mas também para o pastor que adquire maior conhecimento de seu rebanho, descobre novas maneiras através das quais o Senhor trabalha, e recebe as bênçãos do testemunho cristão genuíno. Muitas tem sido as vezes em que visitei ovelhas e recebi bem mais do que o que levei. Abençoado ministério!
Recentemente visitei uma irmã com mais de 90 anos. Ela me convidou para um chá de tarde. Fui com alegria mas também um certo receio. O que dizer para animar uma pessoa de 90 anos? O que transmitir que ela ainda não ouviu? Como ser bênção para quem já viveu por tanta coisa? Seria eu capaz de me mostrar útil? Pensamento talvez egocêntrico, mas perdoe-me o leitor, somos de carne e osso.
A experiência foi marcante pela positiva. Que irmã animada, que entusiasmo! Que vontade, que vida ela demonstra já na 9ª década de peregrinação. Durante mais de 2 horas eu e minha esposa ouvimos as histórias de vida dessa querida irmã contadas com um sorriso permanente. Nada de queixas, nada de mazelas físicas ou emocionais, nada de reclamações ou acusações. O que mais me admirou no discurso da irmãzinha foi o uso recorrente da palavra “encantada”. Ele tinha ficado encantada com a pessoa X, com a situação Y, com a experiência Z. E fiquei com a firme convicção de que a irmã realmente vivia esse encanto no Senhor.

Meditando na visita pensei no quanto somos prejudicados pela familiaridade. Perdemos a capacidade de nos maravilharmos. Adão e Eva estavam no paraíso, mas se familiarizaram até com um paraíso e logo queriam o conhecimento que fora proibido. O povo de Israel viu maravilhas tais que derrotaram o Egito, mas logo se cansaram de milagres e queriam voltar aos pepinos. O povo no tempo de Jesus via o Senhor fazer coisas impressionantes para no dia seguinte procurá-lo para novo milagre. E nós?
Quando desejamos algo novo nos enchemos de vida. Pode ser uma casa, um carro, um aparelho ou outra coisa. No inicio nos deslumbramos e quando o Senhor nos abençoa ficamos gratos e louvamos. Mas depois... o tempo e a familiaridade nos fazem esquecer a maravilha. O carro que antes políamos quase diariamente, passa um mês sem ser lavado; a casa que era literalmente adorada passa a ser apenas um imóvel a ser pago; aparelhos que precisávamos ter para mudar nossa vida já têm outros modelos no mercado.

E a Igreja? E a oração? Aquele pedido que fizemos durante meses e foi finalmente atendido logo fica esquecido. A igreja onde encontramos alegria e vida logo passa a ser local onde há gente que não gostamos e passamos os cultos olhando o relógio para ver a hora. O pastor que pregava tão bem há 6 meses é hoje só mais um dos que vai ocupar o espaço de tempo entre mim e o meu almoço de domingo... Familiaridade a mais. Perdemos a maravilha. Perdemos o encanto.
Aprendi com a querida irmã na visita realizada a bênção do encantamento. O segredo que a levou a viver até depois dos 90 com um sorriso nos lábios não é a riqueza (ela vive de uma magra pensão), ou a falta de problemas (teve e tem muitos ao seu redor), não é a saúde perfeita (pois tem inúmeras dificuldades físicas) ou as pessoas que a cercam (ainda mora sozinha até hoje por escolha própria). Seu segredo é que encontrou no Senhor a bênção do encantamento. Ela vive encantada com o que Deus é e com o que ELE faz. Que coisa linda. Que bênção fantástica. Que milagre do céu. Ó Pai, faz-me encantado! Dá-me a tua satisfação. “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez vos digo regozijai-vos” Filipenses 4:4

A caminho de Moriá

Abraão já ouvira Deus falar antes. Uma vez o Senhor falara e ele ficara confuso com a necessidade de deixar sua terra, mas expectante com a nova terra que encontraria. Outra vez Deus falara e ele ficara contente com a bênção prometida para sua geração nessa terra de Canaã. Uma vez Deus falara e o deixara perplexo com a profecia de tribulação para seus descendentes. Outra vez Deus falara e ele rira da possibilidade de ainda ser pai aos 100 anos. Mas o riso se tornara gargalhada e se materializara numa criança chamada Riso (Isaque).

Agora porém, Deus falara e Abraão não rira. Desta vez não havia esperança nem expectativa, nem bênção ou futuro. Havia apenas escuridão e um caminho terrível a percorrer. O caminho para Moriá.

O caminho para Moriá era escuro e denso. Nada fazia sentido para Abraão. A ordem de sacrificar Isaque não deixara margem para esperança e não fizera sentido nenhum. Até onde Abraão podia ver era incongruente e incompatível com tudo o que o Senhor fora no passado. Não havia lógica, nem sentido, nem lição. Havia apenas um caminho escuro e longo com muito sofrimento no fim.

O caminho para Moriá era solitário. Os servos que acompanhavam Abraão teriam que ficar no sopé do monte e o filho que com ele andava ficaria no escuro quanto aos objetivos da viagem e a finalidade de tanto silêncio. E Abraão prosseguia. O que pensaria ele? Que sentimentos encheriam seu coração cansado nessa caminhada atroz rumo ao sacrifício de seu único filho? Que alegria poderia lhe restar? Que esperança de velhice para um pai idoso ao mesmo tempo sacrificado e sacrificador?

Mas, Abraão prosseguia como sempre. Já antes saíra do conhecido para uma terra que não sabia onde ficava e prosseguira. Já antes percorrera o deserto a procura de uma terra onde ter o que comer e prosseguira. Já antes perseguira tropas com um número pequeno de servos sem experiência militar e prosseguira. Já antes se rira da gravidez de Sara com 90 anos, mas prosseguira e terminara carregando um bebé. Agora não via solução para seu dilema, não entendia as razões de Deus, nem sabia como seria capaz de obedecer até o fim terrível ordem, mas prosseguia.

Todos nós nos vemos vez por outra no caminho de Moriá. É aquela terra de ninguém, onde a fé parece absurda, o céu fica silencioso e até a Palavra se mostra árida e sem respostas. Já todos vivemos o amargo de sentir que fomos esquecidos, que a esperança deve existir mas não a vemos, que a vida perdeu a maior parte de sua razão. É um filho que morre, um emprego que desaparece, um acidente que nos rouba a saúde, um diagnóstico que nos deixa perplexos, um amigo ou parente que nos deixa... são momentos escuros, um caminho difícil.

O importante nessa hora é, como Abraão, prosseguir.

O que o inimigo mais odeia é um crente que persevera na tribulação.

Em sua alegoria Cartas do Inferno, C S Lewis coloca na pena do demónio instrutor as seguintes palavras: "Nossa causa nunca estará mais ameaçada do que nas vezes que um ser humano, mesmo não desejando pessoalmente alguma coisa, estiver fazendo a vontade do Inimigo, ainda mais quando ele estiver observando o universo em seu redor, sem conseguir ver o menor traço do Inimigo se perguntando porque Ele o teria abandonado assim, e mesmo assim OBEDECENDO."

Precisamos nessas horas lembrar que nosso mestre e salvador conhece bem esse caminho. Ele também palmilhou a estrada para Moriá e a sua terminou no Gólgota. Para ele não houve palavra salvadora de um anjo na hora decisiva. Ninguém parou o martelo que pregava os cravos, ninguém parou a lança que furava o peito, ninguém respondeu ao clamor no meio do sofrimento esquecido. E ele sofreu por nós.

Mas a história de Abraão não termina na dor. Ele teve o riso restaurado nos lábios e no filho devolvido. E a história da cruz é seguida em 3 dias pela da ressurreição. O caminho para Moriá é duro, mas o Senhor não nos deixou, o sol não sumiu de vez e o domingo da vitória está a caminho mesmo que nos pareça impossível. Sigamos com perseverança o caminho da nossa fé e o Senhor nos recompensará.

Confortavelmente Inúteis

Uma das maiores conquistas do homem moderno é o conforto. Passou a ser um princípio motivador e orientador de toda uma indústria, movimentando bilhões de dólares por ano. Queremos maior conforto em casa, no quarto, nos carros, nos transportes, nos serviços, no acesso a informação, no trabalho e por conseguinte nos relacionamentos e tudo mais. O homem moderno move montanhas para obter um pouco mais de conforto e gasta milhões em medicação que alivie qualquer pequeno desconforto.

O triste é pensarmos um pouco nisso e chegarmos a conclusão que o conforto, não sendo um mal em si, nos leva a inutilidade. A busca aguerrida pelo conforto e a teimosia em não deixa-lo uma vez encontrado, deixa o homem simplesmente inoperante, incapaz e porque não dizer, na maioria das vezes imbecil. Não se irrite e pense um pouco comigo.

O conforto é egoísta, auto-centrado. É ajustável exatamente a minhas necessidades e desejos particulares. Meu nível de conforto é só meu, logo, a sua busca se concentra unicamente em mim e no que eu quero. Por exemplo, a posição de uma poltrona que é confortável para mim pode não ser para outra pessoa. Quero serviço personalizado. A busca do conforto aliena ainda mais o homem do próximo e torna toda a vida um grande jogo de ver quem consegue encontrar mais coisas ajustáveis a seus desejos.

Quando lembramos que é essa visão egoísta que tem levado ao número absurdo de divórcios, ao crescimento dos abusos e violência, ao maltratar de crianças pelos próprios pais, a um isolamento do homem de tudo que é decente e bom, vemos o quanto o conforto pode ser prejudicial. Ao nos levar a ficar mais auto centrados a busca do conforto nos leva a ficar mais distantes dos outros e de Deus.

O conforto é essencialmente consumidor. Toda a indústria de marketing trabalha com base nesse conceito e sua provisão. Somos levados a trocar de carro, telefone, TV, máquina de café, fogão, etc. Com base apenas no facto de que o novo modelo é mais confortável de usar e traz umas novas aplicações muito especiais. E nós corremos a substituir nosso "velho" aparelho como se já soubéssemos usar todas as aplicações que ele oferecia, o que na verdade não sabemos porque nunca tiramos tempo para ler o manual. O homem que tem o conforto como bem supremo aceita essa mensagem, compra, endivida-se, engana-se. Se olharmos bem para as coisas que trocamos e que ainda tinham muitos anos de uso, validade e benefício ficaríamos assustados, mas o conforto é assim, consome o tempo todo.

O conforto é entorpecente. Quem se rende a ele para no tempo em termos de desenvolvimento pessoal, deixa de aprender, deixa de crescer, deixa de se desenvolver. A ironia é grande porque os próprios indivíduos que nos fornecem novos brinquedos para aumentar nosso conforto não se renderam a ele e a prova disso é que trabalham até produzir e nos convencer a comprar um novo produto.

Na verdade, admiramos e fazemos filmes sobre pessoas que não ficaram dependentes do conforto, que enfrentaram lugares e situações de carência e grande stresse. Se quisermos estudar a ponto de nos tornarmos alguém de valor em nossas áreas, teremos que ir além do conforto. Se quisermos nos tornar atletas de valor em qualquer esporte teremos que ir além do conforto. Se quisermos nos tornar melhores pessoas em nossos relacionamentos em geral teremos que ir além do conforto. Se quisermos nos tornar verdadeiros discípulos de Jesus teremos que ir além do conforto. Foi ELE que disse que seria preciso "tomar a cruz a cada dia e segui-lo..." Parece-lhe confortável? Não! Mas é a única vida que merece ser vivida. Jesus avisou "quem quiser salvar a sua vida (viver muito confortavelmente) perdê-la-á..."

Pensemos nisso. O conforto em si não é mau. Uma cadeira confortável, ou um trajecto seguro na estrada são coisas boas em si. A busca do conforto como bem supremo não. Não deixemos que o conforto nos vença. Não permitamos chegar ao ponto de ficarmos confortavelmente inúteis.

SIC - Síndrome de Insatisfação Crônica

Depois do calor dos dias de verão o Outono anuncia sua chegada nos países temperados. Após dias de intenso calor aparece um amanhecer mais fresco que prenuncia a chegada do frio. Isso sucede normalmente no mês de Outubro no hemisfério Norte. Acontece então um fenômeno conhecido na etologia (ciência que estuda o comportamento dos animais) como Zugunruhe. A palavra é alemã, junção de zug (movimentação, migração) e unruhe (ansiedade, inquietação). O Zugunruhe é a agitação que toma conta dos pássaros migratórios. Eles mudam de canto, trocam de penas e mostram-se nervosos na expectativa da grande viagem de migração que em breve acontecerá.

Nossa sociedade moderna vive um zugunruhe quase que constante. Chamaria essa agitação de síndrome de insatisfação crónica. Quais aves migratórias, vivemos na expectativa de ter o que não temos, ir para onde não estamos, ser o que não somos. Um cantor popular português chamado António Variações, que morreu de SIDA, colocou isso muito bem quando cantava: "eu só estou bem aonde não estou, pois eu só quero ir aonde não vou...".

A síndrome de insatisfação crónica manifesta-se de várias maneiras. Numa fadiga constante e num permanente reclamar da vida, do trabalho, do local onde se mora. Uma ansiedade enorme por férias em lugares distantes e exóticos, um suspirar pelas vidas de estrelas de cinema e TV, compras fora de controle, na tentativa de satisfazer o vazio interior com coisas que apenas ocupam espaço e desgastam o cartão de crédito. Um descontentamento generalizado com a vida que se tem numa idealização da vida de outros. Se ao menos...

Esse fenômeno não é novo.  Já o povo de Israel no deserto reclamava de Moisés e até suspirava pelo Egito. Parece que tinham esquecido que lá eram escravos. Para tratar desse zugunruhe espiritual o Senhor prescreveu formas de culto e actividades que combatessem essa síndrome de insatisfação crónica e a receita continua válida e necessária hoje também. Eis os ingredientes principais:

1) LEMBRANÇA
O Senhor prescreveu festas variadas ao longo dos anos para que o povo se lembrasse do que Deus fizera no passado. Cada grande evento como a Páscoa deveria ser recordado de modo particular com celebrações especiais. Ao reviver e relembrar aquilo que sucedera o povo recordava a bondade de Deus, o quanto tinham progredido, do que já tinham sido libertos. Tudo isso contribuía para que ficassem menos ansiosos.

Nossa memória é muito curta. Comemos queijo demais? Precisamos relembrar as bênçãos! Recordar as libertações, os momentos de aperto onde o Senhor nos abençoou, as horas de aflição em que ELE ouviu nosso clamor. O salmista faz isso com frequência num exercício que nos aumenta a fé, devolve a paz e combate a inquietação que o mundo nos tentar impor.

2) GRATIDÃO
Boa parte das festas e celebrações e dos sacrifícios diários eram de gratidão. Tratava-se de acções de graças, de dizer simplesmente obrigado pelo recebido. A insatisfação brota de um coração que esqueceu a gratidão. Se exercitamos o agradecer dificilmente a ingratidão vai ter onde se segurar em nossas vidas.

Agradeçamos pelo pão a cada refeição, pela casa, pelo agasalho, pelo carro, pelos transportes e pela saúde. Agradeçamos pelo sol ou pela chuva, pelos familiares e amigos. Agradeçamos pelo trabalho, pelo sustento, pela escola e pelos professores, pelas crianças. Agradeçamos pela igreja, pelos líderes que nos abençoam, pelos irmãos que nos acompanham. Agradeçamos pela beleza da natureza, pelo brilho de cada dia, pelas condições que o Senhor nos dá. Há muita beleza neste mundo, muita coisa para amar e pela qual podemos agradecer. Exercitar a gratidão aquece o coração, alegra a alma e combate eficazmente a insatisfação.

3) LOUVOR
O Senhor vez após outra insta seu povo a adorá-lo. ELE não precisa de nossa adoração. Mas em seu amor sabe que a adoração nos faz bem. Fomos criados para isso e ao fazê-lo crescemos, chegamos mais perto do que devemos ser, evoluímos para outro nível nesta vida terrena.

Vivi entre muçulmanos muitos anos. Alguns amigos meus muçulmanos diziam com frequência “Alhamdulillah”, que traduzido seria, Todo louvor seja dado a Allah. É um equivalente da expressão judaica e bíblica Halelu Yah, louvado seja o Senhor. Certo dia ao ouvir isso de meu amigo me senti envergonhado. Ele serve um Deus que não ama, que castiga mais que recompensa, que trata com discriminação, que exige cumprimento estrito da lei, mas vivia dando louvor. Eu dizia servir a um Deus de amor e graça, que em seu perdão e misericórdia me estende a mão e livra da morte e muitas vezes reclamava. Reclamava mais que louvava.

O louvor santifica, dignifica, exalta. O louvor no leva mais perto do que devemos ser. Nos afasta do mal, da insatisfação e da reclamação. Louvando alegramos o coração de Deus e afastamos o inimigo de nossas casas. Louvemos pois e sejamos agradecidos.

CONCLUSÃO
Vivemos cercados de sinais de zugunruhe. Uma inquietação terrível daqueles que vivem querendo fugir de suas vidas, que sonham com outras vidas e outras realidades numa insatisfação permanente e debilitante. A boa nova é que o homem não é pássaro migratório e pode ser feliz e realizado onde está, com o que tem, desde que o Senhor faça parte dessa realidade. Lutemos então contra a síndrome de insatisfação crônica com as armas do céu, lembrando as bênçãos passadas, agradecendo pelas bênçãos presentes, louvando em todo tempo.
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SONHO DE DEMBA (VERSÃO REVISADA)

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