A Batalha pela nossa mente


João é um homem gentil e de fala mansa. Toda sua vida, ele foi subserviente. Qualquer situação nova o deixa em grande ansiedade. Qualquer desafio é encarado com as mesmas palavras de sempre – “isso não vai dar certo”. João está derrotado antes de começar. As poucas oportunidades que apareceram em sua vida foram perdidas por causa dessa atitude. Ele simplesmente não consegue... a mulher o despreza por isso e vive comentando os sucessos de seus amigos e colegas. Os filhos não ligam ao que ele diz. João encolhe os ombros. Desde menino foi-lhe dito que era fraco, tolo, incapaz e outras coisas bem piores. Em sua mente ele criou tais barreiras que sua vida é uma enorme sucessão de situações impossíveis...
Ana sofreu muito em casa. O pai lhe batia, e batia na mãe. O irmão mais velho, primeiro se mostrara condoído, mas depois passou a agir como o pai e explorar o trabalho dela. O primeiro namorado não foi coisa melhor... Ana se viu grávida e sem condições de sustentar a criança. Teve que tolerar as violências do pai mais um tempo. Quando finalmente casou foi para fugir de casa. Mas o casamento é um desastre. Em sua mente Ana vê todos os homens como maus, violentos, insensíveis, exploradores... sua vida é dor e repressão. Ela não sabe ser feliz!
Estas histórias fictícias apenas falam de casos que se multiplicam na população. Milhões de pessoas vivem suas vidas repletas de pensamentos negativos durante o dia e pesadelos de noite. Não conseguem se libertar de um ciclo maligno de derrotas e expectativas falhadas até chegarem ao ponto de deixarem de acreditar. Estão sendo derrotadas na maior batalha que enfrentamos em nossas vidas.
Tudo começou com os nossos primeiros pais. Criados em perfeição pelo Senhor Deus Criador, viviam em plena comunhão. Até que um dia a serpente veio brincar com suas mentes. Sugerir pensamentos diferentes, levantar dúvidas, despertar ansiedades e propor hipóteses que a mulher e depois o homem aceitaram. Com sua desobediência veio o pecado e a separação de Deus. Daí por diante vivemos num mundo em conflito. O bem e o mal lutam pelas vidas humanas e o campo principal de batalha é a nossa mente.
1.     Somos frutos de nossos pensamentos
Todos nós vivemos de acordo com os nossos padrões de pensamento. Paulo falava disso aos Romanos: “ Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem vive de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja.” Romanos 8:5. E sabemos isso por natureza e experiência. Conforme pensamos assim agimos. Jesus dizia que os atos malignos vem de dentro, das mentes, dos pensamentos, dos esquemas mentais que cada um de nós cria. Conforme os pensamentos que nos dominam assim será nossa atitude e nossa atitude determina a forma de encarar as situações, resolver os problemas, tratar nossos relacionamentos. Tudo começa na forma de pensar.
2.     Somos chamados a moldar nossas mentes pelo Senhor
Reconhecendo que o mundo força nossas mentes a certos moldes, Paulo instava os crentes de Roma a não aceitarem esses moldes mas transformarem seus pensamentos pelo Senhor: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2. A sequência é essa. Queremos experimentar a vontade de Deus? Então não devemos aceitar os moldes do mundo mas renovar nossa mente. Esse é o desafio do crente. Não é só ser salvo e sentar-se a espera do céu. Viver na vontade de Deus. Crescer no domínio dos pensamentos. E aí vem a luta.
3.     Nossa batalha maior é pelos pensamentos
A luta maior acontece em nossas mentes. O inimigo leva tempo para criar moldes, padrões de pensamentos que se tornam verdadeiras fortalezas em nós: “Não consigo isso”; “Ninguém me respeita, ninguém me ama”; “Só mais essa vez...”; “isto não fará mal a ninguém”; “é mais forte do que eu”...
A luta que se passa na mente é vivida a nível de nossos pensamentos. Mas recebemos capacitação do Senhor pelo ES para a vencer: “As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus e levamos cativo todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo.” II Coríntios 10:4 e 5.
4.     Essa luta se passa no mundo espiritual não é com pessoas
Achamos que o mais difícil são as pessoas, mas a Bíblia nos diz que a luta é muito superior. Ela é espiritual: “Porque a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.” Efésios 6:12. Não estamos lutando com pessoas más e com gente que nos tenta prejudicar. Nossa luta é contra as forças espirituais da maldade e por isso é tão difícil.
5.     Nosso adversário trabalha por meio da mentira
Jesus deixou bem claro que nosso inimigo é mentiroso o tempo todo: “Quando o diabo mente, fala do que lhe é próprio, pois é mentiroso e pai da mentira.” João 8:44. Sua estratégia não mudou desde o princípio. Ele enfeita a mentira, dá-lhe cores maravilhosas, mas continua sendo mentira. Ele finge que é para nosso bem quando sabe perfeitamente que deseja nossa desgraça e perdição. Ele trabalha com paciência e perseverança para nos amarrar em suas garras de tal modo que nos pareça impossível sair.
6.     A Vitória virá pelo conhecimento e aplicação da Verdade
Se a derrota vem pela aceitação das mentiras, a vitória vem pela aplicação das verdades de Deus. Jesus disse claramente: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” João 8:31 e 32. Daí a importância de trabalhar a Palavra de Deus e a conhecer. Jesus venceu as tentações não pela força, não pela argumentação, não pelo debate. Ele simplesmente usou a verdade da Palavra e respondeu as mentiras do inimigo a sua mente com as verdades do Pai.
7.     A Vitória é Nossa em Cristo
O inimigo sabe que a vitória esta ao nosso alcance. Ele luta para nos manter fechados em seus padrões de pensamentos malignos de tal modo que não vejamos que em Deus temos a saída. Mas a palavra afirma categoricamente: “Não veio sobre vós tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é Fiel; Ele não permitirá que sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, Ele mesmo vos providenciará um escape, para que o possam suportar.” I Coríntios 10:13. Logo, o vencer já nos foi dado. Ser vitorioso é agora uma decisão nossa. O que vai preferir? Acreditar as mentiras do mal ou viver pelas verdades que nos libertam.
Na próxima semana continuaremos avançando nas respostas bíblicas sobre este assunto tão importante.

Otimismo Retroativo


Chamou-me a atenção uma expressão muito mencionada atualmente  – Otimismo Retroativo. Trata-se da capacidade de ser otimista ou feliz apenas com situações que já passaram. É um misto de saudosismo que só encontra motivos de alegria no passado e insatisfação pessimista que vê só nuvens negras no futuro. O curioso nesta situação é que aquilo que hoje se analisa como maravilhoso foi visto então como negativo. Só há otimismo e satisfação a posteriori. A expressão se aplica atualmente ao estado de espírito de toda a nação portuguesa e talvez na maioria da Europa.

A Igreja tem tido a infeliz tendência de seguir o mundo e nesse sentido acaba por demonstrar também um otimismo retroactivo. Os programas previstos são olhados com desconfiança. Boas mesmo só as coisas do passado. A nível pessoal ainda é pior e o crente se vê dominado por um sentimento geral de desânimo e falta de coragem. E é nessas horas que mais precisamos olhar para a Palavra.
1) Motivos de Gratidão presentes
Paulo conclamou os crentes de Filipos a se alegrarem enquanto estava na cadeia em Roma esperando sua condenação (Filipenses 4:4, 6 e 7).
Jesus nos falou de viver nele Vida abundante falando na Palestina e não em Pompéia ou Capri ou na baía da Nápoles. Se olharmos à volta veremos que temos muitas razões para agradecer:
·        Visite um hospital oncológico e verá gente lutando pela vida em meio às dificuldades de uma quimioterapia e talvez valorize mais sua saúde;

·        Acompanhe o quotidiano de uma criança ou jovem com paralisia cerebral e talvez aprenda a louvar pela saúde de seus pequeninos;

·        Visite um centro de reabilitação de drogados e é provável que agradeça a Deus por seus familiares terem trabalho e estarem bem ajustados na sociedade;

·        Ouça as notícias da igreja perseguida e talvez aprenda a louvar por ter liberdade de culto.
Jesus mandou que olhássemos à nossa volta, para a natureza e percebêssemos que o cuidado de Deus nos cerca a cada momento. Porque reclamar tanto sobre o que não temos quando há tanto para louvar em nossas mãos.
2) As testemunhas que nos cercam
Hebreus 12:1 fala que estamos rodeados pelos testemunhos de muitos que nos antecederam na fé.
·        Lembre de Davi usando suas lutas e problemas para criar salmos de Louvor

·        Recorde o Povo de Israel que recebeu uma lista de festas no meio de um deserto abrasador

·        Leia novamente a história de Daniel orando na cova dos leões

·        Reveja a expressão de Neemias ao povo em meio aos escombros de Jerusalém – A Alegria do Senhor é a nossa força

·        Veja Pedro dormindo tranquilamente na noite que antecedia à sua execução

·        Ouça Paulo e Silas cantando à meia-noite nos calabouços de Filipos
São muitos os exemplos antigos da Bíblia e da História da Igreja que nos mostram que os servos de Deus tem uma atitude diferente diante da vida e dos problemas. Não somos pessimistas dominados pelo materialismo que só encontram prazer no consumo sem controlo e que vivem unicamente para uns poucos momentos de prazer. Temos uma razão maior.
3) Nossa razão maior - O Senhor
Para mim o viver é Cristo, dizia Paulo. Onde está nossa razão de viver! Onde está nossa esperança e nosso propósito? Em Cristo. Ele deu a vida por nós para tivéssemos vida aqui e garantia do céu lá. Andamos no temor do Senhor sabendo que a cada momento Ele nos acompanha mesmo que o vejamos claramente. Confiamos no poder do Senhor que é mais digno de confiança que todas as ciências e elaborações humanas. Ele tem provado seu amor de tantas maneiras e é o mesmo Deus ontem, hoje e eternamente. Ele não faz distinção entre seus filhos e aquilo que é bênção para o passado será também para o presente. Quem muda é o homem. O que muda é o nosso coração, mas a palavra do Senhor permanece para sempre.
Não somos chamados a um otimismo tolo e irrealista. Somos chamados a lembrar que há bem mais nesta vida que aquilo que vemos, que há mais no homem do que aquilo que ele veste e come, que há mais no viver que comprar e vender. Conhecemos a transcendência e recebemos um propósito e é isto que o mundo inteiro busca.
Sejamos a comunidade onde a paz e a esperança ultrapassam raciocínios e entendimentos e o nosso testemunho irá marcar esta nação!

Natal – Adoração Genuína

Uma das figuras mais comuns no Natal é a dos anjos. Vemos anjos nas árvores, nos presépios, nos papéis de embrulho e cartões de boas festas. Os anjos verdadeiramente tiveram um papel importante no primeiro natal como mensageiros de Deus a Zacarias, Maria e José mas lembramos em especial do coro angelical que proclamou o nascimento aos pastores de Belém. Quando pensamos em anjos cantando pensamos em adoração pura. Quando dizemos de alguém que “cantou como um anjo” é um elogio enorme. Significa beleza e pureza de adoração. Eles representação a adoração genuína que o Senhor merece. Mas pensando nessa adoração sou levado a meditar em outras experiências de adoração do povo de Israel que se provaram erradas e nas lições que isso nos traz.

A primeira dessas experiências aparece em Êxodo 32 e é a do bezerro de ouro. Um povo liberto e que vira maravilhas não suportou nem 40 dias sem a liderança de Moisés e já estavam prontos a adorar imagens. Precisavam de algo visível. Depois de 400 anos vendo a idolatria egípcia diária foram tentados a ter eles também imagens. Acabam por optar por um boi ou bezerro, um dos símbolos do Osíris egípcio. É difícil crer que viam nesse bezerro em Deus. O que eles queriam era um culto à sua medida, do seu jeito. Arão, que segundo a tradição assistira ao apedrejamento de Hur por tentar impedir a idolatria, cede ao povo e decreta uma festa ao Senhor (32:5). “Transformaram a Glória de Deus na figura de um boi que come erva” Salmo 106:20. Chamam a sua bacanal de celebração ao Senhor. Adoração totalmente equivocada.

Esse episódio é símbolo máximo do culto humano, um culto feito para agradar o homem, voltado para os sentidos, para emoções fortes. Surge da falta de um líder verdadeiro e da direção fraca que vai onde o povo quiser ir. Um culto assim pode até agradar a multidão mas fica longe de louvar a Deus e é para Ele abominação que exige punição.

Pouco tempo depois vemos o povo murmurar novamente e ser punido com uma praga de serpentes mortíferas (Números 21). O Senhor providencia a cura por meio da fé que exigia a visualização de uma serpente de bronze que Moisés ergue no centro do acampamento. Muitos sãos salvos pela fé ao avista-la. Era um símbolo da graça e do perdão de Deus. Mas o povo facilmente cria superstições e passados séculos encontramos Israel adorando a serpente (II Reis 18:4) e o rei Ezequias em seu zelo destrói Neustã, o pedaço de bronze.

Este episódio nos ensina o risco de tomar algo bom de Deus e idolatrá-lo. Pode ser um programa, uma organização, um método, um templo, um local de culto. Algo que o Senhor inspira e abençoa mas que com o tempo é elevado a uma posição errada e ocupa o lugar que só o Senhor pode ter. Este é um erro comum no meio evangélico. Infelizmente tiramos os olhos de Deus muito facilmente e logo nos fixamos em coisas, em pedaços de bronze. Passamos a adorar os métodos, as formulas, os locais e as organizações e deixamos de servir ao Senhor. Nesses casos vai haver necessidade de alguém com zelo de Deus chamar o povo a verdade e mostrar que barro é barro, bronze é bronze e só o Senhor é Deus!

Já depois da entrada na terra prometida temos mais dois momentos de adoração equivocada. Um aparece após as vitórias de Gideão (Juízes 8). O servo de Deus tem uma vitória retumbante e histórica sobre os midianitas. Apazigua os efraimitas e recusa ser rei. Até aí tudo certo, tudo bem. Mas então pede ouro e faz um éfode sacerdotal que coloca em sua própria cidade de Ofra e isso foi por tropeço para Israel e para a casa de Gideão (8: 27). Gideão estivera tão bem mas falha exatamente no que viera combater. Toma uma posição que não é sua (ele é de manasses e não levita), faz uma vestimenta que não lhe cabia (ele é homem do campo e chefe militar e não sacerdote), cria um local de culto em sua cidade desviando o culto de seu lugar certo que seria em Siló (talvez porque na verdade não se entendera com os de Efraim em cujo território ficava Siló) e provavelmente usa esse éfode como oráculo quando o Senhor estabelecera Urim e Tumim como oráculos Divinos.

Aqui a adoração equívoca advém de um líder que perde a noção de seu lugar, usurpa um ministério que não é seu e estabelece uma primazia em sua cidade que não tem lugar.  Um líder equivocado pode facilmente levar a uma adoração espúria. Grande é a responsabilidade daqueles que o Senhor chama.

Por fim temos o estranho episódio de Mica, seus ídolos e seu levita em Juízes 17 e 18. Mica cria seu próprio santuário (capela privativa), constrói seus próprios deuses e consagra seus próprios sacerdotes, primeiro, seu filho e depois, um levita errante. O levita, foge da terra que lhe fora designada a procura de uma situação mais favorável. Primeiramente aceita ser sacerdote de Mica quando não podia ocupar tal posição e depois vai se vender aos Danitas por um salário melhor (18:19 e 20). Essa história é um exemplo refinado de culto conveniente.

Ministérios mercenários são hoje comuns. Não há paciência e nem perseverança na obra. Quando as coisas ficam difíceis e principalmente quando há uma melhor oferta algures o “servo” de Deus logo entende que “seu tempo naquele trabalho terminou”. Facilmente muda de visão e de função. Tudo que vá ao encontro de sua comodidade e sucesso. “É melhor ser sacerdote de uma tribo do que de um só homem e família...” E devemos notar que a história não acaba necessariamente mal para Jônatas, filho de Gérson. Ele e seus descendentes vão manter o cargo (18:30). Mas a custo de que? Que satisfação o Senhor teria com essa situação?

Neste Natal lembremos a adoração dos anjos. Feita na hora certa, do modo certo, sob a ordem específica de Deus, aqueles a quem Deus envia, com o intuito de proclamar a boa nova. Nós provavelmente preferiríamos usar um coro de anjos no palácio real ou na praça central de Jerusalém. Mas o Senhor os mandou aos pastores em Belém e lhes deu um repertório específico.
Adoração genuína terá que ser sempre feita para o
louvor da Glória Divina e dentro da sua vontade e da
sua revelação.

Recordações

Há quem diga que recordar é viver. Na verdade, as recordações são coisas incríveis. O homem tem uma capacidade de memória fabulosa. Recorda coisas passadas décadas como se fosse no dia anterior. Lembra cheiros, sabores, cores, palavras, eventos e emoções. Nossa capacidade de lembrar é uma das maravilhas da mente humana, continuamente surpreendendo e desafiando a ciência. Todos temos recordações. A questão interessante, no entanto é: o que fazemos com nossas recordações?

Há muita gente que sofre com suas recordações. Como se não fosse suficiente sofrer uma vez o agravo, a ofensa, o acidente, a perda, a mágoa, a violação, a injúria, ainda ficam repassando vez após vez e sofrendo tudo de novo. Gente assim vive em depressão. Não conseguem sair do buraco porque há sempre uma recordação para lembrar de como são infelizes. Há sempre uma memória para os levar para baixo. Por mais que as coisas corram bem, sempre haverá uma recordação a lamentar.

Há também muita gente que faz uso da lembrança para vingança. Muitas são as histórias de gente que sobreviveu a situações terríveis pela simples força de lembrar o agravo e planejar a vingança. Quando garoto gostava de ler “O Conde de Monte Cristo”. Edmundo Dantés vivia cada momento de sua vida respirando a vingança contra seus detratores. A fabulosa fortuna que adquiriu, o conhecimento incrível que lhe adveio do contato com o Abade Faria e mesmo o amor da bela Haydée não eram suficientes para trazê-lo de volta à vida. Vivia para recordar e se vingar.

Há gente que usa as recordações para se fechar e retrair. Seguindo a famosa filosofia de que “gato escaldado tem medo de água fria” essas pessoas permitem que as memórias desagradáveis as fechem a todas as possibilidades de nova vida. Não têm coragem de amar, de experimentar, de ousar, tudo porque um dia, no passado por vezes longínquo, sofreram com uma experiência dessas. Aquele incidente os fez retrair como a tartaruga e assistem então a vida passar.

Há ainda os que usam a recordação para se vangloriar. No passado tiveram vitórias, conquistas, resultados vantajosos, e então passam o resto de suas vidas a contar as maravilhas de então. “Quando eu fiz isto”, “quando eu era aquilo”, “ olhe que já fui importante, já andei com fulano, já fiz tal e tal coisa”. Para essas pessoas viver é na verdade recordar. Deixaram de ter conquistas, deixaram de lutar por vitórias, deixaram de sonhar. Vivem na recordação do que aconteceu há muito tempo. Foi bom e pronto. Foi!

E há então aqueles que aprendem a recordar como Davi. O Salmo 18 foi escrito quando finalmente David se viu livre de seus inimigos. E como usou ele as recordações? Ele fora desprezado pelos irmãos, deixou a família ainda adolescente, foi alvo de inveja e intriga, sofreu tentativas de assassinato pelo próprio sogro, sua esposa foi dada a outro, andou vagando por montes e grutas e teve que recorrer a vida no estrangeiro. Tinha boas razões para recordar e chorar, ficar deprimido e em baixo. Quem sofrera como ele em sua geração? Mas não foi de depressão as suas recordações.

Mas tinha razões para vingança. Saul e sua família o maltratara, os Zifeus o denunciaram, os filisteus o odiavam, Doegue o traiu, Nabal o desprezou... havia uma boa lista de gente com quem ele tinha contas a ajustar mas não foi de vingança a sua lembrança.

Com tudo o que sofrera e finalmente livre de seus adversários era hora de descansar e buscar uma boa sombra e uma casa junto a um ribeiro. Davi tinha muitas e boas lembranças que o podiam ter levado a se retrair, a confirmar que todo homem é traiçoeiro, que em ninguém se pode confiar, que a melhor coisa é ficar sossegado em casa. Mas não foi motivo para retração a sua recordação.

E quem podia se gloriar mais que Davi? Ele matara Golias, derrotara os filisteus muitas vezes, pegara um grupo de homens sem futuro e fizera deles uma tropa de elite, escapara a todas as armadilhas de Saul e fora chefe de guerra até entre seus inimigos. Podia perfeitamente sentar-se a sombra de seus sucessos e passar o resto da sua vida se gabando de vitórias tão magníficas. Mas não foi para se vangloriar que ele recordou.

No Salmo 18 Davi recorda tudo que viveu e rompeu em adoração ao seu Deus: “Eu te amo de todo coração, ó Senhor, fortaleza minha. O Senhor é o meu rochedo e o meu lugar forte e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; a força da minha salvação e o meu alto refúgio.” Tantos motivos para depressão, para vingança, para retração ou mesmo orgulho e, no entanto, Davi se volta para o louvor. Ele adora, ele exalta a Deus, ele testemunha da graça e da benevolência do Senhor. Que extraordinário! Será por isso também que ele era o homem segundo o coração de Deus?

Acredito que todos nós teremos motivos para sofrer diante de nossas lembranças. Creio que haverá motivos para desejar justiça a nossos adversários e para nos fecharmos um pouco mais. Creio até que teremos alguns motivos de orgulho olhando para trás e é bom que assim seja. Mas o crente verdadeiro olha para sua vida, recorda suas lutas e louva. Ao filho de deus cabe o louvor. Lançando sobre Ele as tristezas, largando mão de nossas mágoas, lançando a seus pés nossas possíveis coroas, louvamos com gratidão porque é Por ELE, e para ELE que vivemos e existimos. Soli Deo Gloria!
Related Posts with Thumbnails

Manual do Corão - Como se formou a Religião Islâmica

Como entender o livro sagrado do Islão?  Origem dos costumes e tradições islâmicas. O que o Corão fala sobre os Cristãos?  Quais são os nomes de Deus? Estudo comparativo entre textos da bíblia e do Corão.  Este manual tem servido de apoio e inspiração para muitos que desejam compreender melhor o Islão e entender a cosmovisão muçulmana. LER MAIS

SONHO DE DEMBA (VERSÃO REVISADA)

Agora podes fazer o download do Conto Africano, com versão revisada pelo autor.
Edição com Letra Gigante para facilitar a leitura do E-Book. http://www.scribd.com/joed_venturini