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O Silêncio do Céu

Hoje temos muita dificuldade em viver com o silêncio. A maioria de nós já esqueceu o que isso significa. Estamos constantemente rodeados de barulho. Barulho de carros, de pessoas, de obras, de trabalho, de crianças, de animais… dos meios de comunicação, etc. É um mundo barulhento o nosso. Mas a verdade é que quando o silêncio porventura chega nós estranhamos.
Se uma pessoa fica calada e não nos fala ficamos preocupados ou irritados. SE a TV deixa de fazer barulho concluímos que ou alguém apertou o botão MUTE ou então está estragada. Resposta é essencial, barulho é vida… E quando o Céu se cala então é ainda pior… Somos incentivados a orar. Ouvimos que a oração tem poder. Cremos e oramos e… nada acontece. As doenças continuam, o desemprego se arrasta mais uma semana, a pessoa má que nos persegue parece ter ficado ainda pior, aquele problema lá em casa não se resolveu e ainda apareceram dificuldades novas que eu nem tinha percebido. Conclusão: Não vale apena orar! O Céu é mudo! A oração é inútil.
Todo crente sincero já passou por isso. Mesmo os chamados gigantes da fé, os santos do passado, já viveram essa sensação. Foi um monge dedicado ao extremo que cunhou o termo “noite escura da alma”. São João da Cruz referia exactamente ao período de silêncio do céu em que tudo parece escuro em solução. Desde o livro de Jó, provavelmente a estória mais antiga da Bíblia, passando pelos Salmos e chegando a Paulo que ouvimos e mesmo eco. O homem gemendo diante do aparente silêncio do céu que parece deixa-lo sem resposta. Afinal porque isso acontece? Temos respostas bíblicas para esse silêncio? Porque nossas orações não são, por vezes, respondidas? Quais os maiores empecilhos à oração?
Empecilho 1: Não orar
Em João 16:24 Jesus lembrava aos discípulos “Até agora nada pedistes em meu nome…” e Tiago parece fazer eco dessas palavras mais tarde quando diz: “nada tendes porque nada pedis” Tiago 4:2b A verdade maior é que falamos muito de oração, concordamos sobre a oração, discutimos sobre oração, mas oramos pouco. Passamos dias e semanas sem nos lembrarmos de clamar. E então, na hora do aperto, fazemos uma oração SOS, oração 112, rápida e urgente e ficamos zangados porque Deus não respondeu.
Mas, oração é comunhão! Oração é convívio! Imagine que fica sem falar com sua esposa durante 15 dias e então na hora da necessidade corre para ela com um pedido exigente… será de estranhar que ela tenha dificuldade em responder. Notemos bem. O Senhor mesmo assim ainda nos abençoa e responde, mas por vezes não o faz. Não fiquemos tão assustados assim. Há uma razão! Precisamos começar a levar a oração a sério.
Empecilho 2: Viver em Conflito
Jesus orientava os discípulos sobre oração e vida cristã e disse: “Se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti deixa ali a tua oferta e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão” Mateus 5:23 e 24. E novamente Tiago faz eco do seu irmão quando diz: “Cobiçais e nada tendes; sois invejosos e cobiçosos e não podeis alcançar; combateis e guerreias e nada tendes…” Tiago 4: 2. Pedro Se referia a isso também de modo específico para o casamento quando escreveu: “Vós maridos, coabitai com vossas mulheres com entendimento, dando honra à mulher… para que não sejam impedidas as vossas orações” I Pedro 3:7.
Como esperamos que o Senhor ouça nossas orações quando nossas zangas e brigas e irritações e amarguras enchem o coração e gritam em meio a nossas orações? Queremos que o Pai de Amor nos ouça quando nossas vidas estão cheias de falta de perdão, de expressões de raiva por outros, de recordações negativas que alimentamos com todo cuidado dia a dia. Um coração repleto de mau querer dificilmente poderá chegar ao céu. Fecha-se a graça porque a bênção de Deus é imerecida e quando vamos a ele cheios de auto justificação excluímos a acção do mediador que é o único que nos pode dar acesso ao trono de Deus. Perdoar é o caminho da libertação e da abertura dos céus para muita gente.
Empecilho 3: Pecado escondido
O Salmista aprendeu essa lição e a deixou para a posteridade quando declamou: “Se eu atender a iniquidade no meu coração, o Senhor não me atenderá” Salmos 66:18 e o profeta concordou plenamente ao dizer ao povo: “As vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós para que não vos ouça” Isaías 59:2. E o Senhor sofria com isso. Ele desejava abençoar. Não queria ficar em silencia antes fazer ouvir sua voz e sua bênção, mas o povo de Deus, que sabe o caminho do perdão e da retidão precisava lidar com seus pecados de modo sério para que as portas do céu se abrissem. Pecado é como um enorme guarda-chuva que impede que as chuvas de bênçãos cheguem a nossas vidas. A remoção foi ganha por Jesus na Cruz, a solução é I João 1:9.
Empecilho 4: Egoísmo/Pedir mal
Novamente Tiago com seu coração pastoral prática exortava a igreja: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para os gastardes com vossos deleites” Tiago 4:3. Jesus havia avisado aos discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz e siga-me” Marcos 8:34. Por vezes oramos sem discernimento, sem sensibilidade, sem a devida submissão a vontade de Deus. Achamos que sabemos o melhor e por vezes até que o merecemos. Com corações egoístas e fechados rogamos ao Senhor por coisas que na verdade não são da sua vontade e são apenas desejo nosso. Será que Ele nos prometeu dar tudo que quiséssemos? Sem discriminação? Isso seria possível? Seria correto? Creio que mesmo se desejarmos de outro modo podemos ver que não há sentido nisso. O Senhor nem pode nos dar tudo que pedimos porque não seria nem bom para nós nem para os outros. Aprender a orar de acordo com a vontade do Pai é meio caminho andado para recebermos as bênçãos e respostas desejadas.
Empecilho 5: Falta de perseverança
O Senhor deixou claro que Deus esperava perseverança da nossa parte. Seria como que um exercício espiritual, parte da disciplina. “E contou-lhes uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” Lucas 18:1. Onde está o tempo da fé? Onde exercemos nossa confiança em Deus? Se recebermos sempre tudo que pedimos na hora que pedimos onde fica o exercício da fé. Ninguém aprende uma língua na primeira semana de aulas. Ninguém fica musculado no primeiro mês de ginásio. Ninguém perde 20 kg nos primeiros dias de dieta.
Nesta vida aquilo que têm real valor exige persistência. Porque seria diferente com a oração? O que está pedindo a Deus? É algo de valor? Então merece a sua perseverança. Não desanime no início da luta-Não baixe os braços no início da caminhada. Persevere com o Senhor, Insista em sua presença. Valorize seu tempo com ELE. Entenda que a oração é bênção mesmo quando as respostas não acontecem exactamente quando queremos, porque quanto mais tempo investirmos nela, mais forte seremos na comunhão com Aquele que nos ama e que é nosso Pai Celeste.
Empecilho 6: Ele Sabe…
Mas há aquelas situações em que nada do falado cabe. O crente ora, persevera e não tem respostas. Avalia sua vida e vê que não pecado escondido, não há zangas retidas e amarguras guardadas, os motivos de oração são puros, os pedidos não são egoístas e mesmo assim não há alivio nem solução. Como entender?
Nem sempre será claro. A verdade é que vivemos numa dimensão física e a maioria das coisas do mundo espiritual nos passa ao lado. Jó é uma dos maiores exemplos da Palavra. Ele era justo, correto, benevolente, ajudava os outros, aconselhava a todos, cria em Deus e se guiava de modo correto e no entanto sofreu de modo atroz. Fez perguntas, e no fim reconheceu que estava arguindo o Senhor sobre aspectos que não conhecia. A verdade nua e crua era essa: Ele não sabia. Não sabia o que se passava no mundo espiritual. Não sabia mas confiava. Sua afirmação mais duradoura para nós foi: “Porque sei que meu redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” Jó 19:25.
O Próprio Senhor Jesus viveu seu momento de solidão e dor quando no Getsémani e na cruz se sentiu abandonado. Mas sua conclusão foi: “Seja feita a tua vontade e não a minha”. E em última analise será essa a questão em alguns casos. Não sei porque mas confio que o Senhor é amor, sabe o melhor e se não agiu é porque não seria o melhor. Não entendo, não faz sentido para mim, mas reconheço que nem tudo posso entender e confio que seu amor é perfeito e um dia entenderei. Vivo nessa dependência porque aprendo que “o justo viverá da fé” Romanos 1:17

Há propósito no Sofrimento?


Todos apreciamos uma borboleta. Sobretudo as borboletas grandes e bonitas. Algumas mariposas também se tornam muito belas como as da espécie Cecropia, sobretudo a Hyalophora Cecropia. É a maior das mariposas do hemisfério Norte e quando adulta tem asas belíssimas.

Mas como todas as borboletas e mariposas antes de ter asas passa por uma fase de larva em que é um inseto feio rastejante que causa até certa repulsa. Foi criada para ter asas e voar mas inicialmente se arrasta como lagarta e se enrola num casulo onde sobre muito até sua metamorfose se completar. Por vezes acontece de alguém assistir a sua luta no casulo. Percebe toda a dor da transformação, sofre com a dificuldade da lagarta ali fechada e tenta ajudar. Tenta aliviar o sofrimento e dá “uma mãozinha” no processo com ligeiros cortes que facilitem a vida da lagarta. Sabe o que acontece? Se isso for feito as asas não se chegaram a formar e a lagarta sai do casulo com asas disformes que não se abrem e é condenada a se arrastar o resto de sua vida.

Nós fugimos de todo tipo de sofrimento. Criamos analgésicos para as dores físicas e ansiolíticos e antidepressivos para as dores psicológicas porque não queremos lidar com nenhum tipo de dor que possamos evitar. Criamos mesmo toda uma larga indústria de entretenimento onde milhões se perdem por dia evitando enfrentar a realidade de suas vidas e dificuldades. E o resultado? Muita gente rastejando a vida toda. As lutas, dificuldades e sofrimentos podiam e deviam ter-nos ajudado a abrir asas, mas interrompemos o processo e não crescemos. Mas há propósitos para as dificuldades e eles podem ser bênção para nossas vidas. Notemos biblicamente alguns dos mais notórios:
Poda
Jesus falou acerca disto claramente a seus discípulos quando disse: Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto”. João 15:1-2. A poda é um processo natural que conhecemos bem por termos muitas vinhas em Portugal. Quando uma vinha é podada ficamos com a impressão que nada sobrou. A planta cheia de folhagem luxuriosa fica com as varas aparentemente vazias e sem beleza. Mas a poda visa a frutificação. A folhagem roubaria a força da planta para dar fruto e sem poda não haveria fruto.
Todos temos muita folhagem. Coisas que apreciamos muito em nossas vidas mas que não permitem a frutificação que Deus quer ver. As dificuldades têm a capacidade de nos fazer focar nas essências e perder muito dessas folhas superficiais e vazias que não deixariam o fruto sair. Obviamente não gostamos da poda. Dói, incomoda, parece levar embora coisas tão boas. Mas depois vemos que os frutos aparecem e percebemos que havia uma razão para podar tanto e tão longe.
Santidade
Sabemos que a santidade é importante para a vida cristã. Mas o Senhor expressou de modo direto que havia relação entre a santidade e as adversidades: Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade”. Hebreus 12: 7 e 10. A adversidade serve assim para nos ajudar a ficar mais perto de Deus e do que Ele é. Será que podemos ver exemplos práticos disso?
Por exemplo. Desejamos amar como Deus ama? Pedimos isso a Ele e o Senhor coloca em nosso caminho uma pessoa bem difícil. Logo reclamamos. Que provação. Que adversidade amar essa pessoa. Mas note bem. Amar os bons é fácil, mas amar os pecadores, os perdidos, os inimigos que o odeiam. Queremos ficar mais parecidos com Ele? Então devemos vencer essa adversidade e amar os difíceis.
Outro exemplo. Sabemos que devemos ter paciência. Oramos por ela. Então vem uma tribulação física. Por meio dela ficamos limitados. E logo reclamamos. Isso dói. Isso não serve de nada. Mas na verdade aquela situação pode nos ajudar a crescer em paciência e nos tornar mais próximos do Senhor.
Ainda outra situação. Queremos mais fé. Oramos por isso a Deus. E como Ele responde? Nos apresenta um desafio tremendo no qual trememos. E clamamos então: passa essa dificuldade de mi, dá-me vitória já. E o Senhor deixa a dificuldade, mantém o desafio para que minha fé se fortifique.
Dependência
Todos sabemos o quanto confiamos em nós mesmos. Essa é a verdade. Confiamos em nossa mente, nosso conhecimento, nossa visão, nossa experiência, nossa força, nosso bom senso, nossa capacidade de vencer, etc. E gostamos de nos orgulhar e falar de nossas capacidades para mostrar o quanto somos capazes. Curioso que a maioria dos doentes que me chegam ao consultório em depressão fazem questão de relatar que não percebem o que se passa porque na verdade eles são bastante “fortes”.
Mas o Senhor disse distintamente: “Sem mim nada podeis fazer” João 15:5. Daí que Paulo ao passar por várias lutas tremendas entendeu que tinham servido para confiar e depender mais de Deus: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia, pois que fomos sobremaneira agravados mais do que podíamos suportar, de modo tal que até da vida desesperamos. Mas já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos"; 2 Coríntios 1:8-9. Por meio dessa adversidade Paulo se aproximou do Senhor, percebeu toda a limitação das suas muitas capacidades e cresceu em dependência.
Moisés é um exemplo clássico desse princípio. Enquanto príncipe do Egipto ele se achava capacitado para dirigir seu povo. Note bem a reflexão de Estevão sobre o tema: E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras…E ele cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão”. Atos 7:25. Mas enquanto confiou em sua capacidade a única coisa que conseguiu foi se transformar num assassino e exilado político com a cabeça a prémio. Foram precisos 40 anos para perceber que não era nada. Como alguém já disse: Moisés passou 40 anos entendendo que era alguém; mais 40 descobrindo que era um ninguém; e então 40 anos descobrindo o que Deus faz com um ninguém. Mas foi a adversidade que o levou a dependência necessária.
Perseverança
Se há algo que precisamos para vencer nesta vida é de perseverança. Aquela persistência positiva e madura que leva a prosseguir e alcançar as metas valiosas da vida. Mas o homem naturalmente desiste. Prefere a “papinha feita”. Deseja a estrada larga e as coisas facilitadas. E quanto mais evolui tecnologicamente mais acomodado fica. Afinal vivemos na era do controle remoto. Por isso o autor de Hebreus disse: “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa”. Hebreus 10:36. E onde ganhamos a perseverança? Como ela entra em nossas vidas acomodadas? Por meio das lutas e tribulações: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência” Romanos 5:3 e Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência Tiago 1:3.
Exemplos de perseverança e paciência extraordinários nos são dados exatamente por aqueles que passaram por maiores provas. Willian Carey é considerado o Pai do movimento de Missões modernas. No século XVIII ele deixou a Inglaterra para ministrar na India. O primeiro de uma linhagem de milhares de missionários. Suas tribulações foram tremendas. Lutou com falta de recursos, com línguas dificílimas, com filhos doentes e uma esposa que ficou louca.

A certa altura, depois de anos de trabalho as instalações onde trabalhava arderam queimando anos de trabalho de tradução. O que fez Carey? Voltou ao trabalho e ficou conhecido por ter traduzido porções da Bíblia para várias línguas da India. Amy Carmichael, também missionária na India, lutou com a adversidade de ser obreira solteira no século XIX. Perto do fim de sua vida sofreu de doença debilitante que a lançou numa cama mas continuou a ministrar, escrever e dirigir a missão que estabelecera mesmo no leito.

A vida cristã não é um cruzeiro em direção ao céu com direito a pensão completa. É uma caminhada de perseverança. É algo ativo, não passivo. As tribulações nos fazem mais perseverantes e assim nos ajudam na caminhada.
Serviço
Muitas das tribulações que passamos acabam nos capacitando para o serviço ao Senhor. Paulo percebeu isso e explicou aos Coríntios: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação; Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus”. 2 Coríntios 1:3-4. Notemos bem as implicações. Segundo o apóstolo, certas adversidades podem acontecer para nos equipar pois por meio delas aprendemos o bastante para ajudar outros e desse modo nos tornamos mais úteis nas mãos do Senhor. Pensemos em exemplos:
Sofrer uma perda é terrível. Seja um amigo, um pai ou mãe e ainda um filho ou filha. Mas quem melhor preparado para ajudar outros nessa hora de que quem já viveu isso e foi consolado e confortado pelo Senhor. Por meio da dor tremenda de perder minha mãe vivi momentos e tive compreensões que me ajudaram a crescer e que tem-me ajudado a apoiar outros de maneiras que nunca poderia antes. Estou dizendo que o Senhor deu um cancro a minha mãe para que eu aprendesse a lidar com isso? Certamente que não. Não é isso que creio. Mas a verdade é que ao passar por essa prova fui capacitado para o serviço ao Rei.
A Igreja poderia ser um celeiro de ministérios de ajuda desde que os crentes entendessem isso. Aqueles que venceram suas lutas e cresceram em suas adversidades poderiam abençoar muitos outros. Imagine grupos de apoio para lidar com divórcio, perda de parentes, luta com o cancro, desemprego, depressão, doenças debilitantes, idade avançada. E muitas outras áreas. Há no meio dos filhos de Deus um verdadeiro arsenal de possibilidades de bênção esperando para acontecer.
Comunhão
Quero terminar com outro propósito fácil de se perceber e que é tão valioso nas adversidades – a aproximação do Senhor em termos de comunhão. Notemos dois exemplos clássicos. No AT temos Jó: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos”. Jó 42:5. Lembremos que Jó era considerado justo e bom. Mas seu conhecimento de Deus era superficial até que viveu seu sofrimento maior. Não foi nada fácil e ele chegou a desesperar. Mas no fim reconheceu que isso o aproximara de Deus.
Paulo dizia o mesmo em outras palavras: E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo”, Filipenses 3:8. Repare que Paulo precisou passar pelas perdas para ganhar esse conhecimento. Foi por meio de situações dolorosas que ele cresceu em sua comunhão e conhecimento do Senhor.
Infelizmente, a verdade humana é que a prosperidade nos afasta de Deus. Nos traz um falso senso de conforto e segurança e paramos de buscar a Senhor e ansiar por sua presença. É por regra em meio as lutas e dificuldades que acabamos por nos aproximar dele e seu sua verdade. É nas lutas que ansiamos por tê-lo e investimos na oração e na procura do Senhor.
Terminemos então com as palavras do apóstolo inspirado pelo ES: “…nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Romanos 5:3-5

Esperança


Jurgen era um jovem cheio de vida e planos como seria de esperar que qualquer jovem aos 18 anos. Inclinava-se para o estudo da matemática e idolatrava Einstein. Ia fazer seus exames de admissão a faculdade quando foi admitido... ao exército. O ano era 1944 e Jurgen era um alemão de Hamburgo no fragor da segunda grande guerra. Foi incorporado ao exército alemão e colocado no front já na floresta alemã onde se rendeu a tropas britânicas.

Jurgen foi enviado como prisioneiro de guerra para um campo na Bélgica onde a verdade sobre a guerra foi vomitada sobre os soldados alemães e fotos dos campos de concentração de Auchwitz e Buchenwald eram colocadas em suas barracas para que sentissem o peso do mal feito pelos nazis. O jovem que fora criado sem qualquer principio cristão e cujo avô era um conhecido maçon afundou-se no desespero e no remorso. Depois de um tempo foi levado para um outro campo na Escócia. A boa receção dos locais o surpreendeu e um NT dado pelo capelão americano o despertou para a fé. Por fim, seu último campo na Inglaterra o colocou em contato com jovens cristãos e Jurgen encontrou a fé voltando a casa no firme propósito de estudar teologia. Seu contributo para a área teológica não poderia estar mais distante de seu inicio na fé. É conhecido por sua obra que tem como título, Teologia da Esperança. Estou falando de Jurgen Moltman.

O dicionário nos diz que Esperança é uma disposição de espirito que nos leva a esperar algo que se vai realizar. Esperança tem como sinónimos expectativa e confiança. Trata-se de uma das mais básicas disposições humanas e quando falta leva a desespero e muitas vezes suicídio ou atos de loucura. Como é possível que em meio ao horror de uma guerra e as angústias de uma prisão um jovem venha a desenvolver justamente essa disposição de espirito e não outra? Como pode alguém suportar situações como privação e crise mantendo a cabeça levantada e confiante? Provavelmente esperança é a resposta. Algumas pessoas tem expectativa  e confiança que as coisas irão de certo modo , outras não. A esperança é fundamental para a sanidade neste e em qualquer tempo.

O Cristão tem sua esperança em Deus. Confia na sua soberania, em sua justiça e amor e que no futuro (mesmo que desconhecido) o Senhor vai fazer tudo certo? Mas haverá base para essa esperança? Onde se baseia a esperança? Como podemos saber se é válida ou não? Olhando para as evidências, para a história. Um dos episódios da vida de um dos maiores profetas ajuda-nos a entender melhor isso.

Elias tinha sido usado poderosamente por Deus para desafiar um rei e uma rainha maus e perversos, do tipo que parecem saídos de um conto de fadas. Acabe e Jezabel entram na história como símbolos de maldade e governo despótico. Elias é um homem simples e aparentemente rude mas cheio da presença de Deus que os desafia e por fim obtém uma vitória retumbante contra os falsos profetas de Baal no monte Carmelo. A vitória descrita em I Reis 18 é uma das mais extraordinárias da Bíblia. E o que sucede então? Como reage o homem de Deus? Entra em profunda depressão quando percebe que sua vitória não levou a queda de Jezabel, não mudou o coração do povo e sua própria vida está em risco máximo. A crise desta vez é forte demais e ele foge e pede para morrer (I Reis 19:4). O Tratamento inicial do Senhor é descanso e sossego. Resolver questões a quente não funciona. Mas depois de dar a Elias 40 dias de repouso e solidão o Senhor vai tratar de o reanimar e reacender a esperança que se fora. E como foi que o Senhor fez isso? Como é que deu a Elias um retorno a forças para continuar? Vejamos o texto e aprendamos com o Criador que melhor conhece o funcionamento do coração humano (I Reis 19: 8 a 21).

Ele está Presente

A primeira coisa que o Senhor faz Elias perceber é sua presença. No entanto este texto é tão extraordinário porque nos mostra que essa presença nem sempre acontece do modo como pensaríamos de Deus. Temos a tendência de só entender a presença do Senhor nos grandes acontecimentos. Quando o mar se abre, quando o milagre acontece, então entendemos que o Senhor está presente, mas quando não há barulho... tendemos a achar que Ele se ausentou. Mas nesta passagem não aparece o Senhor no vento ciclópico, nem no terremoto tremendo, nem no fogo consumidor, mas numa brisa suave e delicada. Que extraordinário! Que mensagem confortante. Ele está presente na brisa que nos afaga mesmo quando não o vemos.

Avalia tua Situação

O Senhor chama Elias a uma autoavaliação. Há razões reais para esse desespero? Há razão para tanta angústia e duvida? Várias vezes na Bíblia o Senhor faz isso. Principiando no Eden quando pergunta a Adão: Onde estás? O Senhor nos chama a parar de vez em quando para olhar nossas vidas e perceber se há realmente motivos para nos afundarmos em autocomiseração. A autopiedade é um inimigo terrível. Leva-nos a pensar que somos as criaturas mais miseráveis do planeta. Isso não só é falso como é uma posição que não nos permite a reação. No caso de Elias (como na maioria) a simples avaliação não chegou a ajudar. Ele reiterou o que já dissera antes.

Volta pelo teu Caminho

O Senhor parte então para o restaurar da esperança e da vida em Elias. Volta pelo teu caminho, é a ordem. E porque? Duas razões principais. O voltar pelo mesmo caminho era uma forma de ajudar Elias a recordar. O caminho que ele percorrera era cheio de memórias da peregrinação do povo de Israel antes de entrar em Canaã. Ao regressar por esse caminho Elias iria recordar como o Senhor agira na história de seu povo suportando, abençoando, dando vitória e por fim uma nova terra. Volta para recordar como Deus agiu no passado e abençoou o povo.

Mas volta pelo teu caminho era também uma forma de mostrar que Deus agira na vida dele, Elias. Ao passar novamente pelos mesmos lugares ele lembraria da oração para que não chovesse, dos confrontos com o rei, do suprimento de alimento pelos corvos, da farinha da viúva, da ressurreição do filho da viúva, da vitória no Carmelo. O regresso pelo mesmo caminho seria uma forma de levar Elias e ver como Deus já agira de modo tão maravilhoso em sua vida e continuaria a fazê-lo. A base da esperança está exatamente no que o Senhor já fez e que nos leva a confiar em suas promessas para o futuro.
Tens ainda o que Fazer

O Senhor mostra então a Elias que ele ainda tinha o que fazer nesta vida. O Senhor tem propósitos para nós, planos para nós. Há coisas que Deus deseja fazer que só nós podemos fazer. Ele decidiu que assim seria. Se nós não fizermos talvez Ele chame outras pessoas, mas é também possível que ninguém o faça. Que responsabilidade, mas também que privilégio. Que riqueza. Pensar que o Senhor criador do céu e terra tem planos para mim, deseja-me para suas obras. Saber isso também me ajuda a crescer na esperança. O que o Senhor tem para minha vida afeta a de outros e vice-versa. Que riqueza para mim e para os outros. Que alegria para minha expectativa de vida.

Não estás Só

Se há uma coisa que nos deixa sem força é a sensação de estarmos sós. Elias se sentia só e sem qualquer apoio. Ele julgava que só ele sobrara de todos os que adoravam a Deus. Só ele era justo. Só ele sofria daquele modo. O Senhor o ajuda a perceber que não está sozinho. Há muitos outros que partilham a fé, a luta, a dor, o sofrimento mas também a esperança. Uma esperança já é algo bom, uma esperança partilhada é algo contagioso e que pode mudar a realidade a nossa volta.
No meio da guerra e da miséria Moltman entendeu a esperança que temos no Senhor. A história do seu povo, a história em geral, a história de pessoas a nossa volta, a história da igreja e a nossa própria história servem para lembrar a base dessa esperança. Minha esperança está no Senhor que fez o Céu e a Terra e que tem se provado vez após vez presente, atuante e benevolente. Volta pelo teu caminho, descobre o que ainda tens a fazer, não estás só, o Senhor e uma multidão de fiéis te acompanha. Louvado seja o Senhor!
 

Otimismo Retroativo


Chamou-me a atenção uma expressão muito mencionada atualmente  – Otimismo Retroativo. Trata-se da capacidade de ser otimista ou feliz apenas com situações que já passaram. É um misto de saudosismo que só encontra motivos de alegria no passado e insatisfação pessimista que vê só nuvens negras no futuro. O curioso nesta situação é que aquilo que hoje se analisa como maravilhoso foi visto então como negativo. Só há otimismo e satisfação a posteriori. A expressão se aplica atualmente ao estado de espírito de toda a nação portuguesa e talvez na maioria da Europa.

A Igreja tem tido a infeliz tendência de seguir o mundo e nesse sentido acaba por demonstrar também um otimismo retroactivo. Os programas previstos são olhados com desconfiança. Boas mesmo só as coisas do passado. A nível pessoal ainda é pior e o crente se vê dominado por um sentimento geral de desânimo e falta de coragem. E é nessas horas que mais precisamos olhar para a Palavra.
1) Motivos de Gratidão presentes
Paulo conclamou os crentes de Filipos a se alegrarem enquanto estava na cadeia em Roma esperando sua condenação (Filipenses 4:4, 6 e 7).
Jesus nos falou de viver nele Vida abundante falando na Palestina e não em Pompéia ou Capri ou na baía da Nápoles. Se olharmos à volta veremos que temos muitas razões para agradecer:
·        Visite um hospital oncológico e verá gente lutando pela vida em meio às dificuldades de uma quimioterapia e talvez valorize mais sua saúde;

·        Acompanhe o quotidiano de uma criança ou jovem com paralisia cerebral e talvez aprenda a louvar pela saúde de seus pequeninos;

·        Visite um centro de reabilitação de drogados e é provável que agradeça a Deus por seus familiares terem trabalho e estarem bem ajustados na sociedade;

·        Ouça as notícias da igreja perseguida e talvez aprenda a louvar por ter liberdade de culto.
Jesus mandou que olhássemos à nossa volta, para a natureza e percebêssemos que o cuidado de Deus nos cerca a cada momento. Porque reclamar tanto sobre o que não temos quando há tanto para louvar em nossas mãos.
2) As testemunhas que nos cercam
Hebreus 12:1 fala que estamos rodeados pelos testemunhos de muitos que nos antecederam na fé.
·        Lembre de Davi usando suas lutas e problemas para criar salmos de Louvor

·        Recorde o Povo de Israel que recebeu uma lista de festas no meio de um deserto abrasador

·        Leia novamente a história de Daniel orando na cova dos leões

·        Reveja a expressão de Neemias ao povo em meio aos escombros de Jerusalém – A Alegria do Senhor é a nossa força

·        Veja Pedro dormindo tranquilamente na noite que antecedia à sua execução

·        Ouça Paulo e Silas cantando à meia-noite nos calabouços de Filipos
São muitos os exemplos antigos da Bíblia e da História da Igreja que nos mostram que os servos de Deus tem uma atitude diferente diante da vida e dos problemas. Não somos pessimistas dominados pelo materialismo que só encontram prazer no consumo sem controlo e que vivem unicamente para uns poucos momentos de prazer. Temos uma razão maior.
3) Nossa razão maior - O Senhor
Para mim o viver é Cristo, dizia Paulo. Onde está nossa razão de viver! Onde está nossa esperança e nosso propósito? Em Cristo. Ele deu a vida por nós para tivéssemos vida aqui e garantia do céu lá. Andamos no temor do Senhor sabendo que a cada momento Ele nos acompanha mesmo que o vejamos claramente. Confiamos no poder do Senhor que é mais digno de confiança que todas as ciências e elaborações humanas. Ele tem provado seu amor de tantas maneiras e é o mesmo Deus ontem, hoje e eternamente. Ele não faz distinção entre seus filhos e aquilo que é bênção para o passado será também para o presente. Quem muda é o homem. O que muda é o nosso coração, mas a palavra do Senhor permanece para sempre.
Não somos chamados a um otimismo tolo e irrealista. Somos chamados a lembrar que há bem mais nesta vida que aquilo que vemos, que há mais no homem do que aquilo que ele veste e come, que há mais no viver que comprar e vender. Conhecemos a transcendência e recebemos um propósito e é isto que o mundo inteiro busca.
Sejamos a comunidade onde a paz e a esperança ultrapassam raciocínios e entendimentos e o nosso testemunho irá marcar esta nação!

Recordações

Há quem diga que recordar é viver. Na verdade, as recordações são coisas incríveis. O homem tem uma capacidade de memória fabulosa. Recorda coisas passadas décadas como se fosse no dia anterior. Lembra cheiros, sabores, cores, palavras, eventos e emoções. Nossa capacidade de lembrar é uma das maravilhas da mente humana, continuamente surpreendendo e desafiando a ciência. Todos temos recordações. A questão interessante, no entanto é: o que fazemos com nossas recordações?

Há muita gente que sofre com suas recordações. Como se não fosse suficiente sofrer uma vez o agravo, a ofensa, o acidente, a perda, a mágoa, a violação, a injúria, ainda ficam repassando vez após vez e sofrendo tudo de novo. Gente assim vive em depressão. Não conseguem sair do buraco porque há sempre uma recordação para lembrar de como são infelizes. Há sempre uma memória para os levar para baixo. Por mais que as coisas corram bem, sempre haverá uma recordação a lamentar.

Há também muita gente que faz uso da lembrança para vingança. Muitas são as histórias de gente que sobreviveu a situações terríveis pela simples força de lembrar o agravo e planejar a vingança. Quando garoto gostava de ler “O Conde de Monte Cristo”. Edmundo Dantés vivia cada momento de sua vida respirando a vingança contra seus detratores. A fabulosa fortuna que adquiriu, o conhecimento incrível que lhe adveio do contato com o Abade Faria e mesmo o amor da bela Haydée não eram suficientes para trazê-lo de volta à vida. Vivia para recordar e se vingar.

Há gente que usa as recordações para se fechar e retrair. Seguindo a famosa filosofia de que “gato escaldado tem medo de água fria” essas pessoas permitem que as memórias desagradáveis as fechem a todas as possibilidades de nova vida. Não têm coragem de amar, de experimentar, de ousar, tudo porque um dia, no passado por vezes longínquo, sofreram com uma experiência dessas. Aquele incidente os fez retrair como a tartaruga e assistem então a vida passar.

Há ainda os que usam a recordação para se vangloriar. No passado tiveram vitórias, conquistas, resultados vantajosos, e então passam o resto de suas vidas a contar as maravilhas de então. “Quando eu fiz isto”, “quando eu era aquilo”, “ olhe que já fui importante, já andei com fulano, já fiz tal e tal coisa”. Para essas pessoas viver é na verdade recordar. Deixaram de ter conquistas, deixaram de lutar por vitórias, deixaram de sonhar. Vivem na recordação do que aconteceu há muito tempo. Foi bom e pronto. Foi!

E há então aqueles que aprendem a recordar como Davi. O Salmo 18 foi escrito quando finalmente David se viu livre de seus inimigos. E como usou ele as recordações? Ele fora desprezado pelos irmãos, deixou a família ainda adolescente, foi alvo de inveja e intriga, sofreu tentativas de assassinato pelo próprio sogro, sua esposa foi dada a outro, andou vagando por montes e grutas e teve que recorrer a vida no estrangeiro. Tinha boas razões para recordar e chorar, ficar deprimido e em baixo. Quem sofrera como ele em sua geração? Mas não foi de depressão as suas recordações.

Mas tinha razões para vingança. Saul e sua família o maltratara, os Zifeus o denunciaram, os filisteus o odiavam, Doegue o traiu, Nabal o desprezou... havia uma boa lista de gente com quem ele tinha contas a ajustar mas não foi de vingança a sua lembrança.

Com tudo o que sofrera e finalmente livre de seus adversários era hora de descansar e buscar uma boa sombra e uma casa junto a um ribeiro. Davi tinha muitas e boas lembranças que o podiam ter levado a se retrair, a confirmar que todo homem é traiçoeiro, que em ninguém se pode confiar, que a melhor coisa é ficar sossegado em casa. Mas não foi motivo para retração a sua recordação.

E quem podia se gloriar mais que Davi? Ele matara Golias, derrotara os filisteus muitas vezes, pegara um grupo de homens sem futuro e fizera deles uma tropa de elite, escapara a todas as armadilhas de Saul e fora chefe de guerra até entre seus inimigos. Podia perfeitamente sentar-se a sombra de seus sucessos e passar o resto da sua vida se gabando de vitórias tão magníficas. Mas não foi para se vangloriar que ele recordou.

No Salmo 18 Davi recorda tudo que viveu e rompeu em adoração ao seu Deus: “Eu te amo de todo coração, ó Senhor, fortaleza minha. O Senhor é o meu rochedo e o meu lugar forte e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; a força da minha salvação e o meu alto refúgio.” Tantos motivos para depressão, para vingança, para retração ou mesmo orgulho e, no entanto, Davi se volta para o louvor. Ele adora, ele exalta a Deus, ele testemunha da graça e da benevolência do Senhor. Que extraordinário! Será por isso também que ele era o homem segundo o coração de Deus?

Acredito que todos nós teremos motivos para sofrer diante de nossas lembranças. Creio que haverá motivos para desejar justiça a nossos adversários e para nos fecharmos um pouco mais. Creio até que teremos alguns motivos de orgulho olhando para trás e é bom que assim seja. Mas o crente verdadeiro olha para sua vida, recorda suas lutas e louva. Ao filho de deus cabe o louvor. Lançando sobre Ele as tristezas, largando mão de nossas mágoas, lançando a seus pés nossas possíveis coroas, louvamos com gratidão porque é Por ELE, e para ELE que vivemos e existimos. Soli Deo Gloria!

A BANALIZAÇÃO DOS MILAGRES

Culto dos Milagres!
 Dia dos milagres! 
Receba hoje a cura que estava procurando!
 Curandeiro à toda prova!
Seu amor de volta em 3 dias...
Quanto mais a ciência tenta negar a existência de milagres mais estes se tornam um produto desejado e oferecido, numa dinâmica semelhante à de mercado.  O meio evangélico não fica atrás. Os curandeiros e médiuns que oferecem milagres por certo preço são coisa já antiga. Igrejas oferecendo milagres em troca do dízimo é mais recente, mas igualmente preocupante. Em que ficamos nessa banalização dos milagres?

A filosofia moderna procura ridicularizar a noção de milagre. O homem sempre desejou poder para realizar seus sonhos e desejos e muitas vezes é essa atitude egoísta que o leva à procura de milagres. O cinema tem feito sua parte nessa ridicularização, através de filmes como aquele em que Jim Carey recebe de deus o poder supremo e o utiliza para coisas ridículas, como abrir a sopa de seu prato (como o mar vermelho) ou levantar a saia de uma jovem na rua.  Desse modo, a mente moderna procura rejeitar a possibilidade real de milagres.

O outro lado da moeda é a oferta publicitária de milagres fáceis que se vê hoje no meio do evangelicalismo. Os milagres têm dia e hora marcados e são apresentados como infalíveis.  Há muita ênfase dos nomes de poder. Certos pastores e lideres se pavoneiam, apresentando curas e outras maravilhas como a prova de sua superioridade espiritual. Essa banalização prejudica em muito a Igreja e o Reino de Deus. Incentiva a busca egoísta de Deus, engana o povo com pseudocuras que regridem no dia seguinte e servem para desacreditar o evangelho e a Igreja de Jesus.

Instintivamente, o homem acredita no sobrenatural. Essa crença pode ser usada de muitas maneiras. Infelizmente, muitos usam-na para lucrar, e é aqui que mais se vê a ganância do coração humano, naqueles que lucram da miséria alheia e não têm pudor de se aproveitar do sofrimento do próximo numa completa negação do princípio bíblico e da verdadeira natureza dos milagres.

Biblicamente, os milagres existem, mas como sua própria definição o mostra, são excepcionais! Há períodos bíblicos de muita ação milagrosa como no tempo de Moisés e do êxodo, na época de Elias e Eliseu e no ministério de Jesus e dos apóstolos. Entre esses períodos há, por vezes, séculos sem referências a milagres. Isso, só por si, deveria nos fazer refletir sobre sua frequência e relevância. O Senhor não faz milagres quando o homem quer, não tem nenhuma obrigação para com a criatura e não pode ser julgado pela existência ou ausência de milagres.

Guardemos então, alguns pontos importantes sobre essa questão que acaba nos tocando a todos mais cedo ou mais tarde:

1) Milagres são a exceção e não a regra!
Mesmo no tempo de Jesus houve milhares que não foram curados e o Senhor repreendeu aqueles que o procuravam apenas para ver maravilhas ou delas aproveitavam. Os profetas que fizeram maravilhas muitas vezes foram até martirizados e não foram necessariamente salvos milagrosamente. João Batista que Jesus considerou o maior dos profetas não fez milagres e foi decapitado por Herodes e não salvo como Pedro. Paulo curou a muitos, mas não pode se livrar do famoso espinho na carne, não curou a Timoteo a quem receitou vinho para o estomago e tampouco pode curar a Epafrodito a quem o Senhor livrou por misericordia após doença prolongada. Logo, não podemos e não devemos achar que milagres são obrigação de Deus e muito menos exigir que aconteçam. Podemos pedi-los, esperá-los e crer neles mas sempre na noção clara que estão no reino da soberania e sabedoria Divina.

2) A falta de milagre no meu caso não torna irreal a sua existência.
Temos a tendencia de julgar tudo pelo que se passa conosco. Se o Senhor não me livrou, não me curou , não me dirigiu então é porque talvez não livre, não cure e não dirija. É evidente que em primeiro lugar deveria me arguir sobre minha situação com Deus. É comum ver gente que não liga a mínima para o Senhor ou a Igreja e na hora da necessidade corre para Deus e depois reclama que não foi logo atendida. Por outro lado, há bilhões de pessoas no mundo. Você pode imaginar quantos milhares foram libertos hoje? Quantos foram curados ou dirigidos neste dia? Então só porque comigo não aconteceu devo negar a benção nas vidas de tantos outros? É para isso tambem que existe a igreja. É nela que o testemunho dos muitos pode me ajudar nas lutas e dificuldades e me lembrar que mesmo quando não vejo pessoalmente o Senhor continua ativo e abençoador.

3) Há uma economia Divina na questão dos milagres também.
 Se o Senhor colocou à nossa disposição meios para lidar com certas situações e capacidade de raciocinio para tratar de nossas vidas não devemos ficar esperando atuações milagrosas a cada esquina. Muita gente se mete em problemas por falta de prudencia e de discernimento e depois clama por milagres. Outros desprezam os recursos disponiveis e depois querem milagres.

Conheci um jovem que foi para o campo missionário na Africa Ocidental, uma região de malária endemica. Ele era epiletico e tomava medicação diariamente. Ao viajar para o campo deixou de fazer os antiepiléticos e não fez profilaxia para a malária. Segundo ele o Senhor tinha que tomar conta de seus servos que eram chamados para missões. O resultado foi apanhar malária em cima de crises epiléticas diárias que tornaram sua permanencia no campo impossivel. É claro que ele queria um milagre. Mas nesse caso, como em tantos outros, o Senhor já colocara a disposição meios para tratar dos problemas. Devemos lembrar que o Senhor não fará por nós aquilo que nós podemos fazer.

4) Milagres são para a Glória de DEUS, não dos homens.
 Quando vemos cartazes com nomes de lideres em letras garrafais e um versiculo bem pequenininho em baixo já devemos desconfiar do que ali se passa. Quanto mais próximo do Senhor maior a humildade do servo. Aqueles que realmente se aproximam do Senhor entendem sua grandeza e se humilham naturalmente. É, e será sempre uma contradição profunda, um suposto servo de DEus que é cheio de poder e se orgulha disso publicamente. Vai contra tudo o que a Palavra, a história da igreja e a experiência dizem. Os milagres existem para que o Senhor seja exaltado, o homem dê graças e conheça mais de seu amor. Tudo que passar disso para exaltação humana é espúrio e deve ser rejeitado.

5) O inimigo também faz milagres.
 Moisés teve que enfrentar magos egipcios que eram peritos em artes mágicas. Pedro lidou com Simão em Samaria e Paulo com Elimas em Chipre. Homens e mulheres dotados pelo inimigo da capacidade de fazer maravilhas reais existem e estão por aí para se ver e confirmar. Logo, milagre não é garantia de coisa de Deus e nem de espiritualidade santa. Jesus foi muito claro em Mateus 7:22. Gente que profetizou, fez milagres e exorcismos em nome de Jesus serão rejeitados no dia do julgamento. Precisamos desenvolver o dom de discernimento e avaliar a vida e obra daqueles que se apresentam como homens de Deus.

6) Conversão por meio de milagres não é garantia de firmeza cristã.
Os defensores dos milagres em larga escala normalmente usam o argumento do milagre para a fé. Segundo essa ideía é preciso que haja muitas maravilhas para que o povo se converta em massa. Essa argumentação cai diante do registro biblico e da experiência milenar da igreja. Que povo viu mais milagres e mais grandiosos que o povo de Israel que saiu do Egito? No entanto só Josué e Caleb entraram em Canaã. Elias derrotou os profetas de baal com ação poderosa, mas o culto pagão continuou a florescer. Jesus fez maravilhas como ninguém mas o povo gritou: crucifica-o. Conversão baseada em milagres é em geral superficial, egoista e requer uma dose continua de maravilhas para crescer.

Não negamos que alguns sejam salvos após a intervenção do Senhor de um modo especial, mas biblicamente não é assim que a fé funciona. A fé vem pelo ouvir a palavra. Jesus chamou de bem aventurado os que não viram e creram. Oremos por milagres sim , mas não criemos dependência deles porque o justo vive pela fé e não pela vista.

7) Orar pela vontade de Deus é o princípio bíblico.
Há muitos que se irritam quando oramos por uma cura ou maravilha e acrescentamos "se for da tua vontade". Dizem que isso anula o milagre porque é falta de fé. Ora, orar segundo a vontade de DEus é uma das principais lições de Jesus. Foi sua oração no momento supremo do getsemani ( Mateus 26:39). Tiago, pastor da igreja de Jerusalém orientou os crentes a não pressumir sobre o futuro (Tiago 4:15). Como pode uma oração feita segundo a orientação biblica ser errada ou faltosa?

Segundo o Dr. Dallas Willard, quando oro para que seja feita a vontade de Deus não estou mostrando falta de fé e sim de conhecimento. Não é falta de fé em Deus (estou falando com Ele), não é falta de fé na oração (estou orando), não é falta de fé no poder de Deus (estou pedindo o milagre), é falta de conhecimnto porque não posso ter a certeza de que aquilo é o melhor, mas creio que o Deus que tudo pode também é o Deus que ama e conhece todas as coisas. Oremos pois dentro da orientação biblica sem medo de errar.

Conclusão: Que os milagres existem o crente sabe. A graça de Deus, por vezes, ultrapassa mesmo as leis da natureza em providenciar para os seus aquilo que precisam. Orar por milagres, pedi-los ao Senhor e esperar por eles é biblico e devemos fazê-lo. Mas sempre na busca da vontade de Deus. Confiemos no amor de Deus que supre nossas necessidades. Desenvolvamos o discernimento espiritual necessário para não sermos levados por enganadores.

Trabalhemos para a Glória do Senhor e alegremo-nos, porque o nosso Deus é o Deus dos impossiveis e dos milagres também.

Um Travesseiro de Pedra

Dormir é importante e creio que você já sabe. Para dormir bem há vários requisitos. Deve evitar muita agitação antes de ir dormir, deve fazer refeições leves a noite, deve deixar de pensar em problemas... e convêm ter um bom travesseiro. Não sei o que é um bom travesseiro para você. Há pessoas que gostam de travesseiros altos, outras preferem os baixos, macios, mais duros, com certos tipos de material como pena de ganso, etc. Mas, acho que todos concordaremos que uma pedra não será um bom travesseiro! 

Em Gênesis 28:11 lemos que Jacó depois de deixar a casa de seu pai, rumou em direção a leste, dormiu ao relento e usou uma pedra por travesseiro. Não admira que tenha tido uma noite agitada e acordasse para lá de assustado. Pedras não dão bons travesseiros e Jacó estava nessa situação por sua própria conta. Era um homem que desconhecia Deus, toda sua vida agira de acordo com esquemas e trapaças e nunca se preocupara em colocar o Senhor em sua agenda. Resultado: dormia ao relento com uma pedra por travesseiro.
Primeiro Jacó fugira daquilo que se esperava dele. Em vez de ser homem do campo, afoito e corajoso, destemido na caça e nas lutas familiares preparando-se para a chefia do clã, preferia ficar pelas tendas da familia aprendendo a cozinhar com Rebeca sua mãe. Depois esperara a oportunidade para ficar com a primogenitura do irmão. Quando lemos o episódio em que Esaú vende sua primogenitura (Gênesis 25: 27 a 34) fica evidente que tudo foi arquitetado. Não aconteceu por acaso. Jacó conhecia seu irmão e planejou as coisas. Esperou o momento certo, armou o palco e fechou a cilada.

Por fim, veio todo o esquema levado a cabo para conseguir receber a benção de seu pai, Isaque. Jacó faz uso de artimanhas, explora a cegueira do pai e rouba a benção de Esaú. Esse era seu perfil, um sujeito ardiloso e cheio de artificios. Mas, o que isso lhe valeu? Ter que fugir de casa. Sair meio sem saber para onde ía. Logo ele que tanto gostava de ficar junto das tendas familiares e da mãe protetora. Teve que sair pelo mundo, sem rumo certo, sem saber bem onde ficar e sem ter consciência de que o próprio Deus, Criador da terra e céu estava todo o tempo junto a ele (Gênesis 28:16). É isso que deu viver de esquemas. Estava só, dormindo na rua, com uma pedra por travesseiro.

O homem em geral gosta de levar vantagem. Amamos furar fila, ultrapassar os outros antes do sinal fechar num cruzamento, receber o primeiro pedaço do bolo e a última fatia da torta. Alguns são mesmo especialistas nisso. Em certos países já não vemos a meritocracia, mas sim a "jeitocracia", onde em tudo é possível dar um "jeitinho. Se há alguma forma de pularem as leis, os protocolos e as regras podemos estar certos de que o farão. E depois se regozijarão disso e falarão a todos como são espertos. É bom ter cuidado! Jacó também pensava que era... ele é o santo padroeiro dos espertos!

O homem/mulher de Deus deve viver de um modo bem diferente de Jacó, antes de chegar até Betel. Primeiro porque tem que ter consciência da presença Divina a todo tempo. A Palavra nos diz que o temor do Senhor é o principio da sabedoria. Princípio aqui no sentido de começo, mas também de base. Ter a noção da presença do Senhor e um santo temor é básico para uma vida sábia e proveitosa. Há muitas coisas que não faremos e que não falaremos se cultivarmos a perspectiva da presença permanente de Deus conosco.

Depois devemos entender que os esquemas podem parecer vantajosos para nós mas representam invariavelmente perda para alguém. Se eu passo na fila alguém ficou para trás. Se eu uso uma cunha ou conhecimento outros serão prejudicados. Ao agir assim eu me igualo a todos os demais. Me desculpo com a resposta tradicional "Todos fazem isso". Mas nós não somos "todos". Somos filhos de Deus, salvos por Cristo para viver em novidade de vida.

Lembremos que o Senhor nos instrui na Palavra a obedecer as autoridades e as leis (Romanos 13: 1 a 7). Isso quer dizer que se há leis, regras, limites e outros estabelecimentos são para serem cumpridos. Meu testemunho exige isso. Meu temor de Deus exige isso. Meu respeito e amor ao próximo exige isso. Vivendo assim contribuo para um mundo melhor. Se todos vivessem assim, teríamos um mundo muito melhor. Farei doravante a minha parte. Outros certamente vão preferir continuar dependendo de esquemas... a esses dizemos: cuidado! Um dia desses pode acabar descobrindo que tem uma pedra por travesseiro.

Vida Real

O culto fora bom. O coro cantara muito bem, o louvor fora contagiante, as orações abençoadoras e a mensagem bem bíblica e prática. No fim da reunião os crentes cumprimentavam o pastor agradecendo a palavra ou pedindo oração para algum problema. Um irmão extrovertido, dono de aperto de mão forte e voz poderosa, empresário do ramo da construção cumprimentou o pastor alegremente: “Belo culto pastor, e boa mensagem... agora... voltemos então à vida real” e tudo o que o pastor pode fazer foi devolver um sorriso amarelo sem saber como responder a semelhante colocação. 
Independentemente de concordarmos com o irmão empresário, a verdade é que todos já tivemos de algum modo essa mesma sensação. A noção de que o culto é bom, a mensagem animadora, o ambiente acolhedor e a membresia amiga, mas que logo deveremos deixar aquilo tudo e mergulhar de cabeça no mundo real, na vida dura e cruel como ela realmente é. Será mesmo? O que queremos dizer quando deixamos a igreja e suspirando admitimos: de volta a vida real?
Para alguns voltar a vida real pode querer dizer voltar ao mundo onde a ciência dita os fatos. Os que assim pensam veem a igreja e o mundo religioso como território da fé, algo muito subjectivo e não explicado e que na verdade tem a ver com a individualidade. Lá fora; fora da igreja, está o mundo real dirigido pela ciência, fatos devidamente comprovados, especialistas certificados, leis bem estabelecidas e indubitáveis. Mas será mesmo assim? Será a ciência tão confiável assim?
Eu sou médico e tenho lidado com o mundo científico toda minha vida e descoberto que a ciência falha bem mais do que admite. Medicamentos que eram cura garantida até há pouco tempo hoje estão fora do mercado por causa de efeitos secundários letais. Cientistas famosos e galardoados falsificam resultados, eliminam os dados que não lhes agradam. Os grandes laboratórios pagam para ter suas drogas aprovadas, enquanto pesquisas valiosas, mas que dão pouco lucro são engavetadas. Mas, na televisão, o cientista aparece com o título de Doutor e as pessoas o ouvem falar como se fosse o dono da verdade! Não, senhores! A ciência ainda tem muito que crescer para ser a vida real.
Para outros voltar à vida real é voltar ao mundo controlado pelo dinheiro. A visão religiosa é bonita e generosa, mas o mundo real é movido pelo dinheiro e pelos poderosos. É assim que muitos pensam. São eles que ditam as regras, que controlam nossas vidas. Mas será mesmo? Houve um tempo em que Madoff era um nome de poder nos bastidores financeiros. Era sinônimo de poder, influência, luxo. Ele era a coisa real! O Senhor investimento! Hoje perdeu tudo... Há poucas semanas Dominic Straus-Kahn era patrão do FMI. Ele determinava não somente as vidas de pessoas mas de países inteiros. Uma vida de opulência e hotéis de 5 estrelas. Hoje ele está preso, esperando julgamento, envergonhado mundialmente.
O dinheiro pode ser poderoso, mas não dita as regras no coração e não controla as mentes mais seguras. Ele acaba depressa, perde seu valor, erra em seus cálculos. Não, senhor! O dinheiro não é a vida real! Há gente demais com dinheiro que não sabe o que é viver e gente demais sem dinheiro que vive bem para que eu aceite essa suposta verdade.

Haverá outros que dirão que a vida real é a vida do prazer, do divertimento, do gozo e da diversão. Verão a igreja como lugar opressivo e obscuro e o mundo do entretenimento como a vida real. Apresentarão as manchetes dos jornais cheias de artistas e as revistas de fofocas repletas de cantores como prova de que essa é a vida verdadeira: fama, reconhecimento, beleza e luxo. Mas temos demasiadas histórias de suicídio entre artistas e famosos para acreditar nessa versão da realidade. Muitos são os testemunhos de gente que viveu essa vida e que descobriu-se vazio para aceitarmos tal verdade. Não senhor, essa não é a vida real!

Haverá ainda os que dirão que na igreja há muito boa vontade mas a vida mesmo é um lugar cruel e duro onde reina a competição e o trabalho árduo sem valor. Essa será a visão pessimista de que a igreja é um refúgio para a realidade mordaz de um mundo devorador e sem piedade. E reconhecerei que vemos muita crueldade no mundo e muita coisa triste.

Mas falarei também dos milhões que honestamente sustentam suas famílias e que se orgulham disso. Dos milhões que não se curvam à injustiça mas, com pequenas ações, porém relevantes, combatem o mal com o bem e vão tornando a vida algo mais doce e se dedicam a minorar a dor nem que seja de um de seus próximos. Recusar-me-ei a aceitar que a vida real seja a maldade. Há suficiente bondade neste mundo de pecadores para que eu me curve ao mal como sendo a verdade última.

Um dia, há muito tempo atrás, um exército inteiro cercou a cidade onde dormia o profeta de Deus (II Reis 6: 15 a 17). O servo do profeta ouvia o homem de Deus falar da grandeza de seu criador e das maravilhas de seu poder, mas quando viu a cidade cercada desesperou: “Estamos perdidos, esta é a vida real. Estamos cercados por homens armados e poderosos na guerra. Essa é a realidade que nos cerca e não há como fugir. Estamos condenados!” E o profeta tranquilo e sereno fez uma oração simples: “Senhor abre os olhos deste moço por um instante para que conheça a verdade da qual fala mas da qual nada sabe”. E o Senhor concedeu ao jovem ver a REALIDADE que o cercava e nessa verdade inequívoca de Deus havia anjos dos exércitos celestiais cercando as tropas que se julgavam dominadoras.
Não sirvo a um Deus menor.
Não vou à igreja por falta de opção ou por ter uma mente acanhada.
Não manifesto fé por falta de raciocínio ou para fugir à crueldade que me cerca.
Não declaro Jesus por achá-lo bonitinho ou porque fui criado em certa tradição.
Sou Cristão porque Jesus é o Filho de Deus vivo, Rei e Senhor, nome sobre todo nome, Senhor da eternidade e a verdade é conhecê-lo.

Sou seu seguidor e discípulo porque um dia, com a autoridade de quem tinha poder sobre tudo inclusive a morte, declarou: “A vida eterna é esta: que te conheçam a ti o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo a quem enviaste” João 17:3. Aquele que afirmou isso morreu, ressuscitou e voltou ao céu conforme profetizado centenas de anos antes. Essa é a verdade! Por ela viverei!

Haiti e o Problema do Sofrimento

O terremoto no Haiti levantou a questão sempre presente sobre o sofrimento dos inocentes. Já em 1755 Voltaire tinha se revoltado por causa do terremoto que arrasou Lisboa e usou esse acontecimento como prova contra Deus. Diante da catastrofe humanitária no Haiti ouvem-se novamente exclamações parecidas. Como se pode crêr em Deus ao ver tamanho sofrimento?


A argumentação do ateus e céticos é já sobejamente conhecida. Os Cristãos advogam a existência de um Deus que é Todo Poderoso e ao mesmo tempo Amor. Os ateus argumentam que isso não é possivel diante do sofrimento. Ou ELE não é tão poderoso assim porque não consegue impedir catastrofes como a do Haiti, ou não é tão amoroso assim porque permite desgraças dessas. Como fica o Cristão ao enfrentar argumentação aparentemente tão forte? Teremos resposta convincente?


Não podemos evidentemente proclamar aqui a resolução desse problema. Centenas de pensadores tem excrimido argumentos dos dois lados. Queremos apenas refletir um pouco nas implicações do que cremos face aos eventos perturbadores que enchem os noticiários.


Iniciemos pela própria intenção de entender o Criador.  Ao falarmos do poder e do amor de Deus estamos partindo do princípio que são semelhantes aos nossos.  Pensamos que Deus usa seu poder e ama como nós. Mas será essa reflexão válida? Não é presunção do homem acreditar que pode entender o Senhor do Universo? Mal nos entendemos a nós mesmos! Frequentemente nos confundimos a nós mesmos e aos nossos queridos com gestos e palavras que ninguém esperava. Quantas vezes vemos os vizinhos de assassinos em série dizer que o tal criminoso "parecia boa pessoa". Se temos tantas dificuldades em entender o próximo que é gente como nós como entenderemos a Deus?


Uma coisa que fica clara da leitura das escrituras é que Deus não pensa e não ama como nós e por isso podemos mesmo clamar ALELUIA.  Se Deus usasse seu poder como nós certamente já não haveria mundo ou humanidade.  Se seu amor fosse limitado como o nosso não haveria salvação e Jesus nunca teria vindo se sacrificar pelos pecadores.  Talvez o texto de Isaías seja dos mais pertinentes nesse sentido quando o Senhor diz que "os meus pensamentos não são os vossos pensamentos , nem os vossos caminhos os meus caminhos, porque assim como os céus são mais altos que a terra assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos" 55:8 e 9


Por isso mesmo no livro de Jó, um tratado sobre o sofrimento, o Senhor não responde a Jó mas o enche de perguntas.  A conclusão de Jó é válida ainda hoje.  Se não consigo entender as coisas aparentemente mais simples do cotidiano, como vou entender as sublimidades do Espirito? Argumentar sobre o Poder e o Amor de Deus não é lógico pela própria definição de Deus que temos.


Em segundo lugar, precisamos lembrar que a Bíblia e o Cristianismo nos dão uma resposta clara e lógica sobre o problema do sofrimento. Essa resposta não é aceita pelo mundo por ser ilógica ou incompreensivel, mas por ser desagradavel.  Segundo as Escrituras Sagradas, Deus criou o mundo perfeito e o homem vivia em gozo de paz e plena realização na sua relação com o Criador. Foi o pecado que trouxe a dor, a enfermidade e a morte ao nosso mundo.
O sofrimento veio como consequência do pecado e do afastamento de Deus.


É muita hipocrisia do homem moderno reclamar de Deus quando a maior parte do sofrimento pode ser facilmente traçado ao próprio homem. Fomentamos as guerras, produzimos lixo tóxico, plantamos e vendemos drogas, instigamos a lúxuria e o consumismo desenfreado, danificamos irreversivelmente o clima e o planeta e depois reclamamos de Deus porque estragamos tudo e com isso sofremos.

É evidente que a dor de cada criança apanhada numa catastrofe natural não pode ser identificada com um ato maligno de um ou dois homens, mas a verdade é que fizemos o máximo para destruir nossa terra e nossas culturas e a esmagadora maioria de nossos sofrimentos advem disso.

Os filósofos ateus se parecem com os fumadores inveterados que processam as companhias de tabaco porque estão morrendo de câncer.  No próprio Haiti assolado pelo terremoto podemos ver que o sofrimento é aumentado pela violência de homens que dificultam a distribuição de socorro e ainda aproveitam para roubar seus compatriotas em agonia.


Os sofrimentos que passamos podem ser entendidos como consequência de erros nossos (uma boa parte deles) ou de erros de outras pessoas (muitos casos também). Quando se trata do sofrimento de inocentes lembramos que a própria vida neste planeta foi contaminada pelo nosso pecado e a adoração e preferência do mal que caracteriza a vida humana. É uma realidade triste e pode ser deprimente, mas não deixa de ser a verdade por isso.


Em terceiro lugar devemos recordar que o ateísmo que se apressa a condenar o Deus Cristão não tem resposta nenhuma ao sofrimento humano. A filosofia moderna alega que o homem é produto do acaso, logo o sofrimento é algo sem qualquer importância e nem sequer faz qualquer sentido. por outro lado o Cristianismo lida e sempre lidou, diretamente com o sofrer humano.  Lembremos que muitos missionários que trabalhavam no Haiti encontram-se entre os mortos.  A ajuda humanitária que vai inundar o Haiti virá (como sempre) de países de tradição Cristã.  As outras grandes religiões do mundo pouco se importam com a dor humana. Se o mundo fosse hoje dominado pela filosofia dos ateus provavelmente nenhuma ajuda seria dada.

Os céticos que acusam o Cristianismo não fazem nada para responder ao problema do sofrimento. Sua filosofia criou os piores regimes que o mundo já conheceu. Os crimes contra a humanidade perpetrados pelos regimes ateus como os de Stalin, Hitler e Mao tse Tung mataram muito mais gente num único século que todos os crimes que gostam de atribuir á igreja. Onde estão os ateus e a sua filosofia na hora de ajudar em situações como o Haiti?  Em casa, xingando os Cristãos que irão se arriscar nos locais de perigo.

Concluimos recordando que a Bíblia não dá apenas a má nova do pecado como raiz do problema do sofrimento. A Boa Nova é que DEus realmente se importa conosco e fez o sacrificio maior exatamente para que possamos começar a vencer a dor neste mundo e derrotemos a morte numa vida eterna com a paz divina. Ninguém lutou mais contra o sofrimento que Jesus e hoje a sua Igreja.

 O ateu pode usar o sofrimento para negar a Deus mas não será porque faz sentido ou não haja resposta. Enquanto estivermos neste mundo teremos que lidar com essa dificuldade e ele nunca será fácil, mas em Cristo podemos ser vencedores agora e no além.
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SONHO DE DEMBA (VERSÃO REVISADA)

Agora podes fazer o download do Conto Africano, com versão revisada pelo autor.
Edição com Letra Gigante para facilitar a leitura do E-Book. http://www.scribd.com/joed_venturini