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Graça Barata


Creio que foi o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer que tornou esta expressão conhecida em sua obra “Discipulado”. Dizia ele já em 1937 que “a graça barata é a inimiga mortal de nossa igreja”. Como toda voz profética, suas palavras continuam sendo atuais hoje. O evangelho facilitado e a graça banalizada têm dado forma a um cristianismo sem força, mercantilista e sem relevância para o mundo que nos cerca. Temos que denunciar essa corrupção e lutar pela verdade da Graça Divina revelada nas escrituras.

Pregadores, bispos e apóstolos auto-instituídos proclamam uma graça sem valor com o nome de evangelho. Uma graça em que nada resta ao homem a não ser contribuir com certas quantias para alimentar esses ministérios e tudo o mais será perdoado. Trata-se do reavivar das indulgências medievais que levaram à Reforma de Lutero. A salvação e o céu estão em saldo e cabe aos cristãos bíblicos, conhecedores da Palavra, gritar bem alto o quanto nos custou a redenção.

Graça barata é perdão sem arrependimento. Uma mensagem supostamente evangélica, mas que foge da palavra “pecado” porque não é moderna ou porque incomoda. Oferecem perdão sem exigir reconhecimento do erro e mudança de mente. Mas a forma original do evangelho de Jesus em seus primórdios foi exatamente “arrependei-vos e crede” (Marcos 1:15). Não pode haver perdão verdadeiro enquanto o pecador não enxerga seu pecado em toda sua malignidade e não cai em si diante da sua própria culpa, vergonha e necessidade de condenação. Sem arrependimento não há confissão; sem confissão não há perdão.

Graça barata é salvação sem transformação. Pessoas famosas e menos famosas afirmam ter se convertido mantendo seu estilo de vida cheio de luxúria, mentira e ganância. Continuam pecando descaradamente, desonrando o nome de Jesus, mas declaram confiadamente que estão salvos. Profetas falsos anunciam que isso é normal, que a graça nos alcança sempre independente da vida que vivamos. Mas na Bíblia a salvação anda de mãos dadas com uma mudança radical de vida. O Salvador salvou a mulher pecadora, mas também lhe disse: “vai e não peques mais” (João 8:11) e o apóstolo entendia a vida em Cristo como nova já que “quem está em Cristo nova criatura é, as coisas velhas já passaram eis que tudo se fez novo” (II Coríntios 5:17). Salvação sem mudança de vida é farsa e enganação.

Graça barata é bênção sem soberania. Anunciadores de um deus menor fazem promessas que a Bíblia nunca fez, apregoam prosperidade que a Bíblia não garantiu e dão ordens a seus espíritos, anjos e potestades para que abençoem com ou sem obediência numa subversão da ordem que a Palavra claramente mostra. Mas na Bíblia soberano é o Senhor. Dele é a terra e a sua plenitude, Salmo 24:1. Ele anuncia as bênçãos mas deixa claro que há que escolher bem entre bênção e maldição e que a obediência é requisito “sine qua non” para a bênção (Deuteronomio 28:1 e 2). O Senhor que promete sarar a terra também lembra que só o fará “se seu povo se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se afastar de seus maus caminhos” (II Crónicas 7:14). O Deus da Bíblia não recebe ordens, não deve nada a ninguém e não se submete a barganhas de mercado.

Graça barata é vida cristã sem discipulado. Há gente pensando que pode viver a vida cristã a seu bel-prazer, do seu próprio jeito, sem qualquer diferença das vidas dos que os rodeiam e andam sem Jesus. Mas o Cristo do Novo Testamento deixou claro que se alguém quiser segui-lo, tem que “negar-se a si mesmo, tomar cada dia a sua cruz e segui-lo” (Marcos 8:34). Ele nos chamou a ser discípulos e servos o que implica dependência, obediência e auto-negação. Paulo se dizia morto para tudo que não fosse Jesus, “para mim o viver é Cristo” (Filipenses 1:21). Ser Cristão é ser discípulo de Jesus. Receber dEle a instrução para cada aspecto da Vida. Dirigir cada passo de acordo com os padrões e os princípios que Ele nos deu. Vida Cristã sem isso é mera religião sem vantagem ou benefício.

Graça barata é libertação sem responsabilidade. Gente que proclama estar liberta sem ter assumido um compromisso sério com Deus. Trocando apenas a dependência do maligno pela de um líder carismático ou um ministério supostamente poderoso. Há libertação em Jesus e só nele, mas que implica conhecer a verdade e se comprometer com ela. O liberto aprende a viver com Deus e só assim mantém a casa limpa e arrumada e cheia do Espírito Santo de Deus. De outro modo as libertações alardeadas são apenas show para dar ao maligno mais tempo de antena enquanto as almas continuam escravizadas.

Jesus recebeu a coroa de Glória, mas antes veio a cruz. Não houve coroa sem cruz. Graça barata é pular essa etapa, é querer a ressurreição sem a sexta-feira, é querer a Glória do monte sem a dor do calvário. Como dizia Bonhoeffer, “não pode ser barato para nós aquilo que custou tão caro para Deus”. Louvemos a maravilhosa Graça que nos salvou, mas entendamos que biblicamente ela vem com responsabilidade, discipulado, obediência e dedicação de vida.

Mais que palavras...


Quando as dificuldades chegam (e elas parecem sempre chegar) há em geral duas maneiras de reagir: negação e depressão. Ambas são erradas. Ambas prejudiciais. Ambas ineficazes para lidar com os problemas, mas ambas comuns à experiência humana. Negação é o ato de deixar de olhar para o que esta diante dos olhos. Depressão, por usa vez, é o ato de não conseguir olhar além do que está diante dos olhos. O que nega faz de conta que não vê, acha que se não reconhecer a crise talvez ela vá embora. O deprimido só vê a dificuldade e em seu entendimento é tudo que há e nada jamais haverá além disso. Os que negam precisam de ajuda para ver a realidade e saber que fugir dela não a muda, não a faz menos real e certamente não a transforma. Os deprimidos precisam ajuda para ver além de dificuldade e descobrir que há vida, há mais que aquilo que os cerca nesse momento mal. E para isso o que temos? A Palavra!
Palavras? Será a pergunta incrédula de muitos. Precisamos muito mais que palavras para vencer crises. Pode ser que sim, mas o que mais precisamos é de palavras e antes de termos as palavras certas não iremos a lado nenhum. Isso porque não está a se falar de quaisquer palavras. Não são palavras vazias, humanas, lançadas ao vento a ver se alguma resulta ou ajuda. Não são as palavras ocas e sem conteúdo que costumam encher nossos dias. São palavras de Vida. É a Palavra da Vida, vinda daquele que criou todas as coisas.
No princípio, antes de Deus criar o Universo, era tudo caos e confusão. Não havia organização, nem sentido, nem vida, nem sequer luz. Deus então falou! Sua Palavra criou todas as coisas. Criou a organização incrível que vemos no mundo. Criou as leis magníficas que regem a natureza e a física e a matemática. Criou a luz, o tempo, o nosso mundo e suas estações e criou a vida e o homem. E tendo criado o homem á sua semelhança Deus lhe deu o dom da palavra e a capacidade para entender que pela palavra pode também viver ou morrer, criar ou destruir, fazer ou desfazer.
Ezequiel 37:1 a 14 deve ser um dos textos mais significativos sobre o poder da palavra. O profeta tem a visão terrível e assustadora de um vale seco cheio de ossos esturricados pelo sol. Ali não há vida, só devastação. Haveria alguma perspectiva ali? Humanamente não. Tudo estava perdido, morto, seco, acabado. O Senhor pergunta ao profeta: há algo a fazer aqui? E este sabiamente responde: Tu sabes Senhor. E então vem a ordem: Fala, profetiza. Repete as palavras de vida que te dou e verás o que acontece. E Ezequiel obedeceu. Ele não podia antecipar o que viria. O texto nem sequer diz que ele cria que seria possível acontecer algo. Mas viu os ossos se juntarem, a carne voltar, os corpos se formarem e então novamente a questão: e agora? Agora que voltaram a ser corpos inteiros poderão viver? E a resposta foi novamente: fala, profetiza. E Ezequiel viu então o ES de Deus encher aqueles corpos de vida e os transformar num exército poderoso.
A isso somos chamados. A um mundo mal, perdido e desorientado, caído em decadência moral e desordem espiritual, ao homem desobediente e pecador, ao que nega e ao deprimido, somos chamados a falar. Profetizar as palavras do Senhor. Deixar que essa palavra entre em vidas, famílias, comunidades e as renove. Traga de volta o que ser perdeu. Junte o que estava separado, revista o que ficou sem conteúdo e encha de vida e espírito o que se julgava sem força ou alento.
Sem a Palavra ficamos sem fundamento, sem base ou direção. Sem a Palavra fazemos de Deus algo pequeno e humano. Algo que podemos manipular e controlar. Algo que podemos carregar e descartar. Algo vazio como nosso coração sem a Palavra. É a Palavra do Senhor que nos mostra quem é o Deus verdadeiro. Que nos chama a responder em humildade e contrição, em obediência e alegria. É a Palavra que nos coloca no caminho certo para a vida abundante.
A Palavra que veio e se fez carne em Jesus, essa palavra encarnada na cruz mostrando o amor do Pai, é essa que somos chamados a falar. Porque a fé vem por ouvir a Palavra, a Palavra de Deus. E é nessa Palavra que conhecemos a verdade que nos liberta. A Palavra traz a voz de Deus, aplica a presença de Deus, dá-nos condições de responder a vontade de Deus.
Ora a Palavra é mais que palavras exatamente porque não somos chamados apenas a ouvi-la, lê-la, decora-la ou recita-la, mas a viver por ela e então, ela se torna vida, ela enche a nossa vida, ela nos mostra a vida, nos leva a vida, se torna a vida que deveríamos ter vivido desde o começo. O maior problema que temos não é, então, a falta de vida ou de palavra, mas a simples, e na maioria das vezes, inexplicável, maneira pela qual conhecemos a Palavra, mas não a vivemos. Vejamos algumas dessas:
A Palavra diz: Pedi e dar-se-vos-á (Mateus 7: 7). E nós? Não pedimos. O principal empecilho as nossas orações é o simples fato de que não oramos. Não é que oramos pouco, ou mesmo que oramos erradamente (o que também fazemos), mas simplesmente que não oramos. Em seu discurso final com os discípulos Jesus insistiu nisso. Em 3 capítulos (João 14 a 16) ele repete 6 vezes essa questão. Pedi em meu nome... e recebereis. Quando é que vamos começar a usar a Palavra? Quando é que vamos começar a pratica-la? Quando é que a igreja vai despertar e orar?
A Palavra diz que o Senhor deseja nos dar sustento e nada nos faltará (Malaquias 3:10). Mas a promessa vinha com a condicional de sermos fiéis no dízimo. Então o Senhor repreenderia o devorador (Malaquias 3:11). E nós? Deixamos o devorador a vontade. Já reparou que o dinheiro não chega ao fim do mês. Já notou que mesmo quando recebe mais parece que dinheiro desaparece por entre os dedos? Há sempre um imprevisto e lá se vai a reserva. Sabe o que se passa? Não estamos cumprindo a Palavra e obedecendo ao Senhor. Guardamos o que é dEle é o devorador faz a festa. Que fechar a boca do maldito? Então ponha a palavra em prática e seja fiel.
A Palavra diz que a Paz deveria ser o juiz em nossos corações (Colossenses 3.15). E nós? Mantemos raiva, ressentimento e zanga para com meio mundo. Sabe quantos crentes zangados há no mundo? Infelizmente milhões. E não sabem porque o louvor não parece soar bem, não entendem porque a adoração não flui e não sentem o Senhor, não percebem porque não se dão bem com ninguém na igreja e só encontram defeitos. A paz que deveria dominar nem sequer está presente. Ora, se queremos ter a plenitude do Espírito que o Senhor promete então devemos ouvir sua Palavra e começar a praticá-la. São muito mais que palavras e podem nos levar a vencer qualquer crise, qualquer depressão ou dificuldade. Milhões, pela graça, já o experimentaram. E nós? Vamos fazê-lo também?

Eu, Boa Nova

Certamente já lhe aconteceu mais de uma vez. Ao longe viu uma pessoa que conhece se aproximando. Sabe que é uma pessoa desagradavel. É o tipo de pessoa que gosta de fazer de conta que são grandes amigos quando na verdade mal se conhecem. Sua falsa intimidade constrange. Seus comentários são sarcásticos e de mal gosto. Suas piadas são sujas e sem graça. Seu hálito é horrível e sua presença o repugna. O que faz? Quase que inevitavelmente foge. Arranja uma maneira de escapar do encontro. Aquela pessoa para você é simplesmente má noticia.

Agora imagine o contrário. Aquela pessoa gentil, de palavra animadora, que sempre o elogia, que parece brilhar a cada encontro, cuja presença é um bálsamo. Aquele tipo de pessoa que realmente ouve o que dizemos, que empatiza com nossas situações, que sabe dar conselhos sábios sem os impor, cuja palavra faz diferença para nós. Aquele tipo de pessoa que nos faz sentir importantes a cada vez que nos encontramos. É uma pessoa limpa, que veste bem sem exagerar e traz consigo um agradavel cheiro de perfume. O que faz? Inevitavelmente se aproxima. Deseja o encontro. Essa pessoa é simplesmente boa nova.

Esta perspectiva tem tudo a ver com o evangelho e sua propagação. Jesus era o Verbo que se fez carne. Ele encarnou, "habitou entre nós e vimos a sua glória". Antes de proclamar a boa nova, Jesus era a Boa nova. A boa nova encarnada. Ele atraía as pessoas e elas se aproximavam dele com prazer. É claro que os hipócritas o adiavam, ou antes odiavam o que deles se percebia quando se aproximavam de Jesus. Mas o povo o amava e dele se acercava com naturalidade e alegria desde crianças a idosos, ricos e pobres, sábios e ignorantes. Sua palavra era única, sua capacidade de amor inigualavel, sua visão daquilo de bom que cada pessoa podia ser nas mãos de Deus, seu investimento mesmo nos casos considerados perdidos. Tudo nele atraía poderosamente. ELE era Boa Nova.

Se há uma coisa que tem prejudicado a Igreja e a proclamação do evangelho é crentes que querem anunciar as boas novas mas que são má nova. Suas vidas, atitudes, palavras e modo de falar, tudo causa afastamento. São desagradaveis, com ar de superioridade de quem diz saber tudo, atitude condenatória que pensa poder julgar e a prépotencia de entender que todos tem que os aceitar como são porque eles são donos da verdade. Grandes ateus e agnósticos tem criticado o Cristianismo (e nesse caso com razão) exatamente porque não tem conseguido ver Cristo ou seus ensinos nesses cristãos.

Vejamos brevemente algo que a Bíblia diz sobre os verdadeiros discipulos de Jesus. Eles devem ser:

1) Sal (Mateus 5:13)
O Sal dá à comida o seu sabor. O mais saboroso prato sem sal fica totalmente sem graça, sem interesse. Os ingredientes mais caros desperdiçados porque faltou aquele toque, pequeno mas fundamental que realça o valor de tudo. O sal preserva, mantém , impede a degradação. Seu valor ainda hoje é muito estimado em várias partes do mundo e há mesmo lugares onde serve como moeda de troca.

O Senhor disse que deveriamos ser sal. Onde estivessemos traríamos sabor, realçaríamos o gosto, impediriamos a degradação, serviríamos de preservante. O Cristão tem que fazer a diferença em seu meio dando-lhe o que o mundo não pode dar. Se nossa atitude for de condenação ou superioridade como poderemos influenciar? Como conquistar a confiança se não soubermos ganhar o respeito? Perguntemo-nos a nós mesmos: dou sabor aos lugares onde vou? Tenho ajudado a impedir a degradação de pessoas e ambientes onde chego?

2) Luz (Mateus 5:14)
Segundo Jesus deveríamos ser luz. Dar côr, brilho, vida onde quer que fossemos. Só com a luz podemos apreciar as maravilhas da criação. Uma das maiores riquezas do homem é ver o nascer do sol quando a terra se enche de luz. A luz permite a orientação, a escolha clara de uma direção segura. Com luz evitamos os buracos, a sujeira, os espinhos. Com a luz vemos as belezas, retiramos as manchas, embelezamos nosso mundo.

O Cristão tem que ser luz. Onde vai reflete a glória de Deus. Onde chega faz realçar as maravilhas da criação. Ajuda a que as pessoas vejam as cores em suas vidas. Auxilia o desorientado, mostra o caminho ao perdido, livra dos buracos o desencaminhado e ajuda na limpeza das vidas. Um Cristão luz será atrativo de um modo irresistivel como uma farol no meio de uma tempestado ou o brilho no fundo de um tunel.

3) Perfume (II Corintios 2:15)
Paulo usou a figura do perfume para falar do crente. Ora perfume é algo que todos gostam. Torna um ambiente agradavel, retira os maus cheiros presentes e faz com que o próprio ar pareça mais respirável. Um bom perfume atrai, seduz, encanta, chega a ser enebriante num bom sentido. Um perfume gostoso faz com que o local fique em nossa memória já que a recordação de cheiros agradaveis perdura em nossa mente e olfato.

Um Cristão genuíno é perfume de Cristo. Onde chega traz um ar novo, limpo, agradavel. Sua presença é gostosa, marcante, suave mas penetrante. Um Cristão perfume de Cristo se torna memorável porque sua presença traz à mente coisas boas, recordações belas e abençoadas. Um Cristão assim atrairá as pessoas a Cristo tão certo como um bom perfume atrái a nossa atenção.

Aplicação: Antes de poder proclamar a boa nova da salvação eu tenho que me tornar a boa nova. A Palavra diz que somos feitos novas criaturas, filhos de Deus, propriedade particular do Senhor, herdeiros do céu. Feitos novos por dentro devemos mostrá-lo por fora. Nossa presença deveria ser desejada e abençoada. Em vez de criticar, elogiar. Em vez de condenar, abençoar. Em vez de rebater, encaminhar. Nossa palavra, nosso ouvido, nossa orientação e conselho, nossa capacidade de amar, deveriam ser de tal maneira desenvolvidos no Senhor que fizessem as pessoas sentir a atração daquele que os amou até a morte. Quye as pessoas possam desejar a minha presença. Que onde eu chegar possa ficar conhecido como boa noticia. Eu, Boa Nova.
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