Lembro-me, certa vez, de ter sido convidado a ser vendedor/promotor de uma gama de produtos. A explicação era simples: havia toda uma gama de produtos de certa marca. Eram supostamente os melhores do mercado. Através de um sistema elaborado eu podia comprá-los e promovê-los. Tudo que eu gastasse e conseguisse que outros gastassem reverteria para mim. Se um dos meus compradores angaria-se mais vendedores também reverteria para mim. No fim, eu ficaria rico e quase não precisaria trabalhar. Resolvi ver como funcionava.
Numa bela noite veio então à minha casa uma advogada, que era nos seus tempos livres promotora do material, para me explicar melhor. Ela começou dando um testemunho curto e claro do tipo "antes disso" e "depois disso". Segundo a sua palavra, aquele produto mudara sua vida completamente e lhe trouxera razão de viver. O testemunho foi brilhante e convincente. Aquela advogada separara tempo de sua noite depois de um dia de trabalho para vir a minha casa dar seu testemunho. Quando ela saiu eu estava arrasado! Não restava nenhuma dúvida em mim que NÃO teria nada a ver com aquele material. O testemunho que ouvira deveria ter sido dado por mim, mas sobre JESUS e isso me envergonhara! O que aquela mulher viera fazer em minha casa eu deveria ter feito, mas sobre o poder do evangelho.
Num tempo de soluções rápidas queremos comida rápida, transporte rápido, comunicação rápida, educação rápida, informação rápida, remédios rápidos. Para nós hoje, rápido é bom, rápido é bonito. O problema é que queremos também relacionamentos rápidos, sabedoria rápida, mudanças de vida rápidas e isso não existe. Relacionamentos levam tempo para se tornarem significativos. Sabedoria só se adquire com o passar dos anos e o amadurecer das experiências. Vidas não se mudam de um momento para o outro. Vidas não se transformam num culto, num congresso ou num retiro, por melhor que seja, por mais famoso que seja o pregador e melhor que seja o louvor. Vidas são formadas por hábitos que se adquirem e se perdem com tempo, prática e paciência. Não são mudadas de um momento para o outro. É um processo que as muda, não um evento.
A Igreja tem sido culpada de criar crentes dependentes de eventos. Temos toda uma geração de viciados em eventos. Vivem precisando desses acontecimentos para "encher as baterias". Nunca aprenderam a se alimentar da palavra. Não sabem o que é vida de oração. Desconhecem as profundidades da comunhão e por isso dependem da emoção fácil dos eventos, que ameaça transformar, mas cuja mudança não passa da epiderme, não dura mais que alguns efervescentes momentos.

2 comentários:
jOED,
Me identifiquei contigo, e sei do produto que estavas a falar,sentimos exactamente a mesma coisa,na altura te dissémos.
Obrigado pelo artigo,sempre aprendemos contigo.
Um abraço.
Mizé
Obrigada por mais esse texto!
Sugiro que o coloquem no facebook. Há imensas pessoas que conheço (including me...) que
precisam ver estampado - escancarado - essas reflexões do Pastor Joed, que escreve o que resulta das suas reflexões e, SOBRETUDO, daquilo que observa.
Grande observador e corajoso em dizer coisas que as pessoas, se calhar, até sabem... mas que custa colocar em prática, pode ferir susceptibilidades, pode magoar, vai tirar a "importância" da emoção e do momento, etc...
Deus vos abençoe.
Lina.
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