O Currículo de Deus

 

Diante da crise e do desemprego crescente muitos têm descoberto a necessidade de ter um currículo em dia. E o que é o currículo? É um documento que conta de modo reduzido sobre a pessoa, sua formação e experiência profissional. As empresas e os patrões procuram pessoas, trabalhadores que possam desempenhar certas funções e lhes dêem garantias de sucesso no futuro. Com farão isso? Como saber quem colocar em certa posição? O Currículo. Por meio dele podem saber se este indivíduo corresponde ao que procuramos e se ele será capaz de desempenhar a função no futuro. Ou seja, para saber o que este trabalhador é capaz de fazer, olho para seu currículo, olho para seu passado.

E Deus? Qual é a minha expectativa em relação a ELE? O que espero que o Senhor faça em minha vida? Que expectativas tenho do que o Senhor pode ser para mim? O que posso esperar com toda garantia? Independente de minhas procuras e meus desejos, devo olhar o currículo do Senhor. E ELE nos deixou um currículo extenso. Ele mesmo nos chama a fazer isso (Isaías 48:9 e 10 – Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus e não há outro, eu sou Deus e não há semelhante a mim que desde o principio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam)
E qual é então o currículo de Deus? Como podemos consultá-lo de forma rápida para sabermos em que confiar e o que esperar? Ora, os currículos em regra têm 2 itens principais: formação e experiência. Há uma parte para colocar o conhecimento adquirido, os cursos feitos e os diplomas que o individuo tem e depois uma outra parte com a experiência profissional descrevendo o que já se fez e os cargos que já se ocupou e onde. Notemos então resumidamente o currículo do nosso Deus.
Conhecimento
O Senhor tem um conhecimento único e perfeito sobre a criação toda e sobre o homem. Foi Ele que fez todas as coisas. Ele as planejou e as preparou. Ele as chamou da não existência para a existência. Ele conhece tudo de modo completo e o homem de modo especial. O homem foi criado a semelhança de Deus. Aquilo que vai em nosso íntimo sabe como nem mesmo nós sabemos. EX: quando deu a lei a seu povo Deus ordenou que a circuncisão fosse feita no 8º dia de vida. Hoje a ciência sabe que a circuncisão permite eliminar uma série de doenças do homem e da mulher pois em Israel o índice dessas patologias é bem menor. Mas só depois de muita pesquisa se descobriu que o 8º dia é o dia de nossas vidas em que nossa taxa de plaquetas é mais alto, sendo por conseguinte o dia ideal para a cicatrização. O homem não sabia mas Deus sabia. E se Ele sabe de nosso corpo sabe de nossa alma e de nosso espírito. Ele nos fez assim e só funcionaremos bem nas mãos dele que sabe tudo sobre nós.
O Senhor tem um conhecimento perfeito da História. Tudo que já aconteceu ele conhece em seu âmago e sem falha. Isso lhe permite conhecer todas as possibilidades, todas as alternativas e todas as coisas que já foram feitas. Como é útil estudarmos a história não é? Ajuda a entender porque certas coisas são como são. Estudamos a história exactamente para responder as perguntas que temos. Escrevemos sobre os personagens do passado, as guerras, os conflitos e tudo mais para agregar sabedoria e aprender. Pois o Senhor é muito mais que doutorado em História. Ele realmente conhece toda a realidade do Homem desde sempre e como isso deve servir para que possa ser o nosso Deus, o nosso guia perfeito e sem falha. SE a história pode dar alguma ajuda na compreensão e nas decisões podemos estar tranquilo porque Ele tudo conhece.
O Senhor sabe do tempo. Se ao falar da história posso estar tranquilo porque vejo que Ele conhece o passado, ao pensar no tempo digo também que ele conhece o presente e o futuro. Ao dizer que conhece o presente lembro que o Senhor sabe de tudo o que esta acontecendo. Desde o que se passa em sua mente neste momento, aos seus pensamentos mais profundos, mas também aos atos e intenções de todos em, toda terra. Essa capacidade é parte de sua divindade. E Ele sabe também do futuro. Ele sabe o que vai acontecer. Só Ele determinou o fim da história. E se é verdade que a Palavra nos diz que o Senhor se auto limitou ao nos dar liberdade, também é verdade que Ele trabalha por nós tendo em conta exactamente o nosso futuro. E que segurança de saber que meu Deus conhece tudo, sabe de meu coração, conhece todos os demais e além disso sabe o que vem por aí. Que currículo!
Experiência
Pensemos em termos de experiência no povo de Deus. O que Ele tem feito por seu povo ao longo da história certamente fará por nós que somos eu povo nesta hora da história também.
O Senhor salvou seu povo.
Ele olhou e percebeu a dor e o sofrimento de seu povo no Egito (afinal Ele se importa) e por isso desceu para o libertar. Encontrou um homem a quem delegar a responsabilidade da tarefa e lhe deu uma missão e por meio dele tirou seu povo do Egito. Com braço forte derrotou a nação mais forte do mundo de então para levar seu povo para uma terra que lhes tinha prometido. Seja qual for a situação em que nos encontremos Ele pode nos salvar. Salvar a alma e o espírito de uma vida sem sentido e uma eternidade longe dele, salvar de nossas culpas e mazelas, salvar de nossos pecados e falhas, salvar de nossa fraqueza e incapacidade, salvar de nossos medos e ansiedades, salvar de nossos inimigos e adversários.
O Senhor preservou seu povo no deserto.
Uma vez fora do Egito tinham que Viajar até Canaã para ali se estabelecerem. Mas este povo foi rebelde e acabou ficando no deserto… por 40 anos… e o que Deus fez? Os abandonou? Não! Deus os preservou. Deu maná diário, deu carne, deu água, deu vitória contras as tribos guerreiras do deserto elevou seu povo quase que no colo até a conquista da terra prometida. Deus preserva mesmo nas condições mais difíceis. Para Ele não foi difícil guardar seu conserto e manter sua promessa e impedir a aniquilação de seu povo. Pode ser que passemos por tempos duros e caminhemos por desertos mas o Senhor pode nos amparar nessa caminhada e nos guardar de cair e perecer.
O Senhor orientou o povo.
 Andar no deserto não era fácil. Não tinham GPS e mesmo que tivessem não havia estradas para assinalar. Mas o Senhor lhes deu um GPS para o caminho e para a vida. O guia para o caminho era uma nuvem de dia e uma coluna de fogo de noite que durante 40 anos serviu de orientação para saberem quando pararem, quando andarem e para onde seguirem. O guia para a vida foi a lei. Uma palavra escrita, de modo claro e direto que servia de orientação para a vida com ele. Como deveriam viver? Como se comportar? Como melhorar os relacionamentos? Como lidar com as situações? Tudo vinha explicado e orientado na lei que o Senhor deu a seu povo.
Poderíamos falar tanto mais. Poderíamos ficar acrescentando pormenores e itens tanto ao conhecimento quanto à experiência da atuação de Deus. Mas fiquemos com estes.
Que consolo e que base para nossa fé. Que segurança para crer num Deus que conhece todas as coisas, me conhece perfeitamente, conhece tudo que já aconteceu, o que se passa neste momento e o que vai vir no meu amanhã. Que descanso tenho em me colocar nessas mãos em termos de futuro. E que base para minha fé quando vejo o que Ele tem feito nas vidas de seu povo ao longo dos tempos.
Ele salva das situações mais difíceis pelo que posso confiar que pode livrar-me do mal e de qualquer opressão. Só Ele pode libertar-me plenamente e tem providenciado essa libertação aos seus. Que descanso lembrar que Ele preserva os seus. Também tenho meus desertos, minhas épocas de aridez, mas Ele preserva no deserto e guia. Se precisar de orientação no caminho ou para a vida posso saber que conto com ele para tudo o que vier e nele terei plena satisfação. Com um Deus com um currículo assim posso confiar meu futuro com toda certeza!

Compromisso! Porque?


Ele levanta-se bem cedo durante 6 dias na semana, come um pequeno-almoço rico em proteínas e vai treinar cerca de 4 horas. São exercícios de aquecimento que levam quase 40 minutos, depois se submete a esforço contínuo na prática de sua especialidade. O almoço, e cada refeição, serão supervisionados por um nutricionista especializado em alta competição. Ele não pode simplesmente comer o que lhe apetece. Tem que manter o peso e a massa muscular. A tarde terá nova sessão de treinos com mais 4 horas de prática, exercícios, ginásio e musculação. Terá que ir dormir cedo para não prejudicar seu descanso. Tudo isso para uma prova que vai durar alguns segundos e uma fama que se vier durará apenas alguns anos. Todo seu esforço dificilmente o manterá no topo, se conseguir lá chegar, por mais de 10 anos.
 
A isso se chama compromisso! Os atletas de alta competição têm que dedicar suas vidas e fazer decisões difíceis. Irão abrir mão de muitas coisas, de vontades, de desejos, de passeios e lazeres, de comida e férias, fins-de-semana e companhias agradáveis. Acham que vale a pena pelo gozo de estar na frente e ganhar medalhas e reconhecimento. Na verdade, de milhares que treinam e lutam apenas uns poucos ficam realmente famosos como Ussain Bolt.
Somos chamados a um compromisso radical por Jesus. Em Mateus 16: 24 e 25 fica claro isso. “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me; porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e a quem perder a sua vida por amor de mim, salvá-la-á”. Parece muito radical não? Nem deve nos admirar que muitos ao ouvir isso tenham deixado Jesus. Mas valerá a pena esse sacrifício? O que ganhamos com nosso compromisso com o Senhor? Porque deveríamos faze-lo?
Porque Jesus assumiu um compromisso radical para nos salvar
Uma das mais fortes razões para nos comprometermos com Jesus é que Ele se comprometeu conosco. E seu compromisso foi radical ao ponto da morte. Jesus não apenas nos deu parte de seu tempo, um pouco de seu conhecimento, ou um esforço ocasional. Ele nos deu sua vida! A salvação que o Senhor nos ganhou exigiu todo o seu envolvimento. Ele teve que abrir mão do céu. Teve que se limitar a uma vida na terra. Teve que deixar de lado de modo temporário sua Glória e muito de seu poder.  Teve que aceitar a falta de gratidão e desprezo, a humilhação e a traição, a vergonha e a morte. Tudo isso sofreu para que nós pudéssemos ser salvos. Não chama isso a nosso senso de gratidão e dever? Não apela isso ao mais íntimo de nosso coração? Não pede esse compromisso um compromisso igual? E notemos bem, Ele não nos pede para morrer. Teria esse direito. Pede que vivamos. Pede que vivamos vidas cheias e abundantes, mas que a vivamos com Ele, sob sua maravilhosa direcção.
Porque nos é oferecido muito nesse compromisso
Mas além de tudo que já recebemos do Senhor Ele não nos chama para um compromisso apenas pelo infinito que já recebemos mas pelo infinito que esta diante de nós. Não é que a salvação seja pouco porque sabemos que é graça pura e inexplicável. Mas o mais incrível é que além disso Ele ainda nos garante uma graça futura que nos chama a esse compromisso com mais entusiasmo ainda. Não é apenas na gratidão que baseamos nosso compromisso mas na expectativa maravilhosa do que virá e em tudo o que Jesus nos garantiu e sua palavra nos promete de modo infalível. Lembremos que o Senhor nos disse que tínhamos que ser como meninos na aceitação do Reino? Como é que as crianças fazem ao receber uma prenda? Ficam gratos. E depois? Tentam retribuir? Não. A Criança se deleita no que recebe e passa a ter uma afeição especial na expectativa de mais. Não é que nos tornemos egoístas mas tentar retribuir a salvação é tolice. Só a gratidão não chega. Amamos o Pai pelo que fez mas sabemos que mais virá e isso nos impulsiona ao compromisso. Notemos apenas algumas dessas promessas que enchem nossa Bíblia e nos garantem o futuro:
Presença e bênção
O Senhor garantiu que estaria presente em nossas vidas quer por meio do ES quer por outros meios e instrumentos. Ele nos chamou a lançar sobre Ele toda a ansiedade porque Ele cuidaria de nós. O Apóstolo Paulo argumentou que tendo Deus nos dado Jesus, não poderia nos negar outras coisas, já que nos dera  o de mais alto valor. Somos chamados ao compromisso com um Deus que está sempre conosco, que nos acompanha a qualquer lugar em qualquer actividade e que deseja ser parte ativa de nossas decisões e vidas
Propósito a Razão de ser
Fomos criados com propósito. Tudo que trazemos para essa vida em corpo, alma e espírito nos capacita a cumprir esse propósito a ter uma direcção na vida a perceber o cumprimento do plano maior de Deus para a humanidade. Nosso compromisso com Deus tem a ver com abrirmos mão de tentar encontrar uma razão de viver sozinhos e deixarmos o Senhor encher nossa vida de propósito e direcção. Isso não quer dizer que vamos todos ser pastores e missionários, mas que seremos muitas coisas diferentes mas na noção clara de estar na vontade e direcção de Deus.
Galardão
Como se não fosse pouco a salvação e o céu, ainda temos a promessa de galardão. Nosso compromisso é avaliado por um justo juiz que nos promete valorizar cada esforço e cada sacrifício e recompensar tanto aqui quanto na eternidade. Isso é impressionante! Que Deus o nosso! Já deu a vida pela nossa salvação, já garantiu uma presença constante a abençoadora, já encheu nossa vida de direcção e propósito e ainda nos promete galardoar o compromisso que já era mais do que obrigatório. Isso também é graça pura! Mais um motivo maravilhoso e entusiasmante para o compromisso com o Senhor!

Amor de T-Shirt

 
Já há algum tempo que virou moda expressar amor por meio do uso de T-Shirts, as camisolas de manga curta e sem gola que os jovens tanto apreciam. Esse amor é, por regra, expresso numa expressão formada pelo eu em Inglês ou seja, "I", seguido de um coração que significa Love ou Amo e depois o nome de um lugar. Assim temos os dizeres: I Love Paris, I Love New York, I Love Rome e outros mais. Quase qualquer destino turístico que se preze tem que ter uma dessas T-shirts à venda e os turistas amam esse souvenir barato e sugestivo.

  Pensando nesse suposto amor podemos chegar a algumas conclusões rápidas. Primeiro de tudo é um amor impessoal. Raramente vemos camisas com o nome de pessoas, mas apenas de lugares. Não é que não se possa amar lugares mas é certamente um outro tipo de amor, um amor impessoal. Por ser impessoal esse amor é um amor sem compromisso, sem aliança, sem cobrança, sem avaliação. Roma não vai cobrar minha fidelidade, Paris não vai avaliar minha dedicação, Lisboa não me pedirá mais tempo e o Rio de janeiro não se preocupará se amanhã declarar meu amor à outra cidade. Esse tipo de amor sem compromisso tem lugar para tudo. Cabe sempre mais um. Mas também o retorno é mínimo, porque muito raramente uma cidade expressa seu amor por alguém.

O amor de T-Shirt é exibicionista. O interesse principal é mostrar aos outros que estive lá. Que tenho recursos e bom gosto para escolher este destino. É claro que posso até usar a camisa e não conhecer o local. Ninguém na verdade pergunta ou investiga. Esse amor é de fachada mesmo. Parece muito com as capas de revista de fofoca onde os atores e personalidades da moda aparecem "apaixonados" por pessoas diferentes a cada temporada para dar mais "valor" à sua figura.

 Amor de T-Shirt é egoísta. Afinal ele simboliza minha visita a um lugar. Em relação a lugares posso tirar o que quiser, desfrutar o que puder e quando puder e quiser. Não há limite a não ser minha capacidade de tirar e não há hora ou data marcada. É chegar e me servir. Aproveitar ao máximo, as praias do Rio, os museus de Londres, as antiguidades de Roma, o clima romântico de Paris. É um amor bastante egocêntrico, onde só conto eu e minhas vontades.

 Amor de T-Shirt é temporário como a própria camisa. Essas camisas baratas que se compram em loja de souvenir chinesa têm um tecido de baixa qualidade que depois de meia dúzia de lavagens já perdeu todo o valor e serve só para usar em casa em dias de preguiça. Esse amor declarado tão orgulhosamente só dura até o próximo destino e outra T-shirt mais nova, mais interessante ou talvez de um destino mais exótico.

 O triste disso tudo não são as camisas. São o que elas sinalizam. Falam de um tipo de amor moderno. Amor sem compromisso, sem entrega, sem avaliação, egoísta, exibicionista e temporário. Que o nosso amor seja eterno enquanto durar… como dizia o poeta. Este amor é o oposto do que a Bíblia anuncia.

 O amor bíblico é sacrificial, paciente, comprometido, amor que dura, que sofre, que persevera, que vence, que dá. O mundo precisa muito de amor. Precisa desesperadamente de amor. As pessoas à nossa volta o buscam e precisam dele, mas não de amor de T-Shirt. Vamos pensar nisso e olhar mais de perto para nossos amores declarados e a verdade dessas declarações.

Família de Deus


 
Paulo ensinou os crentes de Éfeso que em Cristo nós somos “família de Deus” Efésios 2.19. Por isso mesmo nos chamamos de irmãos e irmãs. De notar que isso se perdeu na igreja de Roma passando a ser usado apenas nas ordens religiosas mas foi recuperado pela Reforma Protestante para toda a igreja.

Ora família tem algumas características interessantes. Por exemplo, somos parte de uma família, todo o tempo. Sou da minha família todos os dias, o dia inteiro. Não há momentos em que sou e outros em que não sou da minha família. Sou da família quer esteja perto ou longe, quer esteja presente ou ausente, que esteja contente ou triste, doente ou de saúde. Como irmãos em Cristo somos da família de Deus e isso implica irmandade constante e contínua e não somente um laço semanal de ligação.

Família não é uma estrutura, não é uma organização, não é um evento, não é um programa, não é uma casa. Família é relacionamento. Família é convívio, entreajuda, proximidade de características e vivência. Na Igreja também. Não somos instituição ou prédio, ou cultos ou programas. Somos gente. Gente salva que se relaciona com base na graça e no Amor de Deus.

Família não é uma questão de perfeição. Minha família não precisa ser perfeita para ser minha família. Ela tem seus defeitos mas isso não me afasta dela até porque parte desses defeitos provavelmente são meus. Se minha família tem falhas eu a defendo. Se tem problemas eu a ajudo. Se tem crises eu me junto a ela para superar. E na Igreja somos família de Deus. Minha Igreja como tal pode ter eventualmente coisas que eu não gosto, mas não a abandono. Não se abandona família muito menos nas horas de luta e necessidade. É nessas horas que a família mais se junta e mostra amor.

Família tem heranças e lideranças. Há pais e mães, há avôs e avós, que são os líderes por sua experiência e vida. Na família cada um sabe seu lugar, os mais novos aprendem com os mais velhos, os mais experientes dão conselhos e os mais novos herdam os valores e a vida.
Na Igreja somos todos filhos do mesmo Pai Celeste que em sua bondade e nos merecimentos de Jesus a todos adotou. Como família ouvimos e seguimos o nosso Pai e Senhor. Herdamos as glórias que Cristo ganhou para nós. Ajudamos os mais novos a crescer e deixamos a herança da boa-fé e da maturidade na obra do Senhor. Que bênção ter esta família! Que bênção pertencer a Igreja de Jesus.

O Reino de Deus aos olhos de Jesus

"Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas" Mateus 6:33.
 
Um dos textos mais conhecidos do NT e das afirmações de Jesus. Talvez um dos mais usados e com razão. Surge num contexto sempre moderno e atual. Jesus fala sobre ansiedade, estresse, pressões da vida diária, posse de bens materiais. Fala sobre a atitude diante da vida e chama a uma prioridade diferente. Mas o que queria Ele dizer? O que significava buscar o reino de Deus e a sua justiça? O que entenderiam seus ouvintes da época ao ouvi-lo falar do Reino de Deus? Entender isso será provavelmente uma das coisas mais importantes para quem deseja seguir a Cristo. Então tentemos entendê-lo.

No tempo de Jesus a expressão "reino de Deus" ou "reino dos céus" era bastante comum. Muito mais que nos nossos dias. Mas o que significava? Certamente coisas diferentes a pessoas diferentes, como até hoje. Podemos identificar pelo menos três principais tendências na palestina do I século:

1)    Reino de Deus Imperial

Havia os que entendiam que significava um domínio físico e efetivo de Deus na terra. Uma dominação material. O Senhor daria vitória a seu povo, Israel e lhe devolveria a dominação como nos tempos de Davi e Salomão e isso representaria o reino de Deus numa época de paz e prosperidade nunca vista. É claro que Deus não viria pessoalmente reinar e então se acreditava nessa visão que seria um governante humano a ocupar essa posição.

Essa era a visão de Messias da época. Era aceita pela maioria da população, pelos fariseus, partido importante da época e pelos zelotes revolucionários. Seria, em última análise, a visão que levaria às revoltas judaicas que acabariam por levar à destruição de Jerusalém e à diáspora judaica pelo mundo.

Essa visão seria repetida na história. O reino de Jerusalém, fundado pelos cruzados, era chamado de Reino de Deus. Os reis europeus, muitas vezes, se apresentavam como representantes de Deus, considerando-se príncipes designados diretamente pelo céu e por isso autorizados a governar.

2) Reino de Deus Fora do Mundo

Uma segunda visão seria tida pelos essénios, grupo que pode ser visto como precursor dos mosteiros e conventos cristãos. Criam que a sociedade estava toda pervertida e para viver a vida certa, o reino de Deus, era preciso fugir do mundo e criar comunidades santas. Eles viviam em mosteiros na zona do mar morto sob estrita lei que era exigente ao máximo. Sua visão era escatológica na expectativa da destruição do mundo e início de uma nova era. Essa visão radical era tida por poucos mas muito respeitada.

3) Reino de Deus Conformista

Uma terceira perspetival dizia que já tinham esperado o messias tempo demais. O Senhor não iria dar a Israel o governo. Já o dera a outros povos. Havia que aceitar isso. Viver o reino de Deus seria reconhecê-lo na situação atual e fazer o melhor proveito disso. Esses eram os conformistas que tentavam se adaptar a cultura dominante e viver. Seriam os publicanos mas também os saduceus de modo diferente e a casta sacerdotal dominante que fazia do templo sua fonte de rendimento. Para eles o reino de Deus estava ali mesmo nos proveitos que tinham em tentar viver a vida na presente situação.

4) Reino de Deus no Porvir

Mais tarde, já na era cristã, muitos interpretaram essa questão como o mundo do porvir. Aqui temos aflições mas um dia deixaremos esta realidade e iremos viver noutra. Lá teremos plena paz e viveremos fora do perigo do mal e do pecado. Lá será então total a dominação do Senhor e viveremos uma verdade diferente. Lá será o reino de Deus que aqui na terra não era possível conhecer.
 
5) A visão de Jesus sobre o Reino

O problema é que Jesus não tinha nenhuma dessas posições. Ele sabia que o messias não seria um guerreiro santo que devolveria o poder a Israel. Rejeitava essa visão. Mas não entendia que se devia fugir da vida e por isso não levara seus discípulos para mosteiros mas andava nas vilas e aldeias e era acusado de comer e beber com o povo. Não os queria fora do mundo, mas brilhando nele.

Isso não tornava-o conformista, pois não aceitava a governação vigente como correta. Foi ele quem atacou a forma de os sacerdotes agirem inclusive expulsando os vendilhões do templo aparentemente sem ter recebido autoridade para isso. Tampouco Jesus defendeu que o Reino de Deus seria só para depois da morte, em outra vida, porque falava aos discípulos exatamente das questões diárias que deviam ser enfrentadas. O que era então o reino de Deus para Ele?

Jesus defendia o plano de Deus eterno. O homem, criado para governar com Deus na terra, fora criado puro e sem pecado. Aceitara um golpe de estado que deixara o maligno no poder. Deus então encetara um plano de recuperação, renovação da humanidade e da própria criação. Esse plano passava por formar uma comunidade nova de homens e mulheres salvos do poder do mal, vivos para Deus e no meio de quem, em cujas vidas, Deus pudesse reinar e mostrar o que seria seu domínio no porvir.

Era essa a posição de Jesus. O reino viria um dia em forma física, mas começava já. Seria perfeito um dia, mas não esperava pela consumação dos séculos. Não dizia respeito apenas a uns poucos religiosos que viviam em separação de tudo, mas dizia respeito a todo discípulo de Jesus em meio ao cotidiano. Dizia respeito a não se permitir dominar pelas ansiedades de quem não conhecia o plano de Deus, não conhecia a realidade maior e podia então viver pelo plano maior. O discípulo entende-se parte dele. Baseando sua vida nas palavras e ensinamentos do mestre e salvador.

Jesus exemplificou exatamente isso em sua vida e em sua comunidade de discípulos. Uma vida em prol de outros. De serviço, de festa e alegria, de funerais e tristeza, de companheirismo e amizade. Era vida no sentido maior.

No fim de sua mensagem em Mateus 7: 24 a 27 deixava outra pista na parábola da casa construída sobre a rocha. Em geral vemos essa história como falando de vidas e podemos entendê-la assim. Mas Jesus falava de contrastes presentes. A casa em construção que todo Israel acompanhava era o templo de Jerusalém. Era o sinal maior das aspirações judaicas. Mas era construído por visões erradas do que seria o reino de Deus e acabaria por ruir. Seria a comunidade de Jesus, edificada em suas palavras que viria a triunfar. A profecia acertou em cheio. O judaísmo decresceu e se manteve marginal na história do mundo enquanto o Cristianismo se tornou a maior fé do planeta. Era a casa edificada sobre a rocha - Jesus.

O que isso significa para nós? Vamos parar de trabalhar? Vamos olhar o céu a espera que Jesus venha? Vamos chorar aqui e aspirar pelo céu? Não. Jesus nos chama a ser parte de sua renovação da humanidade. Parte do plano eterno de Deus. Vencendo a preocupação com estas coisas que dominam as mentes de quem não vê o quadro maior. Podemos viver e devemos viver. Trabalho, família, amizade, lazer, festas e funerais. Fizeram parte da vida de Jesus e fazem da nossa. Mas sempre com uma visão maior. Somos salvos pela graça. Somos instrumentos da graça. Somos chamados e viver para mostrar a verdade de Deus e a sua vontade. Acima dos stresses e ansiedades da vida sabendo que aqui e agora participamos da restauração da terra e vamos reinar com Jesus.

Há Lepra na casa!


Issacar ficou chocado quando chegou em casa. Sua esposa o chamou para ver uma das paredes internas da habitação. A casa parecia nova. Na verdade, não a tinham construído. Como muitos outros israelitas eles simplesmente ocuparam uma casa deixada vaga pelos cananitas que fugiam à chegada das tropas de Josué. Mas, na parede interior havia uma enorme mancha esverdeada. Issacar e sua mulher tentaram limpar a mancha, mas ela estava de volta depois de 2 dias e com aspecto ainda pior. Eles não sabiam o que fazer! Tinham vivido em tendas toda sua vida! Essa era a primeira casa que habitavam. Mas lembravam-se da lei que ouviram de Moisés. Era preciso chamar o sacerdote. Era preciso cumprir a orientação de Deus e eles o fizeram (Levítico 14:33 a 53)

Esta era a linha de ação prevista pela lei para situações como esta. O Senhor sabia que iriam encontrar esse problema e já dera instruções claras sobre como agir.
1.       Primeiramente o chefe da casa deveria declarar a praga na casa. Era sua responsabilidade. Ele era o sacerdote do lar e estar atento a essas coisas era sua função. Deus o colocara como cabeça do lar para isso

2.       O sacerdote deveria então ser chamado para examinar a casa e verificar até que ponto a praga havia-se estendido. Ele era orientado por Deus para fazer o veredito

3.       Precedia-se a limpeza inicial e esta não podia ser ligeira. Não era só esfregar as paredes era retirar as próprias pedras que formavam a parede infestada. Tudo tinha que ser retirado. Com lepra não se brincava! Nada podia ficar. As paredes seriam raspadas e o pó levado para longe e novas pedras e reboco colocado. Era trabalho duro.

4.       Havia então que apertar a vigilância porque a praga poderia voltar. A lepra era reincidente. Podia perfeitamente colocar as garras de fora a qualquer momento.

5.       Caso a praga voltasse haveria que derrubar a casa porque seria declarada imunda e imprópria para habitação e contaminaria tudo e todos que estivessem em contato com ela

6.       Caso a praga tivesse sido vencida e a casa pudesse ser declarada limpa haveria que aplicar sangue de expiação sobre ela porque era Deus que a limpava e a limpeza equivalia a salvação que só existe com derramamento de sangue.

Talvez possamos pensar que este texto da lei nada tem a ver conosco. Afinal temos hoje materiais de limpeza mais sofisticados que os dos israelitas e não derrubamos casas só porque aparecem manchas de bolor nas paredes. Mas devemos lembrar que as palavras do Senhor têm sempre aplicação em nossas vidas e podemos associar este texto com as casas e famílias actuais. Vejamos então a aplicação:
(os links em destaque aprofundam o tema)
1.       Assim como era necessário avaliar o estado das casas à procura de sinais de praga, também nós somos responsáveis por notar o surgimento de sinais de lepra em nosso lar. Se um filho tem febre ou aparece com uma tosse persistente isso nos preocupa. Não damos de ombro e simplesmente à espera que passe. Se aparecer sinais de rachadura na estrutura da casa ou sinais de que o apartamento de cima está drenando água para o nosso teto não resmungamos apenas e voltamos às nossas vidas. Então, porque será que, quando aparecem sinais de lepra espiritual em nosso lar, nada fazemos? Há, por vezes, pragas evidentes na casa e os responsáveis (pai e mãe) parecem não notar ou preferem fazer de conta que não viram. Somos responsáveis por isso!

2.       O exame da praga deve ser detalhado e cuidadoso como a lei sugeria. Não pode ser superficial e rápido. É algo sério que devemos ter cuidado em acompanhar. Eis alguns sinais de lepra na casa:






·         Dependência de substâncias (medicação, químicos)

·         Objetos consagrados ao maligno


3.       Há que tirar as pedras que estão contaminadas de modo radical. Medidas superficiais não levarão a limpeza. Uma simples passagem de paninho húmido não dá. Coisas que ameaçam a vida espiritual do lar podem levar a sua declaração como imunda. Queremos perder nossos filhos? Desejamos vê-los nos caminhos do mal? O que é mal é mal e não podemos confraternizar com o maligno. Devemos abandonar e cortar tudo que está alimentando a praga em casa. Toda a família deve estar envolvida. As coisas devem ser entendidas e explicadas de modo a que façam sentido.

4.       Atenção ao ressurgimento da praga. O mal tem uma capacidade de reincidência impressionante. Depois de o reconhecer e tirar não podemos baixar a guarda. A eterna vigilância é o preço da liberdade. A maldade do inimigo é tremenda e nossas famílias são o seu alvo preferido. Ele sempre espera que baixemos a guarda para atacar.

5.       A aplicação do sangue expiatório é fundamental. Não vamos sacrificar animais porque vivemos na era da igreja onde o sacrifício já foi feito de uma vez por todas. Mas temos que aprender a aplicar o sangue de Jesus em nossas famílias. Isso se faz de muitas maneiras, por exemplo mantendo as tradições familiares e costumes saudáveis em família.

6.       Não deixede trabalhar para a salvação de cada elemento da família. Isso é trabalho ativo. Não deixe que os anos passem até seus filhos crescerem. Há alguns pais modernos que não levam seus filhos à igreja ou ao estudo bíblico porque pensam que é errado “obriga-los” e quando crescerem escolherão o melhor, isto é temerário e perigoso. Você os leva ao médico? Leva-os para fazer vacinação? Inscreve-os na escola? Porque? Porque não esperar que cresçam para escolher se querem isso ou não? Porque quer o melhor para eles e sabe que isto é o melhor! Ora o que há de melhor que Jesus? O que há de melhor que sua igreja em termos de comunidade? Não deixe para mais tarde. Ganhe-os para Jesus quando são pequenos e tudo será bem mais fácil! Lembre-se que o inimigo tem muito trabalho para os conquistar desde pequenos.
Assim como fazemos a revisão do carro, a manutenção do computador ou a limpeza periódica da casa, também a família precisa de uma avaliação constante. Os sinais nem sequer são tão difíceis de ver, mas precisamos procurá-los. Não tenhamos medo de enfrentá-los. Temos um aliado fortíssimo em nossa luta contra o mal e na salvação de nossas famílias – o Criador da família. Ele é nosso Senhor e o Senhor de nossas famílias também.

Ganhar a Vida


Certa feita fiz uma visita a um casal de missionários ingleses que moravam no sul do Senegal. Tínhamos inaugurado nossa rádio em Bafatá na Guiné-Bissau e queríamos cassetes com mensagens ou textos bíblicos na língua Fula e aqueles missionários trabalhavam na tradução da Bíblia para o Fula. Os dias que passei na companhia deles foi uma lição de humildade e do significado do que significava “perder a vida” para o serviço do Senhor.
 
Aquele casal já estava trabalhando a 14 anos com a língua Fula. Tinham terminado a tradução do novo testamento no ano anterior e logo avançado para o velho testamento. Sua formação era excepcional. Ambos eram licenciados em letras com mestrado e doutorado em tradução. Ambos tinham também licenciatura em teologia. Cada um deles passara cerca de 15 anos estudando para poder fazer o trabalho que faziam. Tinham tido oportunidade de leccionar em faculdades na Inglaterra. Mas estavam ali, numa cidade ao sul do deserto do Saara, sem que seus nomes fossem conhecidos, sem que houvesse reconhecimento de sua obra, apenas preocupados em ser fiéis ao serviço que Deus lhes dera.
Quando mencionei as oportunidades que tinham deixado para trás eles sorriram. Em suas mentes não podia haver nada mais grandioso e significativo de que traduzir a Palavra eterna de Deus para uma língua que ainda não a tinha. Sua visão era de eternidade. Estavam realmente muito pouco interessados nos reconhecimentos deste mundo ou nas honrarias da terra. Tinham, no entanto, a plena consciência de que serviam ao Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores.
O Senhor Jesus disse: “Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” Mateus 10:39. Aos olhos do mundo deixar de dar aulas numa faculdade famosa e receber um bom salário para ir traduzir a Bíblia para uma língua pouco conhecida é loucura. É desperdiçar a vida. Mas era exactamente sobre isso que o Senhor falava. Ele nos falava sobre uma forma diferente de ver avida, de avaliar as coisas. Aquele que recebeu a salvação e passou a ter a presença do Espirito Santo em sua vida deve desenvolver outra perspectiva sobre a vida, seu valor, suas prioridades e sucessos. Quando temos o céu em mente e o serviço ao mestre em primeiro lugar pode ser que aos olhos do mundo estejamos perdendo a vida, mas no fundo essa é a única maneira de a ganhar.

Esperança


Jurgen era um jovem cheio de vida e planos como seria de esperar que qualquer jovem aos 18 anos. Inclinava-se para o estudo da matemática e idolatrava Einstein. Ia fazer seus exames de admissão a faculdade quando foi admitido... ao exército. O ano era 1944 e Jurgen era um alemão de Hamburgo no fragor da segunda grande guerra. Foi incorporado ao exército alemão e colocado no front já na floresta alemã onde se rendeu a tropas britânicas.

Jurgen foi enviado como prisioneiro de guerra para um campo na Bélgica onde a verdade sobre a guerra foi vomitada sobre os soldados alemães e fotos dos campos de concentração de Auchwitz e Buchenwald eram colocadas em suas barracas para que sentissem o peso do mal feito pelos nazis. O jovem que fora criado sem qualquer principio cristão e cujo avô era um conhecido maçon afundou-se no desespero e no remorso. Depois de um tempo foi levado para um outro campo na Escócia. A boa receção dos locais o surpreendeu e um NT dado pelo capelão americano o despertou para a fé. Por fim, seu último campo na Inglaterra o colocou em contato com jovens cristãos e Jurgen encontrou a fé voltando a casa no firme propósito de estudar teologia. Seu contributo para a área teológica não poderia estar mais distante de seu inicio na fé. É conhecido por sua obra que tem como título, Teologia da Esperança. Estou falando de Jurgen Moltman.

O dicionário nos diz que Esperança é uma disposição de espirito que nos leva a esperar algo que se vai realizar. Esperança tem como sinónimos expectativa e confiança. Trata-se de uma das mais básicas disposições humanas e quando falta leva a desespero e muitas vezes suicídio ou atos de loucura. Como é possível que em meio ao horror de uma guerra e as angústias de uma prisão um jovem venha a desenvolver justamente essa disposição de espirito e não outra? Como pode alguém suportar situações como privação e crise mantendo a cabeça levantada e confiante? Provavelmente esperança é a resposta. Algumas pessoas tem expectativa  e confiança que as coisas irão de certo modo , outras não. A esperança é fundamental para a sanidade neste e em qualquer tempo.

O Cristão tem sua esperança em Deus. Confia na sua soberania, em sua justiça e amor e que no futuro (mesmo que desconhecido) o Senhor vai fazer tudo certo? Mas haverá base para essa esperança? Onde se baseia a esperança? Como podemos saber se é válida ou não? Olhando para as evidências, para a história. Um dos episódios da vida de um dos maiores profetas ajuda-nos a entender melhor isso.

Elias tinha sido usado poderosamente por Deus para desafiar um rei e uma rainha maus e perversos, do tipo que parecem saídos de um conto de fadas. Acabe e Jezabel entram na história como símbolos de maldade e governo despótico. Elias é um homem simples e aparentemente rude mas cheio da presença de Deus que os desafia e por fim obtém uma vitória retumbante contra os falsos profetas de Baal no monte Carmelo. A vitória descrita em I Reis 18 é uma das mais extraordinárias da Bíblia. E o que sucede então? Como reage o homem de Deus? Entra em profunda depressão quando percebe que sua vitória não levou a queda de Jezabel, não mudou o coração do povo e sua própria vida está em risco máximo. A crise desta vez é forte demais e ele foge e pede para morrer (I Reis 19:4). O Tratamento inicial do Senhor é descanso e sossego. Resolver questões a quente não funciona. Mas depois de dar a Elias 40 dias de repouso e solidão o Senhor vai tratar de o reanimar e reacender a esperança que se fora. E como foi que o Senhor fez isso? Como é que deu a Elias um retorno a forças para continuar? Vejamos o texto e aprendamos com o Criador que melhor conhece o funcionamento do coração humano (I Reis 19: 8 a 21).

Ele está Presente

A primeira coisa que o Senhor faz Elias perceber é sua presença. No entanto este texto é tão extraordinário porque nos mostra que essa presença nem sempre acontece do modo como pensaríamos de Deus. Temos a tendência de só entender a presença do Senhor nos grandes acontecimentos. Quando o mar se abre, quando o milagre acontece, então entendemos que o Senhor está presente, mas quando não há barulho... tendemos a achar que Ele se ausentou. Mas nesta passagem não aparece o Senhor no vento ciclópico, nem no terremoto tremendo, nem no fogo consumidor, mas numa brisa suave e delicada. Que extraordinário! Que mensagem confortante. Ele está presente na brisa que nos afaga mesmo quando não o vemos.

Avalia tua Situação

O Senhor chama Elias a uma autoavaliação. Há razões reais para esse desespero? Há razão para tanta angústia e duvida? Várias vezes na Bíblia o Senhor faz isso. Principiando no Eden quando pergunta a Adão: Onde estás? O Senhor nos chama a parar de vez em quando para olhar nossas vidas e perceber se há realmente motivos para nos afundarmos em autocomiseração. A autopiedade é um inimigo terrível. Leva-nos a pensar que somos as criaturas mais miseráveis do planeta. Isso não só é falso como é uma posição que não nos permite a reação. No caso de Elias (como na maioria) a simples avaliação não chegou a ajudar. Ele reiterou o que já dissera antes.

Volta pelo teu Caminho

O Senhor parte então para o restaurar da esperança e da vida em Elias. Volta pelo teu caminho, é a ordem. E porque? Duas razões principais. O voltar pelo mesmo caminho era uma forma de ajudar Elias a recordar. O caminho que ele percorrera era cheio de memórias da peregrinação do povo de Israel antes de entrar em Canaã. Ao regressar por esse caminho Elias iria recordar como o Senhor agira na história de seu povo suportando, abençoando, dando vitória e por fim uma nova terra. Volta para recordar como Deus agiu no passado e abençoou o povo.

Mas volta pelo teu caminho era também uma forma de mostrar que Deus agira na vida dele, Elias. Ao passar novamente pelos mesmos lugares ele lembraria da oração para que não chovesse, dos confrontos com o rei, do suprimento de alimento pelos corvos, da farinha da viúva, da ressurreição do filho da viúva, da vitória no Carmelo. O regresso pelo mesmo caminho seria uma forma de levar Elias e ver como Deus já agira de modo tão maravilhoso em sua vida e continuaria a fazê-lo. A base da esperança está exatamente no que o Senhor já fez e que nos leva a confiar em suas promessas para o futuro.
Tens ainda o que Fazer

O Senhor mostra então a Elias que ele ainda tinha o que fazer nesta vida. O Senhor tem propósitos para nós, planos para nós. Há coisas que Deus deseja fazer que só nós podemos fazer. Ele decidiu que assim seria. Se nós não fizermos talvez Ele chame outras pessoas, mas é também possível que ninguém o faça. Que responsabilidade, mas também que privilégio. Que riqueza. Pensar que o Senhor criador do céu e terra tem planos para mim, deseja-me para suas obras. Saber isso também me ajuda a crescer na esperança. O que o Senhor tem para minha vida afeta a de outros e vice-versa. Que riqueza para mim e para os outros. Que alegria para minha expectativa de vida.

Não estás Só

Se há uma coisa que nos deixa sem força é a sensação de estarmos sós. Elias se sentia só e sem qualquer apoio. Ele julgava que só ele sobrara de todos os que adoravam a Deus. Só ele era justo. Só ele sofria daquele modo. O Senhor o ajuda a perceber que não está sozinho. Há muitos outros que partilham a fé, a luta, a dor, o sofrimento mas também a esperança. Uma esperança já é algo bom, uma esperança partilhada é algo contagioso e que pode mudar a realidade a nossa volta.
No meio da guerra e da miséria Moltman entendeu a esperança que temos no Senhor. A história do seu povo, a história em geral, a história de pessoas a nossa volta, a história da igreja e a nossa própria história servem para lembrar a base dessa esperança. Minha esperança está no Senhor que fez o Céu e a Terra e que tem se provado vez após vez presente, atuante e benevolente. Volta pelo teu caminho, descobre o que ainda tens a fazer, não estás só, o Senhor e uma multidão de fiéis te acompanha. Louvado seja o Senhor!
 

Amor: Substantivo, Adjetivo ou Verbo?


As aulas de gramática não eram minhas favoritas. Pareciam-me uma perda de tempo. Afinal nós já sabíamos falar e escrever e uma aula para nos ensinar a fazer isso parecia meio sem propósito. É evidente que a razão principal era outra. Gramática era trabalho duro. Muitas regras a decorar, definições, conjugações… isso sim era a razão para não gostar das aulas. A par de matemática eram as aulas menos apetecíveis. Mas na verdade eram importantes e úteis. Não entendia nessa altura mas gramática tinha a ver com a qualidade de comunicação. Falar e escrever bem eram atributos que nos acompanhariam toda a nossa vida e eram essenciais ao nosso contato com as outras pessoas.

A gramática também nos ajuda na vida Cristã. Muitas das importantes descobertas sobre a vida que devemos viver em Cristo vem pela analise das palavras do texto sagrado. Entender essas palavras e sua categoria gramatical e sua utilização pode fazer toda diferença em nossa aplicação. E é de aplicação que se trata a vida em Cristo porque saber sem fazer não tem qualquer utilidade a não ser nos colocar na fila perigosa dos que caminham em direcção a hipocrisia e falsidade.

Amor é uma dessas palavras. Como se deteriorou. A Bíblia nos fala de amor eterno, amor sofredor, amor altruísta e nós hoje falamos de amor para nos referirmos a algo que é passageiro, profundamente egoísta, abusador e maltratante. Deve haver engano em algum lugar. Alguém, em algum lugar perdeu a noção do que é amor e passou a usar a palavra de modo errado. Usemos então a gramática. Lembremos o que Jesus nos disse sobre o amor e vejamos se a gramática pode nos ajudar.

João 15:12 amarmos uns aos outros na igreja (amar os irmãos em Cristo)

Mateus 22: 39 amar o próximo (meu vizinho, meu colega de trabalho)

Mateus 5: 44 amai os vossos inimigos (meus adversários, que me fazem mal)

Uma progressão difícil. SE temos por vezes dificuldade em amar aos nossos irmãos na igreja onde há em teoria a mesma fé e a mesma pratica como amarei meus adversários? Do que Jesus estava falando quando deu esses mandamentos? Vejamos sem a gramática nos ajuda. Olhemos para as diferentes possibilidades da palavra e pensemos em soluções.

Substantivo: palavra que designa ser, coisa, estado, sentimento, substancia ou processo. Será o amor que Jesus fala substantivo? Ora um substantivo é algo sobre o que podemos conversar, discutir. Sobre ele fazemos poemas, discursos, trabalhos científicos. O substantivo é uma designação de algo que por regra podemos observar fora de nós. Pode ser usado ou descartado. Cadeira, substantivo que designa um objecto onde me posso sentar ou apoiar os pés para amarrar os sapatos ou subir em cima para apanhar algo no armário de cima e que posso deitar fora porque já não preciso mais pois tenho outra mais nova, mais forte, mais bonita. Amor substantivo, algo que posso sentir por alguém ou nutrir por alguém enquanto durar… O amor substantivo é realmente pouco duradouro. Não é realmente parte de mim pois posso descartá-lo. Amor substantivo é como um objecto que posso usar e deitar fora, que ponho aqui ou acolá, que carrego ou deito fora, que utilizo e reutilizo, reciclo e altero, algo que é passível de manipulação constante. É algo sobre o que discutimos e debatemos. Falamos dele como algo exterior e passível de discussão. Discorremos sobre ele e depois já não mais. Não me parece que seja sobre isso que Jesus falava.

Adjectivo: palavra que serve para se juntar ao substantivo e o classificar ou qualificar. O amor pode ser um adjectivo. Dizemos de alguém: é um amor. Trata-se de uma utilização mais comum para bebes ou para atitudes meio lamechas que assistimos ocasionalmente. Alguém diz algo bonito ou faz um gesto carinhoso e dizemos: é um amor. Falamos de alguém a quem queremos elogiar e dizemos: é um amor. Classificamos com amor. Mas essa utilização além de rara é totalmente subjectiva. Aquilo que pode ser um amor para uma pessoa pode ser absolutamente sem graça para outra. Algo que alguém vê como precioso pode ser totalmente sem sentido para outra pessoa. Por exemplo, nos países de leste é comum se darem flores a homens e seria considerado muito correto e mesmo um amor. Já em Portugal, no nosso mundo latino, macho não recebe flores e se receber é capaz de comentar de muitas formas mas não dirá que foi um amor. Adjectivar é um ato pessoal e subjectivo e creio que Jesus falava de amor como algo inequívoco, sem sombra de dúvida, universal e aplicável a todas as pessoas em todos os lugares. O amor do qual Jesus falava não era amor adjectivo.

Verbo: palavra que afirma existência de uma acção atribuída a um sujeito; exprime um fato e localiza-o no tempo ligado a um sujeito. Verbo é acção. A Bíblia diz que Deus amou tanto que deu… amor ligado a um ato, a uma acção, a um fazer. Não é algo que se pode discutir ou debater. Ou existe ou não. Um verbo por ser acção não é ambíguo, não é subjectivo, não é passível de má interpretação. Ou fez ou não fez, ou deu ou não deu, ou aconteceu ou não aconteceu. Na Palavra, amor para Deus sempre foi verbo. Ele amou, por isso criou, delegou, ajudou, salvou, livrou, protegeu, abençoou. Quando Paulo falou sobre amor falou sobre algo prático, definiu acções, orientou actos.

Na vida Cristã somos chamados a amar um amor verbo. Pode ser sentimento, mas não é só sentimento, pode ser qualidade, mas é mais que isso. Trata-se de agir. De fazer o melhor para outro. Esse tipo de amor pode ser dado e demonstrado mesmo por um inimigo a quem não aprecio e de quem não tenho sentimentos muito bons. Posso amá-lo biblicamente mesmo assim. E nos atos de amor prático meu coração será transformado e talvez até mesmo o dele. Jesus deixou isso bem claro, em sua passagem sobre o fazer aos mais pequeninos em Mateus 25:34 a 40. Este é amor verbo. Este é o amor do Pai. Este é o amor que o Senhor espera de nós.

A Era dos Especialistas

O senhor João caiu na rua. Não sabe dizer se foi uma tontura, uma distração ou simplesmente um tropeço. Caiu sobre o braço e foi ao seu médico de família porque doía e estava escuro na região da pancada. O médico disse-lhe que como clinico geral devia mandá-lo a um especialista. Devia fazer radiografia e ecografia das partes moles da região. A radiografia foi feita sem dificuldade já a ecografia foi complicada. Radiologista que fizesse eco das partes moles do braço era difícil de achar. Tinha que ser um especialista. Por fim o encontrou, fez o exame e levou tudo ao ortopedista.
O ortopedista disse que não havia nada partido, mas devia ir com a ecografia a um reumatologista, um especialista em músculos e tendões. No reumatologista ouviu que havia uma lesão muscular que exigia fisioterapia. Logo foi enviado a outro especialista. Mas o fisioterapeuta ao ler a prescrição do reumatologista disse que precisava ir a outro fisioterapeuta que fosse especialista naquele tipo de tratamento. Por fim o Sr. João já cansado chegou ao 6º especialista de seu percurso ouviu que não era nada de grave e que o médico de família podia perfeitamente ter tratado de tudo. Conclusão: é melhor não cair mais!
Vivemos numa era de especialistas. Hoje queremos sempre ouvir os melhores. Entrevistas na TV ou nos jornais, são feitas com os peritos na matéria. Temos gente que se especializa em tudo. Se antigamente fazer doutorado era considerado o máximo, hoje o especialista tem um ou vários pós doutorados, e a cada avanço sabe mais de cada vez menos. Essa é a nossa era, a era dos especialistas, onde sabemos cada vez mais de cada vez menos.

É claro que há um lado positivo nisso. Todos queremos os melhores. Quero a melhor opinião, a melhor explicação, o maior conhecedor. Seja a minha saúde, o meu investimento, a minha aula ou curso, quero receber de quem realmente conhece e para isso busco os melhores especialistas. No entanto, a segurança que era suposto encontrar nem sempre aparece no fim dessa estrada. A especialização nunca responderá todas as questões e aqui chego a duas conclusões sobre esta era em que vivemos e que nos deve afectar a todos.

Primeiro precisamos entender que o fato de haver especialistas não significa que entenderemos tudo. Partimos do princípio que o perito tem sempre uma explicação e a verdade é que a vida é demasiado complexa para que tudo se entenda ou se explique. Há um mistério implícito em muitas coisas da vida e não vamos conseguir vencê-lo por mais que procuremos entendidos na matéria. Nossa sociedade acreditou no avanço da tecnologia como uma promessa de que tudo seria explicado. Mas a ciência trabalha essencialmente com teorias. Umas são provadas, outras nem tanto. Umas são provadas no laboratório para depois falhar na vida. Outras parecem erradas e depois se confirmam.
Na era dos especialistas vamos deixando a fé cada vez mais para segundo plano. Parece que a fé só serve para o que os especialistas não explicam. Nesse caso, a medida que as explicações aumentam diminui a área de acção da fé. Mas na verdade não temos todas as explicações e nunca teremos. A era dos especialistas criou uma certa dependência da explicação. Quando não temos uma agenda bem definida ficamos perdidos. Mas o cristão não vive pela vista. Pode até procurar a explicação mas não precisa depender dela. Sabe que o mistério da vida está nas mãos de um Pai de amor que é Deus soberano.

Em segundo lugar a era dos especialistas tem levado a um jogo de empurra -empurra. Como a exigência é cada vez maior e as cobranças também, o especialista se livra da responsabilidade passando a bola a alguém que supostamente sabe mais que ele. Ninguém se satisfaz com o generalista e ele mesmo sacode a água do capote passando a bola ao “especialista”. Com isso temos cada vez menos gente assumindo responsabilidade. Ninguém quer pagar o preço de dizer as coisas como são ou assumir os riscos de as nem sempre tudo correr bem. Mas na prática todos podemos e devemos assumir responsabilidades. Todos podemos e devemos ajudar. Posso não ser perito mas se calhar sou mais humano, mais caloroso, mais disponível e vou acabar ajudando mais que o famoso perito.
Não estou preconizando a ausência de especialistas, mas a disponibilidade do auxílio. Não usemos o especialista como uma fuga da responsabilidade do que chega a minhas mãos. Posso e devo auxiliar, ser útil, ser bênção, mesmo que não seja o maior perito na matéria a nível mundial.

Igreja: Deixando a Utopia Ingénua!


A cena se repete diariamente no mundo inteiro. Alguém procura um pastor ou líder espiritual para reclamar da sua igreja na busca de algo novo. “Preciso sair daquela igreja!” Diz o cristão magoado, “há muita coisa errada por lá!”. E muitas das queixas apresentadas serão legítimas e bem substanciadas. A afirmação parece cair como uma bomba: há pecado na igreja! E o mais triste e talvez até assustador é que é verdade!

Há muita gente ofendida e zangada com a Igreja. Ela é acusada de se ter tornado uma instituição com tudo o que mal nos vem a mente ao pensar em institucionalização. E a verdade é que os queixosos estão certos. Há muitos problemas na Igreja! Há mesmo pecado nela. Mas, sabe de outra coisa? Não dá para ser Cristão em nenhum outro lugar a não ser na igreja.  Foi por isso que o Senhor a criou e é assim que ele planeou. Temos que crescer na maturidade, parar de agir como se Deus tivesse filhos únicos (e nós fossemos esse filho especial) e entender que a Igreja não é uma utopia ingénua plena só de virtudes e repleta só de amor.
Eugene Peterson perguntava porque é que idealizamos aquilo que o Espirito Santo não idealizou? Nas páginas do Novo Testamento, na famosa e tão desejada igreja primitiva, temos um quadro bastante real e vívido de uma igreja nada utópica, nada ideal. Havia discussões, hipocrisia, mentiras e mudanças de atitudes por interesse. Havia gente interesseira, mercenários e vilões, falsos mestres e até mesmo patifes. Mas havia poder para fazer milagres, havia manifestação da graça de Deus, havia compaixão e espirito missionário. Havia gente sendo salva e gente sendo usada por Deus. Essa é a igreja de Jesus. Um lugar de maravilhas indescritíveis em meio a tragédias, dramas e dificuldades. Uma seara de bom trigo com joio também em abundancia. Tudo porque a igreja é feita de homens e mulheres que ainda vivem num mundo dominado pelo pecado e que lutam para vencer o maligno. Idealizar a igreja como um local de santidade perfeita e amor altruísta sem mácula é criar uma utopia ingénua que não nos ajuda, não ajuda os outros, não representa a realidade e por fim não ajuda a estabelecer o reino de Deus na terra.
Quando começamos a deixar de lado a utopia ficamos mais leves e mais livres. Não estou sugerindo desmazelo e falta de cuidado com a pureza da Igreja. Não estou propondo que deixemos o pecado solto e sem disciplina. Não estou pedindo que passemos a fechar os olhos a tudo que há de errado no seio da comunidade. Não estou desejando que se persista em erros doutrinários heréticos e claramente destoantes das escrituras. Isso seria contrário a colocação bíblica de que a igreja deve se apresentar ao noivo como noiva sem mancha preparada para a festa de casamento. O que proponho é menos hipocrisia, menos escândalo fácil e menos facilidade em deixar a congregação quando a primeira coisa não acontece como eu queria. Vamos deixar de ser tão enfatuados e reconhecer a verdade: não somos perfeitos, fazemos parte da igreja, logo a igreja não será perfeita! Tenho dificuldades, luto com crises e dúvidas, faço parte da igreja, logo a igreja terá dificuldades, crises e dúvidas. Sou abençoado, ouço o Senhor, faço sua obra por vezes de modo extraordinário, faço parte da igreja, logo a igreja será também abençoada, receberá a revelação do Senhor e actuará de modo por vezes extraordinário.
Desejamos momentos de esplendor e maravilha. É natural. Creio que é uma das manifestações da saudade que temos do Éden. Saudades do paraíso. Mas sejamos também realistas nisto. Maravilhas não duram muito. Fogos-de-artifício não podem se prolongar o tempo todo. Concordo novamente com Peterson quando escreve que “todo esplendor tem vida curta”. Na nossa vida é assim. Temos os tempos da paixão, do romantismo que nos deixa sem dormir ou comer. Mas ninguém vive assim a vida toda. No seguimento saudável da paixão virá o amor, a amizade, a partilha, a cumplicidade que perdura muito mais e que de vez em quando reanimará o fogo da paixão. É assim no trabalho, nos estudos, na verdade, em tudo de nossas vidas. E porque seria diferente na Igreja? Igreja não pode ser apenas esplendor. Não aguenta ser apenas fogo-de-artifício. O cotidiano é laborioso, tem pouco glamour, mas é o que põe o pão na nossa mesa e sustenta a família.
Deixar a utopia ingénua é um presente à igreja. É encará-la com o realismo que a faz crescer e florescer. É reconhecer que minha parte é importante, mas a de outros também. Que nem sempre terei a melhor ideia, que nem sempre serei eu a mostrar a melhor solução, que nem sempre concordarei com tudo e todos, mas que juntos construiremos uma comunidade onde a graça se manifestará, a glória por vezes brilhará e a salvação alcançará a muitos.
Deixar a utopia ingénua é assumir o compromisso de lutar, de viver, de contribuir e me engajar de corpo e alma por aquilo que Jesus nos deixou na confiança que Ele ama sua igreja e a usará como luz e estandarte neste mundo. E reitero, a Igreja de Jesus é a mais extraordinária comunidade que existe na terra.

Infeção Hospitalar/ Eclesiástica


             A história é comum a qualquer consultório médico. O doente se queixa de ter apanhado uma infeção grave justamente onde deveria tratar de sua saúde. “Doutor” dizem com voz grave e ar acusador “fui lá com uma simples dor de garganta e saí com uma pneumonia bilateral” e em seguida conta o rol de tratamentos complicados e procedimentos dolorosos a que se teve de submeter para se livrar de algo que apanhou no ambiente hospitalar.
            Do ponto de vista da lógica, o ocorrido nem é tão estranho assim. Todos sabemos que o ambiente hospitalar é o mais infetado que existe. Afinal, praticamente todos que para li se dirigem levam algum tipo de problema físico e boa parte carrega germes, bactérias e vírus deixando depois o agente infecioso no ambiente. A probabilidade de um doente, já com as defesas baixas, adquirir algo nesse contexto é alta. Por isso mesmo os médicos procuram tratar os doentes ambulatoriamente e uma vez internados procuram diminuir o mais possível o tempo de permanência no hospital.
            Por outro lado, não deixa de ser um pouco estranho e até contraditório, que o local onde se vai buscar o tratamento seja a origem de tantas mazelas e por vezes mesmo de problemas que se tornam fatais. Se não posso confiar no hospital para me tratar e tenho que temer seu ambiente, fica difícil saber o que fazer quando estou doente. Isso se torna ainda mais evidente quando leio e descubro que boa parte dessas infeções hospitalares só se adquirem exatamente nesse ambiente e não as apanhamos em nenhum outro lugar.
            Ora, o que isso tem a ver com a igreja? Muito! Não é de hoje que se compara a igreja a hospitais. Assim como os hospitais existem para tratar os doentes, a igreja existe para ajudar a resolver a maior de todas as doenças, a do espirito. Assim como os hospitais tem gente preparada para lidar com os doentes a igreja deveria ser formada por ex-doentes prontos a compartilhar a cura com os que a procuram. Assim como no hospital se efetuam os tratamentos que restaurarão a saúde, na igreja se administram as bênçãos que restauram a alma e o espirito para a comunhão com Deus. Mas infelizmente as comparações não ficam por aqui. Se nos hospitais se corre o risco de adquirir infeções únicas e graves, também na igreja há riscos de se cair em pecados que fora dela seriam risco bem menor.
            São pecados próprios da realidade eclesiástica, que as pessoas de fora da igreja não experimentam mas que grassam no seu meio. Exatamente no lugar onde deveríamos lidar com nossos pecados e descobrir como nos livrar deles e de suas consequências, corremos o sério risco de adquirir pecados bem específicos e graves para nossa saúde espiritual. Pensemos em alguns dos mais comuns:
            Hipocrisia: talvez a mais comum das infeções eclesiásticas. E se é verdade que fora da igreja também vemos hipocrisia, a realidade é que a hipocrisia que vemos nela tem características únicas e é provocada exatamente pelo ambiente eclesiástico. Estamos falando daquele fingimento que ataca os crentes de modo particular. A vida dupla que se desenvolve naqueles que no domingo vestem uma roupa diferente (domingueira), falam uma língua própria (evangeliques), olham de um modo especial (altivez de santo) e se comportam como se fossem melhores que a maioria dos mundanos sem Jesus. Esse mesmo personagem gravemente infetado vive de segunda a sábado exatamente como o mundano que condena no domingo. Vê as mesmas novelas e filmes, surfa os mesmos sites pornográficos na net, usa a mesma linguagem pesada, conta as mesmas mentiras, engana igualmente nos impostos, mostra total descontrole do temperamento, reage e pensa como se Deus não existisse na prática. Mas no domingo o infetado parece sofrer de uma amnésia parcial e seletiva. Esquece de como viveu durante a semana e condena viva e brutalmente aqueles que fazem exatamente o que ele fez.
Ora essa hipocrisia é adquirida no ambiente eclesial. Trata-se de um conjunto de pressões que levam o individuo a sentir que precisa fingir para ser aceito. Talvez o primeiro caso registrado dessa infeção seja o de Ananias e Safira em Atos 6. O doente não percebe a gravidade de sua doença. Não entende que ela nega a graça de Deus e a comunhão dos santos. Desconhece que em sua progressão essa patologia leva à esterilidade espiritual e a falta total de comunhão com o Senhor.
Orgulho “Santo”: infeção próxima da anterior mas com sintomas um pouco diferentes. Trata-se da autojustificação de quem se esforça nas “coisas” de Deus, que se aplica na “obra” de modo por vezes sacrificial e que ocupa posições e cargos considerados importantes ou híper valorizados pelo próprio infetado. Esse orgulho leva o doente a achar que vale mais que todos, que a vida da igreja depende dele, que ninguém é capaz de se comparar a ele em importância e valor, que seu trabalho é insubstituível e que seu galardão será o maior de todos. Essa espécie de mania de grandeza espiritual afeta muitos crentes e é grave. Provoca ilusões e alucinações, leva por vezes mesmo a formação de seitas e outros grupos onde a infeção do portador inicial se torna uma verdadeira “peste negra” da igreja. São os donos da verdade. Os detentores da ortodoxia original ou então os descobridores da verdade final.
Essa infeção leva o doente a esquecer que tudo vem de Deus, que a graça é sempre soberana, que nada temos que não tenhamos recebido, que o corpo de Cristo é composto por muitos membros e todos são valiosos e necessários. Essa infeção cega o doente para o valor de seu irmão, torna-o surdo para a verdade proclamada pelo outro, e fecha o raciocínio para tudo que não seja de origem própria. Nas fases finais costuma levar a afastamento da igreja e eventual morte espiritual.
Exclusão: Esta outra infeção é também comum em meio eclesiástico e muito triste porque nega a verdade bíblica e a própria razão de ser da igreja. Trata-se de uma forma de depressão gravíssima que atinge aqueles que uma vez na igreja se vem cercados por orgulho, vaidade e que são excluídos de certos grupos “superiores”. Tendo vindo do mundo onde não percebiam o amor de Deus, esses doentes encontraram na igreja a fonte da graça Divina. Mas depois, com o tempo de convivência, perceberam o pecado na igreja, a hipocrisia dos crentes, a falta de amor da maioria, o egocentrismo de boa parte dos “irmãos” e entraram em confusão. Se no lugar onde se diz conhecer a Deus e receber os ensinos de Jesus se vive assim então não deve haver saída. O doente entra em desânimo profundo, afasta-se desiludido e acaba por ser um caso muito difícil de recuperar porque já experimentou todos os tratamentos e se tornou imune a eles.
Neste caso há falta de clareza de pensamento. Por vezes expectativas altas demais. É comum julgar-se o todo por um ou dois indivíduos e as generalizações, sempre perigosas, tomam conta do raciocínio levando ao desespero e a falta de esperança numa solução. Por fim a cegueira impede que o doente veja qualquer sinal da graça por mais evidente que seja e a anemia espiritual atinge a gravidade máxima.
Conclusão: talvez alguém me ache exagerado nessas descrições. Gostaria muito que tivesse sido só isso. Infelizmente infeção hospitalar e a sua congénere eclesiástica, são coisas muito sérias e precisam de ser tratadas como tal. Como em quase todos os casos o reconhecimento é o primeiro passo. Precisamos identificar as situações de pecados próprios da igreja e combatê-los de modo proactivo.
Para a hipocrisia o tratamento é a humildade;
para o orgulho é a imersão na realidade do corpo de Cristo;
para a exclusão é a realização da graça extraordinária mesmo no meio das falhas e fraquezas.
Humildade se ganha servindo; a realidade do corpo se adquire percebendo a diversidade de dons e apreciando os talentos de todos; a verificação da graça se percebe não deixando que o maligno nos encha com as mazelas dos outros mas ouvindo e louvando pelas bênçãos em tantas vidas transformadas.
Infeção eclesiástica esta aí. Esteja atento e combata já!
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Manual do Corão - Como se formou a Religião Islâmica

Como entender o livro sagrado do Islão?  Origem dos costumes e tradições islâmicas. O que o Corão fala sobre os Cristãos?  Quais são os nomes de Deus? Estudo comparativo entre textos da bíblia e do Corão.  Este manual tem servido de apoio e inspiração para muitos que desejam compreender melhor o Islão e entender a cosmovisão muçulmana. LER MAIS

SONHO DE DEMBA (VERSÃO REVISADA)

Agora podes fazer o download do Conto Africano, com versão revisada pelo autor.
Edição com Letra Gigante para facilitar a leitura do E-Book. http://www.scribd.com/joed_venturini