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Otimismo Retroativo


Chamou-me a atenção uma expressão muito mencionada atualmente  – Otimismo Retroativo. Trata-se da capacidade de ser otimista ou feliz apenas com situações que já passaram. É um misto de saudosismo que só encontra motivos de alegria no passado e insatisfação pessimista que vê só nuvens negras no futuro. O curioso nesta situação é que aquilo que hoje se analisa como maravilhoso foi visto então como negativo. Só há otimismo e satisfação a posteriori. A expressão se aplica atualmente ao estado de espírito de toda a nação portuguesa e talvez na maioria da Europa.

A Igreja tem tido a infeliz tendência de seguir o mundo e nesse sentido acaba por demonstrar também um otimismo retroactivo. Os programas previstos são olhados com desconfiança. Boas mesmo só as coisas do passado. A nível pessoal ainda é pior e o crente se vê dominado por um sentimento geral de desânimo e falta de coragem. E é nessas horas que mais precisamos olhar para a Palavra.
1) Motivos de Gratidão presentes
Paulo conclamou os crentes de Filipos a se alegrarem enquanto estava na cadeia em Roma esperando sua condenação (Filipenses 4:4, 6 e 7).
Jesus nos falou de viver nele Vida abundante falando na Palestina e não em Pompéia ou Capri ou na baía da Nápoles. Se olharmos à volta veremos que temos muitas razões para agradecer:
·        Visite um hospital oncológico e verá gente lutando pela vida em meio às dificuldades de uma quimioterapia e talvez valorize mais sua saúde;

·        Acompanhe o quotidiano de uma criança ou jovem com paralisia cerebral e talvez aprenda a louvar pela saúde de seus pequeninos;

·        Visite um centro de reabilitação de drogados e é provável que agradeça a Deus por seus familiares terem trabalho e estarem bem ajustados na sociedade;

·        Ouça as notícias da igreja perseguida e talvez aprenda a louvar por ter liberdade de culto.
Jesus mandou que olhássemos à nossa volta, para a natureza e percebêssemos que o cuidado de Deus nos cerca a cada momento. Porque reclamar tanto sobre o que não temos quando há tanto para louvar em nossas mãos.
2) As testemunhas que nos cercam
Hebreus 12:1 fala que estamos rodeados pelos testemunhos de muitos que nos antecederam na fé.
·        Lembre de Davi usando suas lutas e problemas para criar salmos de Louvor

·        Recorde o Povo de Israel que recebeu uma lista de festas no meio de um deserto abrasador

·        Leia novamente a história de Daniel orando na cova dos leões

·        Reveja a expressão de Neemias ao povo em meio aos escombros de Jerusalém – A Alegria do Senhor é a nossa força

·        Veja Pedro dormindo tranquilamente na noite que antecedia à sua execução

·        Ouça Paulo e Silas cantando à meia-noite nos calabouços de Filipos
São muitos os exemplos antigos da Bíblia e da História da Igreja que nos mostram que os servos de Deus tem uma atitude diferente diante da vida e dos problemas. Não somos pessimistas dominados pelo materialismo que só encontram prazer no consumo sem controlo e que vivem unicamente para uns poucos momentos de prazer. Temos uma razão maior.
3) Nossa razão maior - O Senhor
Para mim o viver é Cristo, dizia Paulo. Onde está nossa razão de viver! Onde está nossa esperança e nosso propósito? Em Cristo. Ele deu a vida por nós para tivéssemos vida aqui e garantia do céu lá. Andamos no temor do Senhor sabendo que a cada momento Ele nos acompanha mesmo que o vejamos claramente. Confiamos no poder do Senhor que é mais digno de confiança que todas as ciências e elaborações humanas. Ele tem provado seu amor de tantas maneiras e é o mesmo Deus ontem, hoje e eternamente. Ele não faz distinção entre seus filhos e aquilo que é bênção para o passado será também para o presente. Quem muda é o homem. O que muda é o nosso coração, mas a palavra do Senhor permanece para sempre.
Não somos chamados a um otimismo tolo e irrealista. Somos chamados a lembrar que há bem mais nesta vida que aquilo que vemos, que há mais no homem do que aquilo que ele veste e come, que há mais no viver que comprar e vender. Conhecemos a transcendência e recebemos um propósito e é isto que o mundo inteiro busca.
Sejamos a comunidade onde a paz e a esperança ultrapassam raciocínios e entendimentos e o nosso testemunho irá marcar esta nação!

A BANALIZAÇÃO DOS MILAGRES

Culto dos Milagres!
 Dia dos milagres! 
Receba hoje a cura que estava procurando!
 Curandeiro à toda prova!
Seu amor de volta em 3 dias...
Quanto mais a ciência tenta negar a existência de milagres mais estes se tornam um produto desejado e oferecido, numa dinâmica semelhante à de mercado.  O meio evangélico não fica atrás. Os curandeiros e médiuns que oferecem milagres por certo preço são coisa já antiga. Igrejas oferecendo milagres em troca do dízimo é mais recente, mas igualmente preocupante. Em que ficamos nessa banalização dos milagres?

A filosofia moderna procura ridicularizar a noção de milagre. O homem sempre desejou poder para realizar seus sonhos e desejos e muitas vezes é essa atitude egoísta que o leva à procura de milagres. O cinema tem feito sua parte nessa ridicularização, através de filmes como aquele em que Jim Carey recebe de deus o poder supremo e o utiliza para coisas ridículas, como abrir a sopa de seu prato (como o mar vermelho) ou levantar a saia de uma jovem na rua.  Desse modo, a mente moderna procura rejeitar a possibilidade real de milagres.

O outro lado da moeda é a oferta publicitária de milagres fáceis que se vê hoje no meio do evangelicalismo. Os milagres têm dia e hora marcados e são apresentados como infalíveis.  Há muita ênfase dos nomes de poder. Certos pastores e lideres se pavoneiam, apresentando curas e outras maravilhas como a prova de sua superioridade espiritual. Essa banalização prejudica em muito a Igreja e o Reino de Deus. Incentiva a busca egoísta de Deus, engana o povo com pseudocuras que regridem no dia seguinte e servem para desacreditar o evangelho e a Igreja de Jesus.

Instintivamente, o homem acredita no sobrenatural. Essa crença pode ser usada de muitas maneiras. Infelizmente, muitos usam-na para lucrar, e é aqui que mais se vê a ganância do coração humano, naqueles que lucram da miséria alheia e não têm pudor de se aproveitar do sofrimento do próximo numa completa negação do princípio bíblico e da verdadeira natureza dos milagres.

Biblicamente, os milagres existem, mas como sua própria definição o mostra, são excepcionais! Há períodos bíblicos de muita ação milagrosa como no tempo de Moisés e do êxodo, na época de Elias e Eliseu e no ministério de Jesus e dos apóstolos. Entre esses períodos há, por vezes, séculos sem referências a milagres. Isso, só por si, deveria nos fazer refletir sobre sua frequência e relevância. O Senhor não faz milagres quando o homem quer, não tem nenhuma obrigação para com a criatura e não pode ser julgado pela existência ou ausência de milagres.

Guardemos então, alguns pontos importantes sobre essa questão que acaba nos tocando a todos mais cedo ou mais tarde:

1) Milagres são a exceção e não a regra!
Mesmo no tempo de Jesus houve milhares que não foram curados e o Senhor repreendeu aqueles que o procuravam apenas para ver maravilhas ou delas aproveitavam. Os profetas que fizeram maravilhas muitas vezes foram até martirizados e não foram necessariamente salvos milagrosamente. João Batista que Jesus considerou o maior dos profetas não fez milagres e foi decapitado por Herodes e não salvo como Pedro. Paulo curou a muitos, mas não pode se livrar do famoso espinho na carne, não curou a Timoteo a quem receitou vinho para o estomago e tampouco pode curar a Epafrodito a quem o Senhor livrou por misericordia após doença prolongada. Logo, não podemos e não devemos achar que milagres são obrigação de Deus e muito menos exigir que aconteçam. Podemos pedi-los, esperá-los e crer neles mas sempre na noção clara que estão no reino da soberania e sabedoria Divina.

2) A falta de milagre no meu caso não torna irreal a sua existência.
Temos a tendencia de julgar tudo pelo que se passa conosco. Se o Senhor não me livrou, não me curou , não me dirigiu então é porque talvez não livre, não cure e não dirija. É evidente que em primeiro lugar deveria me arguir sobre minha situação com Deus. É comum ver gente que não liga a mínima para o Senhor ou a Igreja e na hora da necessidade corre para Deus e depois reclama que não foi logo atendida. Por outro lado, há bilhões de pessoas no mundo. Você pode imaginar quantos milhares foram libertos hoje? Quantos foram curados ou dirigidos neste dia? Então só porque comigo não aconteceu devo negar a benção nas vidas de tantos outros? É para isso tambem que existe a igreja. É nela que o testemunho dos muitos pode me ajudar nas lutas e dificuldades e me lembrar que mesmo quando não vejo pessoalmente o Senhor continua ativo e abençoador.

3) Há uma economia Divina na questão dos milagres também.
 Se o Senhor colocou à nossa disposição meios para lidar com certas situações e capacidade de raciocinio para tratar de nossas vidas não devemos ficar esperando atuações milagrosas a cada esquina. Muita gente se mete em problemas por falta de prudencia e de discernimento e depois clama por milagres. Outros desprezam os recursos disponiveis e depois querem milagres.

Conheci um jovem que foi para o campo missionário na Africa Ocidental, uma região de malária endemica. Ele era epiletico e tomava medicação diariamente. Ao viajar para o campo deixou de fazer os antiepiléticos e não fez profilaxia para a malária. Segundo ele o Senhor tinha que tomar conta de seus servos que eram chamados para missões. O resultado foi apanhar malária em cima de crises epiléticas diárias que tornaram sua permanencia no campo impossivel. É claro que ele queria um milagre. Mas nesse caso, como em tantos outros, o Senhor já colocara a disposição meios para tratar dos problemas. Devemos lembrar que o Senhor não fará por nós aquilo que nós podemos fazer.

4) Milagres são para a Glória de DEUS, não dos homens.
 Quando vemos cartazes com nomes de lideres em letras garrafais e um versiculo bem pequenininho em baixo já devemos desconfiar do que ali se passa. Quanto mais próximo do Senhor maior a humildade do servo. Aqueles que realmente se aproximam do Senhor entendem sua grandeza e se humilham naturalmente. É, e será sempre uma contradição profunda, um suposto servo de DEus que é cheio de poder e se orgulha disso publicamente. Vai contra tudo o que a Palavra, a história da igreja e a experiência dizem. Os milagres existem para que o Senhor seja exaltado, o homem dê graças e conheça mais de seu amor. Tudo que passar disso para exaltação humana é espúrio e deve ser rejeitado.

5) O inimigo também faz milagres.
 Moisés teve que enfrentar magos egipcios que eram peritos em artes mágicas. Pedro lidou com Simão em Samaria e Paulo com Elimas em Chipre. Homens e mulheres dotados pelo inimigo da capacidade de fazer maravilhas reais existem e estão por aí para se ver e confirmar. Logo, milagre não é garantia de coisa de Deus e nem de espiritualidade santa. Jesus foi muito claro em Mateus 7:22. Gente que profetizou, fez milagres e exorcismos em nome de Jesus serão rejeitados no dia do julgamento. Precisamos desenvolver o dom de discernimento e avaliar a vida e obra daqueles que se apresentam como homens de Deus.

6) Conversão por meio de milagres não é garantia de firmeza cristã.
Os defensores dos milagres em larga escala normalmente usam o argumento do milagre para a fé. Segundo essa ideía é preciso que haja muitas maravilhas para que o povo se converta em massa. Essa argumentação cai diante do registro biblico e da experiência milenar da igreja. Que povo viu mais milagres e mais grandiosos que o povo de Israel que saiu do Egito? No entanto só Josué e Caleb entraram em Canaã. Elias derrotou os profetas de baal com ação poderosa, mas o culto pagão continuou a florescer. Jesus fez maravilhas como ninguém mas o povo gritou: crucifica-o. Conversão baseada em milagres é em geral superficial, egoista e requer uma dose continua de maravilhas para crescer.

Não negamos que alguns sejam salvos após a intervenção do Senhor de um modo especial, mas biblicamente não é assim que a fé funciona. A fé vem pelo ouvir a palavra. Jesus chamou de bem aventurado os que não viram e creram. Oremos por milagres sim , mas não criemos dependência deles porque o justo vive pela fé e não pela vista.

7) Orar pela vontade de Deus é o princípio bíblico.
Há muitos que se irritam quando oramos por uma cura ou maravilha e acrescentamos "se for da tua vontade". Dizem que isso anula o milagre porque é falta de fé. Ora, orar segundo a vontade de DEus é uma das principais lições de Jesus. Foi sua oração no momento supremo do getsemani ( Mateus 26:39). Tiago, pastor da igreja de Jerusalém orientou os crentes a não pressumir sobre o futuro (Tiago 4:15). Como pode uma oração feita segundo a orientação biblica ser errada ou faltosa?

Segundo o Dr. Dallas Willard, quando oro para que seja feita a vontade de Deus não estou mostrando falta de fé e sim de conhecimento. Não é falta de fé em Deus (estou falando com Ele), não é falta de fé na oração (estou orando), não é falta de fé no poder de Deus (estou pedindo o milagre), é falta de conhecimnto porque não posso ter a certeza de que aquilo é o melhor, mas creio que o Deus que tudo pode também é o Deus que ama e conhece todas as coisas. Oremos pois dentro da orientação biblica sem medo de errar.

Conclusão: Que os milagres existem o crente sabe. A graça de Deus, por vezes, ultrapassa mesmo as leis da natureza em providenciar para os seus aquilo que precisam. Orar por milagres, pedi-los ao Senhor e esperar por eles é biblico e devemos fazê-lo. Mas sempre na busca da vontade de Deus. Confiemos no amor de Deus que supre nossas necessidades. Desenvolvamos o discernimento espiritual necessário para não sermos levados por enganadores.

Trabalhemos para a Glória do Senhor e alegremo-nos, porque o nosso Deus é o Deus dos impossiveis e dos milagres também.

Construção ou Demolição?

Nesta vida há inúmeras maneiras de classificar pessoas. Algumas são bastante elaboradas, como a teoria dos temperamentos (sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático), outras mais simples como a ideia de que somos produtores ou somos consumidores ou ainda a dicotomia fazedores/espectadores. Na sua maioria, essas propostas expressam alguma verdade e têm utilidade para nos fazer pensar. Uma delas é essa: De que equipe fazemos parte? Da equipe de construção ou da de demolição?

No que diz respeito a prédios, temos necessidade de ambos os tipos de equipas. Mas nas relações humanas a figura muda. Precisamos saber claramente a que grupo pertencemos, porque faz e fará grande diferença para nós, nossos amigos e familiares o impacto que deixaremos ao nosso redor.
Membros da equipe de demolição do maligno trabalham na destruição de vidas. Usam seus olhos para descobrir os erros e defeitos, usam seus ouvidos para ouvir a maledicência a qualquer hora e em qualquer lugar, usam seus lábios para desmotivar, criticar, desmoralizar e entristecer os que os rodeiam. No meio de uma casa nova encontram um defeito na parede ou uma rachadura na vidraça. Em meio à alegria de uma festa descobrem o que não está funcionando no serviço ou uma falha nas casas de banho. No fim de um culto abençoado são capazes de referir um erro gramatical da mensagem pastoral ou um desafino do coral. Diante de uma pessoa bonita e bem vestida são capazes de encontrar motivo de crítica, que mais não seja o custo da roupa.
Os membros da equipe de demolição do inimigo não reconhecem que o sejam. Não é como se andassem por aí com uma etiqueta presa em suas camisas ou um boné com a insígnia de demolição. Na verdade, eles em geral se julgam “realistas” e “sinceros” e acham que todos deveriam ser como eles. Gostam de falar bem alto que “dizem a verdade doa a quem doer” e acrescentam “não sou de falinhas mansas” ou ainda “as verdades são para se dizer”. Desse modo se autojustificam para todas as palavras desagradáveis e malignas que vão deixando na sua passagem. E que rastro deixam...
Membros da equipe de construção de Deus trabalham para edificar vidas. Usam seus olhos para perceber potencial e capacidade, usam seus ouvidos para discernir elogios e bênçãos, usam seus lábios para animar, encorajar, alegrar e encaminhar. Em meio a tristeza de uma perda familiar tem uma palavra de consolo que conforta. Em meio a uma apresentação falhada conseguem ver aspectos positivos que prometem um amanhã melhor. No fim de um culto que a muitos pareceu monótono e cansativo encontram razões para louvar a Deus e agradecer ao pastor. Diante de uma pessoa com trajes simples e aspecto banal são capazes de descobrir um traço de beleza que mais ninguém viu.
Muitas vezes os membros da equipe de construção de Deus nem sabem que o são. Na verdade sua alegria flui de uma vida grata de comunhão com um Deus maravilhoso que criou muitas maravilhas. Procuram seguir as palavras do Mestre que dizia que devíamos fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós e por isso não sentem que fazem mais do que sua obrigação.
Todos já sentimos a angústia de estar perto de um demolidor e também a alegria de estar perto de um construtor. Na verdade, nós também fazemos parte de uma dessas duas equipes. Qual será? Avaliemos com sinceridade. É mais fácil demolir que construir. Sempre foi e sempre será. Mas é bem mais glorioso e abençoado fazer parte da equipe de Deus que edifica. Vamos trabalhar meu irmão. Há vidas e construir, ânimos a restaurar, corações a consolar e almas a ganhar. Esta tudo no poder da tua e da minha palavra usadas pelo Senhor da Palavra.

Como Crianças, mas não como Crianças (Parte 2)

Na última postagem pensamos nas palavras de Jesus em Mateus 18:3 de como devemos ser como crianças e notamos as características infantis que devemos ter. Temos, no entanto, em I Coríntios 3:1 uma advertência de Paulo para que não sejamos crianças. Nessa mesma carta ele diz que ao amadurecer em Cristo “deixou as coisas de menino” I Coríntios 13:11. Já meditamos em como devemos ser crianças. Pensemos agora em que devemos evitar ser como crianças.

As crianças pequenas não desenvolveram ainda aquilo que a psicologia chama de “permanência do objeto”, ou seja, a capacidade de entender a presença de algo que não se vê. Uma criança pequena brinca com algo e se diverte, mas se essa coisa, por exemplo, uma bola, sair de seu campo de visão, ela imediatamente se esquece dela. Para a criança a bola deixou de existir. Ela ainda não desenvolveu a capacidade de saber que está lá, talvez debaixo de um móvel, mesmo que ela não a esteja vendo.

Há crentes assim. Como Tomé só aceitam o que vêm, não conseguem crescer na fé já que essa é a “certeza das coisas que não se vêm” (Hebreus 11:1). Ora sem fé é impossível agradar a Deus e impossível viver e crescer no caminho de Jesus. Somos chamados a deixar de ser crianças e viver da fé, não da vista.

Relacionada com essa característica está a aprendizagem da ausência. A razão porque as crianças choram tanto nos primeiros dias de escola é que não conseguem entender que a mãe vai voltar no fim do dia. Para elas, ao serem deixadas pela mãe e ao deixarem de vê-la foram abandonadas. Serão precisos muitos dias de aula para que a criança perceba que a mãe voltará, mesmo que não pareça. Que apesar do interminável dia, a hora vai chegar em que verá aquele sorriso conhecido e receberá aquele abraço desejado.

Muitos crentes vivem dependentes da ação visível de Deus. Quando há atuação direta, quando há resposta rápida a oração, quando há milagres acontecendo, então são felizes. Mas basta o silêncio do céu durar mais de umas semanas e estão em depressão. Ainda não venceram a fase infantil da fé. Não conseguem entender a presença de Deus sem ver milagres. Não percebem que o Senhor está presente a não ser nas vitórias. Têm muito que crescer ainda.

Uma terceira característica das crianças pequenas é a necessidade de gratificação imediata. A criança tem que comer, beber, mudar de posição, trocar de fralda, ter sua chupeta em base instantânea. Como não pode fazer isso sozinha e depende de outros, sua única reação é chorar e usa essa estratégia de modo insistente e ensurdecedor até ser atendida. E infelizmente temos irmãos e irmãs que parecem bebés chorões. Sempre reclamando de algo que não aconteceu, de uma bênção que não chegou, de um pedido que não foi atendido, de uma pessoa que passou a sua frente. Sem gratificação imediata acham que o mundo vai acabar. Esse tipo de vivência cristã demonstra imaturidade. A esses, Paulo dizia, cresçam e deixem de ser como crianças.

Por último, lembramos do egocentrismo próprio da criança pequena. Ela se julga o centro do universo. Só existe o que lhe diz respeito e tudo o que existe é de algum modo para servi-la em suas necessidades. Entre as primeiras coisas que a criança aprende a dizer está o pronome possessivo “meu”. “É meu” sai depressa de seus lábios. Partilha é algo que levará anos a aprender. Serviço então nem se fala, terá que ser imposto de um modo ou outro pois a criança naturalmente não servirá.

Jesus insistiu que a vida cristã é centrada em Deus e no serviço ao próximo. Crentes egocêntricos, que acham que Jesus veio apenas para salva-los e o Pai existe apenas para responder suas orações, são os que dão mais trabalho. Para eles, a igreja, os irmãos e o pastor, estão lá para tratar de suas necessidades. A esses, Paulo diria: cresçam, deixem de ser como meninos, amadureçam e coloquem de lado as coisas de criança.

A vida cristã é cheia de paradoxos. Somos chamados a ser como crianças na simplicidade, confiança plena, apetência para o ensino, humildade no clamor, alegria grata, mas a deixar de lado a incapacidade de lidar com a aparente ausência do Pai e o egocentrismo que exige gratificação imediata. Sejamos pois como crianças...porém não como crianças.

O SERMÃO QUE PRECISAMOS!

Ouço falar de crise ministerial, mas o que vejo é um aumento do número de pastores nos bancos das igrejas. Antigamente eram comuns casos em que um pastor tinha que dar assistência a várias igrejas. Hoje vemos uma igreja com vários pastores assistindo ao culto. E não estou falando de pastores aposentados, que já fizeram seu trabalho e agora descansam de um ministério abençoado. Falo de jovens pastores, de homens ainda na flor da idade que se acumulam em igrejas quando há falta de líderes em outros lados.

Com a inflação de pastores veio a necessidade de agradar. Quando o individuo tem a oportunidade de pregar tem que aproveitar bem a chance. Tem que agradar o auditório ou fica sem hipotese de voltar. Temos assim uma crescente tendência para ouvir discursos que divertem e agradam. Devem ser curtos (para não cansar), alegres (para não deixar o povo em baixo), motivadores (para preparar a semana) e agradaveis . Mas serão esses os sermões que precisamos? O que tem faltado em nossos púlpitos? Reflitamos um pouco nas caracteristicas do sermão que precisamos:

1)Bíblico
O sermão que precisamos tem que ser baseado na revelação escrita de Deus. A tendência moderna é fazer discursos de auto ajuda, baseados em ciências humanas, citando autores e filósofos atuais, sugerindo técnicas psicológicas recentes e deixando de lado a Palavra. O texto bíblico é citado como "desculpa" ou apenas para concordar com os pontos do pregador, mas um estudo sério e sistemático da Bíblia não é feito.

Precisamos voltar à Palavra. É ela que traz vida, que transforma, que regenera. A fé vem pelo ouvir da Palavra e não outras coisas. Paulo já enfatizava a necessidade de fugir de argumentações meramente humanas e se concentrar na cruz, no evangelho. Precisamos regressar as palavras do Mestre, à segurança de Jesus.  Ele não fazia sugestões, não fazia especulações ou propostas. Fazia afirmações eternas começando com "Na verdade vos digo..."

O sermão que precisamos tem que ser retirado da palavra porque sua verdade é eterna e eficaz. Não podemos usar a Bíblia para defender nossos pontos de vista. Isso é o que fazem os criadores de heresias. Temos que estudar a Palavra, ir fundo nela, meditar sobre seus conceitos, principios, ensinos e exemplos e tirar então as lições que vivificam. O pregador deve sempre se arguir: Esta mensagem é realmente bíblica ou a tirei de meus próprios pensamentos e idéias? Lembremos de algo fundamental:  a Palavra de Deus (contrastando com outros tratados religiosos) não apenas nos ensina sobre a verdade mas nos capacita para vivê-la.

2) Inspirado
O sermão que precisamos é fruto de um tempo de comunhão com o Pai. Vem do céu para o povo de Deus. Surge da meditação na palavra e na situação da igreja. O pregador tem que conhecer o texto biblico e a situação de seus ouvintes. Nesse contexo, e em oração e busca, o Senhor revela o que tem para seu povo. Esse sermão é inspirado e eficaz.

Preocupa-nos ver jovens pregadores ansiosos sobre o que pregar, procurando estudos na internet, questionando como é possível ter sempre mensagens novas. Aquele que medita na palavra tem sempre novidade do Senhor.  A riqueza da Bíblia é inesgotável. Mas a procura tem que ser no lugar certo. Não é possível pregar o sermão de outro. Para ser válido, tem que primeiramente ser próprio do pregador, ser parte de sua vivência com Deus. Pode até acontecer de ouvir outro pregar e então me apropriar das verdades citadas a ponto de vivê-las e então pregar sobre isso. Mas nesse caso, o sermão não é plágio, é apenas comunhão de experiências com Deus.

Sermões inspirados são aqueles que falam ao povo. Que no seu término nos dão a sensação de que estivemos realmente em contato com o céu. Suas palavras, apesar de humanas, vão além do escopo da carne e entram na realidade do Espirito e então sim, temos sermões que fazem a diferença nas vidas.

3) Relevante
O sermão que precisamos tem que ser atual, relevante aos ouvintes. Podemos pregar a Bíblia, mas por vezes o fazemos de modo tão desligado da realidade dos ouvintes que aquilo que falamos nada representa para eles. De que serve ouvir e conhecer profundamente sobre a realidade e gente que viveu a milênios se isso nada me diz? Para que gastar espaço em meu cerebro com informação sobre acontecimentos de séculos atrás se isso não vai me ajudar hoje?

Há que perguntar: como vivem os ouvintes? O que marca suas vidas? Que aspectos são importantes em sua realidade? Quais suas perguntas? Quais seus dilemas? O sermão de algum modo responde a uma pergunta,  mas que pergunta?  Se me dou ao trabalho de responder a uma pergunta que não estão fazendo, estou na verdade perdendo meu tempo.

Isso significa que além de gastar tempo com a palavra, o pregador precisa gastar tempo com as ovelhas. Saber que tipo de situações estão dominando seus dias e ocupando suas noites. Conhecer os problemas, dilemas, questões. Só assim o estudo da Bíblia lhe trará as respostas que o povo precisa e quando respondemos as perguntas que estão sendo feitas o rebanho quer ouvir, quer saber, pede mais.

4) Prático
Muitas vezes ouço um bom sermão, na medida em que foi um bom discurso.  Foi bíblico e parece inspirado. O pregador falou de coração, mostrou vivência do que proclamou e até procurou falar aos problemas dos ouvintes. Mas quando o sermão acaba fica aquela pergunta desagradavel: e agora? O que faço com tudo isso? Como aproveito esse ensino? Como o posso usar para de modo direto ajudar em meus problemas?

Imagine que vai ao médico. Ele o observa, faz as peguntas certas e no fim lhe dá o diagnóstico seguro. O que você tem é isso! Ótimo, e agora?  Agora vai para casa e medita nisso, pensa em sua situação e reflete sobre seu diagnóstico... O que você diria? Que médico mais maluco! Onde já se viu diagnosticar e não prescrever?  O que queremos é uma receita. O que precisamos é saber como tratar da doença. De nada me serve um diagnóstico sem a cura.

Há sermões assim. Dão o diagnóstico correto, mas não falam da cura, não apresentam uma solução viável e o crente sai frustrado convicto de que há um problema mas sem saber como resolvê-lo. Ora o sermão que precisamos tem que ser prático. Tem que dizer o que fazer. O ouvinte atento deveria saber dizer na saída do culto exatamente o que pode e deve fazer com tudo o que ouviu.

Concluindo:
O sermão que precisamos mais que entreter deve nos comover, mais que informar deve nos transformar, mais que motivar deve nos regenerar. Não deve ser passatempo ou obrigação religiosa. Não é diversão ou palco para divulgação pessoal. O sermão que precisamos vem de Deus, para nossas necessidades, orienta, guia, exorta, aconselha, consola e até motiva. Trás-nos mais perto de Deus, leva-nos a um maior envolvimento com o Senhor pede uma mudança de atitude para mais perto daquilo que devemos ser e mostra de modo prático como obter tudo isso. Que o Senhor inspire seus servos a pregarem mais sermões desses para o bem de seu povo.
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SONHO DE DEMBA (VERSÃO REVISADA)

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