Meu avô, Pr. Reis Pereira

Dia 15 de outubro completará o 20o aniversário da morte do pr. José dos Reis Pereira, diretor do Jornal Batista por 24 anos, pastor, jornalista e professor. Um homem de uma inteligência extraordinária e de uma visão do Reino de Deus especial para o seu tempo.  Mas hoje, poucos lembram de suas palavras e do seu ensino, ou mesmo de seus editoriais que influenciaram milhares de crentes no Brasil e no mundo.  Hoje, quero lembrar-me apenas de meu avô, o vovô Reis.

Juntamente com minhas 5 irmãs, amava visitar vovô Reis, o que acontecia pelo menos 3 vezes por semana, dada a nossa proximidade.  Era delicioso sair da escola e passar as tardes na casa do vovô Reis, pois sempre havia novidades. 

Um missionário da JMM que passava pelo Brasil, um pastor, ou mesmo crentes de diversas partes do Brasil sempre o visitavam.  No natal as portas ficavam repletas dos cartões de natal recebidos de todas as partes do mundo.  Ele se correspondia com irmãos e amigos de tantos lugares que me espantava a forma como mantinha sempre os contatos e as amizades. Sim, ele era fiel aos seus amigos.

Gosto de lembrar e sonhar com nossas caminhadas...mesmo quando estava doente caminhávamos por duas horas, sempre a conversar.  Foi assim que ele me mentoriou e instruiu da melhor maneira, no dia-a-dia.  Iniciava uma conversa com uma pergunta:  Ida, o que você sabe sobre os grandes poetas portugueses?  Em cinco minutos despejava o que lembrava e nas duas horas seguintes absorvia todos os detalhes que o avô acrescentava. Ouvia poemas magníficos com suas críticas e impressões como se os tivesse conhecido pessoalmente.

Amava ouvir suas aulas de mestrado em História da Igreja.  Para ele Lutero e Zuinglio não eram apenas personagens num livro enfadonho, mas crentes especiais que transformaram sua época.  Quando ensinava, seus olhos brilhavam, sua voz se animava e conseguíamos reconhecer naqueles personagens seus melhores amigos.  Contava detalhes de suas vidas que tornavam toda a História num momento vivo e divertido!

Amava passear com vovô e principalmente estar à mesa, em família. Uma grande família, sempre com seminaristas e iberistas a participarem ativamente do colóquio.  Gostava de piadas inteligentes e era leitor assíduo de revistas, jornais, entre elas o Times e Readers Digest.  Todas as editoras enviavam-lhe seus livros de lançamento, ele lia e memorizava-os, numa técnica impressionante! Jamais esquecia-se de um nome!

Quando ficou doente o médico restringiu-lhe a alimentação, porém, quem conheceu vovô sabe que comer era o seu hobby predileto.  Quando eu e Joed namorávamos e almoçávamos com ele, sempre invejava o prato de Joed dizendo:
_ Darcília, o que é que o Joed está comendo? Eu quero o que Joed está comendo, pois parece bem melhor...
Vovó Darcília, morta de preocupação respondia: 
_Mas, Reis, você não pode comer desta comida...o médico já disse....
_Darcília, eu quero...vou pegar só um pedacinho.  E lá se ia o grande bife que Joed pretendia...
Amava a culinária portuguesa, mas também era fã dos queijos franceses!! Infelizmente, esse apetite agravou-lhe a saúde.

Surpreendia-me quando queria cozinhar um pão de ló com 12 ovos! Ou quando me ensinava a receita de um frappé de coco que levava sorvete de coco e um vidro inteiro de leite de coco...gordura para matar qualquer um...mas, que delícia! E depois, sobrava para mim o trabalho de limpar toda a sujeira na cozinha, antes que vovó descobrisse nossa estripulia!

Divertido era ver vovô assistindo a uma luta de boxe.  Como ele gostava de boxe! Eder Jofre e outros lutadores...vovô treinou boxe quando novo e gostava de "tentar" nos ensinar.  Podem imaginar vovô dando uma "gravata" nas netas, que em vão tentavam jogá-lo ao chão.  Um dia a cama do quarto da vovó foi abaixo porque as quatro netas pulavam tanto e lutavam com o avô que esta não resistiu.  E vovó Darcília ficou uma fúria! Hoje a compreendo bem, que trabalhão e que gangue nós fazíamos!

Vovô gostava de uma boa argumentação, gostava de uma discussão intelectual.  Não lhe agradava aqueles que em nada podiam contribuir, ou que simplesmente concordavam e abaixavam a cabeça.  Mesmo sendo muito nova, sempre gostei de perguntar e instigar e com isso vovô se abria e ensinava ainda mais. Foram as lições mais preciosas, que não se aprendem numa cadeira de seminário ou faculdade. Foram anos maravilhosos!

Vovô deu-me meu primeiro emprego: secretária particular.  Deveria organizar sua biblioteca e seus milhares de pequenos cartões com anotações.  Seus sermões eram guardados nestes cartões e muitas vezes havia apenas o texto bíblico e 4 palavras.  Achava incrível como conseguia lembrar-se de uma mensagem completa com apenas estas anotações. Ajudava-o a elaborar o boletim da igreja e organizar sua correspondência.  Foi confidente de tantos missionários,  pastores e esposas de pastores, mas sempre manteve total sigilo e antes de falecer lembro-me que queimou a maior parte de seu arquivo de cartas, não fossem cair em mãos erradas.  Através destas cartas orientou e guiou o meio batista no Brasil.  Hoje sua firmeza doutrinária, suas convições profundas e seu amor pela Palavra fazem falta.  Sua amizade era genuína, sem preconceitos, sem interesse nem acepção de pessoas.  Os doutores e os mais iletrados eram ouvidos da mesma maneira e todos eram recebidos à volta de sua mesa.

Pr. Reis não era um homem fechado e não o considero um batista fundamentalista, era um batista sincero e convicto, pois sua crença vinha do muito estudo e meditação. Muitos que o conheceram apenas de púlpito podiam considerá-lo reservado, mas conosco era alegre, descontraído e muito, muito espirituoso.

Hoje, após  vinte anos de sua morte ainda sonho com seus conselhos, ainda recordo-me de seus exemplos, histórias e anedotas.  Suas marcas permanecem em minha vida e na vida de meus filhos, que mesmo não o conhecendo ouvem suas histórias e aprendem sua maneira de ver a vida.

Sua última oração foi no dia 12 de outubro de 1991, o dia de meu casamento.  Vovô não assistiu, já estava de cama.  Saímos da igreja do Rocha diretamente para a casa do vovô.  Vovó Darcília surpreendeu-se, pois ele sentou-se, apoiado pelo pr. Tiago Lima e nos ajoelhamos junto à cama.  Ele uniu nossas mãos, apertando-as com força entre as suas mãos e durante longos minutos orou abençoando nosso ministério e nossa vida de casados. Depois disto nunca mais falou.

Era o dia mais feliz de minha vida, mas também o mais triste, pois sabia que vovô estava indo e não podia segurá-lo mais.  Esperou até o meu casamento e nos abençoou. Vovô faleceu três dias depois, e as mesmas flores do meu casamento estavam no funeral na igreja do Rocha. 

Obrigada, vovô, pela sua vida, pelas bênçãos que eu e meus filhos desfrutamos até hoje, pela proteção no campo missionário e pelo exemplo que nos deixou.  Não nos esqueceremos jamais, pois sempre será para mim o vovô Reis.

Uma neta saudosa
Ida Venturini de Souza



Cronologia José dos Reis Pereira - Jornal Batista 29.12.1991
 


Homenagem ao Pr. Reis. Jornal Batista de 29.12.1991
 

6 comentários:

Lúcia Mazoni Msc, PMP disse...

Você pode imaginar como estou agora... mas é muito bom recordar! Tem um fato também que é para mim outra grande lição: quando fomos arrumar as coisas dele no escritório, achamos uma pasta cor de rosa, com o título de "Pasta Cor de Rosa". Dentro desta pasta haviam reportagens sobre ele, cartas de pessoas agradecendo a ele por alguma coisa... Nossa interpretação disso é que ele que sempre nos lembrava que "as amargas não", quando estava abatido, sem poder compartilhar com outros os dissabores que muitas vezes um pastor passa, abria a pasta cor de rosa para se lembrar que valia a pena continuar - e continuava alegre apesar das tristezas!

Obrigada Ida por dedicar este tempo para escrever sobre ele - estou chorando de saudade mas com muitíssima alegria de ter tido um avô tão maravilhoso! Ah! E vc nem falou da briga pra voltar da igreja com ele no carro: sempre uma coisa nova da história a gente aprendia!

Um grande beijo!

Lúcia

Anônimo disse...

o exemplo e um bom relacionamento pode mudar uma familia.

erva doce

Ida disse...

Sim Lúcia, gostaria de ter mesmo o tempo necessário para contar a ~história de vovô na nossa versão, das netas, pois teriam uma visão bem diferente. É bom recordar e lembrar aos nossos filhos que o mais importante é o que deixamos no coração e não no banco!
abraços
Ida

Medgermano disse...

Muito linda e apropriada sua homenagem...Ele faleceu no dia do mestre, algo que ele fez por toda a a sua vida: ENSINAR! O que mais lucramos do Pr. Reis foram seus ensinos; felizes aqueles que puderam desfrutar de sua presença a qui na terra. Praise The Lord!

Anônimo disse...

Acabei de ler o testemunho que escreveu sobre a vida do seu avô que conheci e ouvi pregar.
Ainda tenho lágrimas nos olhos porque tive o privilégio também de ter avós assim. Que bom Ida poder dar este testemunho!
A nossa filha Joana, embora não tendo conhecido os avós, ama-os como se com eles tivesse privado. Eles levaram-me a Cristo com o seu testemunho e exemplo de vida. Era impossível estar perto deles sem ser tocado pelo seu amor, simpatia, espírito de entrega e renúncia em favor de muitos.
Obrigada por esta inspiração matinal e pelas boas lembranças que me trouxe.
Um bj
Paula Loja

Anônimo disse...

Luciano Hemerly Thompson comentou seu link.

Luciano escreveu: "Esse era especial, e um homem de Deus!! Saudades..."

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