Ira de Deus: Como Entender?

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Há muitos temas controversos na Bíblia e um dos mais complicados é a ira de Deus. Não temos dificuldade em aceitar um Deus de amor e compaixão. Não temos dificuldade de entender um Deus que tem todo poder. Mas Deus irado parece coisa de mitologia pagã e trás à mente um ancião de barbas brancas que do céu lança raios sobre as cabeças de todos os que não o agradam e que exige submissão total. Essa imagem incomoda e cria muita rejeição. Mas, a Bíblia fala mesmo da ira de Deus e não poucas vezes. No Antigo Testamento temos 432 menções à ira do homem e de Deus e no Novo Testamento mais 36 vezes. Como entender, então, essa ira em nosso contexto? Como explica-la a alguém que usa esse argumento para negar o Deus da Bíblia? 

Nossas dificuldades com o tema começam por causa de toda a tradição antiga que vem de muitas origens e fala da ira de Deus como algo caprichoso. São mitologias diversas que falam de deuses em termos antropomórficos, deuses que mostram sentimentos e reacções iguais as dos homens e cuja ira é maligna e nada santa. Essa tradição dificulta muito a nossa compreensão porque quando a Bíblia fala da ira de Deus fala de algo que não é nada parecido com a nossa ira. O homem se ira injustamente por egoísmo, por frustração, por entender que alguém falhou em seus direitos, que algo lhe foi negado. Ora, a ira de Deus não é nada disso, e se olharmos melhor para os momentos em que Deus se ira teremos que reconhecer que a sua ira é mesmo obrigatória. Vejamos como:  
  • A ira é obrigatória diante do mal, do erro, do abuso, da discriminação, da injustiça, da crueldade. Deus fez um mundo perfeito e um homem bom. Este escolheu o pecado e desvirtuou tudo o que Deus criou. Tornou-se mau e danificou tudo o que o Senhor criou. Tornou-se mau sobretudo para com seus semelhantes. Diante disso como não se irar? Poderia Deus ser Deus de verdade e não se irar contra a destruição da sua bela criação? Seria Ele Deus justo se não se irasse contra a maldade humana que abusa, maltrata, tortura e mata outros seres humanos? Que tipo de Deus ficaria indiferente diante de tanta maldade? Essa ira não é errada, é obrigatória.  

  • A ira é obrigatória quando existe amor. Imaginemos um pai que ama sua filha de todo coração ou um marido que ama sua esposa com todas as forças. Agora imaginemos que alguém está a fazer mal a esta filha ou esposa. Acharíamos natural que este homem não se irasse? Seria aceitável que ele assistisse ao abuso de suas amadas sem revelar uma ira intensa? Certamente que não e ninguém o condenaria por se irar. Porque, então, não percebemos que a ira de Deus está ligada a seu amor? Ele ama intensamente o mundo e a humanidade e quando vê o abuso que lhe é feito tem que se irar. Sua ira é mais que justificada pois é santa e voltada exclusivamente contra o mal e não algo egoísta e para proveito próprio.  

  • A ira é obrigatória diante do desperdício. Quem nunca se irritou ao ver comida desperdiçada ou outros bens que poderiam fazer a diferença para outras pessoas sendo jogados fora com desprezo? Desperdício é algo maligno e que desperta justificadamente a ira. E Deus? Como não se mostraria irado contra o desperdício de tudo de bom que Ele nos deu e que não sabemos usar e ainda esnobamos?  
Vemos então que a ira de Deus é sempre santa e nunca menos santa ou nobre que sua justiça. A ira nesse caso é mesmo parte da justiça santa de Deus. Mesmo em relação ao homem, a Bíblia distingue a ira justa e positiva da ira tola e precipitada que é viciante e deve ser vencida e dominada. Quando Jesus se irou contra os vendedores do templo ou com a hipocrisia dos fariseus, não era algo maligno ou errado, mas uma ira santa e justificada. O facto de termos dificuldade com nossa ira por ser quase sempre errada não significa que a de Deus o seja. A ira de Deus nunca é errada e nunca é egoísta mas se volta contra o mal, contra o pecado, contra o que prejudica. A ira de Deus visa a salvação e a recuperação do pecador e por isso nunca será maligna. 

O contrário da ira não é o amor, como alguns podem pensar, mas a indiferença. Deus se ira exactamente porque ama e o contrário seria se tornar indiferente ao homem e ao seu estado bem como ao seu destino. Deus não encara a humanidade como um empecilho à sua felicidade ou um problema no caminho. Ele ama o mundo e por isso se preocupa e por isso, por vezes, se ira. 
O que também devemos guardar em relação à ira de Deus é que ela não é eterna, nem vingativa e nem rancorosa. Ela é aplicada na medida certa e com objectivos bem definidos de mudar a situação para melhor visando a recuperação. 

A ira que Deus manifesta serve como correctivo e disciplina para que encontremos um caminho melhor. É seu prazer desviar sua ira e seu furor e o faz com muita frequência na palavra. O que alegra o coração de Deus é poder deixar de lado a disciplina punitiva e mostrar seu abundante amor. Cabe ao homem reagir de modo a permitir que seja assim. Como um pai que ama, o Senhor prefere mil vezes abençoar seus filhos amados que respondem ao seu amor com uma atitude positiva que ter que disciplinar os filhos desobedientes que se prejudicam e prejudicam outros. Afinal a ira de Deus até faz muito sentido e deve ser vista como parte essencial de sua santa justiça.
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