Meus Natais Inesquecíveis!

O mundo ocidental vive um momento de frenesi  na época de Natal.  Todos querem comprar presentes, roupas novas,  fazer uma ceia em grande estilo, reunir ao máximo os parentes e amigos, afinal, é festa! É Natal!

Sozinho com meus pensamentos procuro me lembrar dos natais passados e tenho que fazer grande esforço para recordar o que comi e o que vesti na ocasião.  Curioso, essas coisas não me marcaram a lembrança,  porque  isso realmente não é o mais importante!  No fundo, nós nos lembramos mais dos natais de quando éramos crianças, não é mesmo?  E nestas lembranças não entram as roupas e as comidas, mas as impressões, os sentimentos, a alegria e o espírito de natal que sentimos então.

Creio que muitos irmãos e amigos lembram-se de um natal que passamos nos Açores, quando meus pais foram missionários na ilha Terceira.  Estava com 12 anos, e minha irmã Lília tinha apenas 8. O salário estava muito atrasado, pois naquele tempo o correio para as ilhas era muito demorado.  Mamãe já havia nos prevenido:
_ Queridos, neste ano não vai  dar para presentes, vamos fazer uma ceia simples e talvez, quando o salário chegar, dê para comprar alguma coisa.  Tenham paciência!

Lembro-me bem que nós, crianças, não ficamos nada satisfeitas e logo fizemos uma reuniào para resolver o problema...mas o que fazer?  Lília, em sua simplicidade de criança apenas disse:
_Vamos orar e pedir pra Deus nos dar um bom natal ?  Eu não quero ficar sem presentes neste natal!
Ok! respondi, vamos orar e esperar o que Deus vai fazer...você ora primeiro e depois eu termino...
E assim cada um de nós orou e pediu a Deus que fosse possível ter um natal, não era preciso muitos presentes, mas em nossa visão infantil  isso era muito importante!    Bem, Deus não nos respondeu imediatamente...e a ceia do dia 24  foi sendo preparada com o frango e purê de batatas, sem refrigerante, apenas suco de laranja...
Próximo das 16 horas  um amigo  americano, que trabalhava na base aérea das Lajes, bateu à porta. Inicialmente, não conseguimos ver seu rosto, pois na frente, havia uma enorme caixa de papelão!
_ Ho, Ho, Ho...Merry Christmas!  Feliz Natal!  Isto é para vocês!  Deus abençoe a todos!
E saiu tão rápido quanto entrou.  Ficamos um tempo sem perceber o que havia acontecido, quando mamãe começou a abrir a caixa e a chorar de alegria.

Dentro havia um enorme peru de natal, com muitas guloseimas acompanhando: refrigerante, bolo instantâneo, cookies de chocolate, nozes, castanhas e caramelos. Havia também roupa de cama, toalhas, livros e para nós...brinquedos!
Bonecas para Lília e carrinhos de corrida espetaculares para mim,  canetas e cadernos, jogos e muito mais coisas maravilhosas!  O peru da ceia rendeu até ao ano novo, de tão grande que era!  Juntos, à volta daquela caixa ríamos e chorávamos ao mesmo tempo. Aprendi que nosso Deus se preocupa com a oração das crianças e para nós esse foi um natal inesquecível!

Muitos anos mais tarde lembro-me de um natal também inesquecível, mas bem diferente, pois foi dos primeiros que passamos em Bafatá, na Guiné Bissau.  Andávamos na rua, no mês de dezembro e ninguém se lembrava que dali a uma semana seria natal.  Numa cidade onde 98% da população é muçulmana não há natal.  Não víamos enfeites nas janelas, nem música natalina  no ar.  No dia de  natal as lojas estavam abertas normalmente, pois não fazem feriado...o que fazer?  Como comemorar o natal numa terra onde nem sabem o que é?

Fizemos de tudo para que em nossa casa tudo lembrasse de maneira marcante o natal.  Ida, Analita e Gabriel desenharam e fizeram enfeites para a sala e conseguimos um pinheiro de verdade no projeto agrícola chinês, próximo à cidade. Foi curioso, porque eles também não se lembravam que era natal, pois a china comunista também não comemorava.  Ida embrulhou várias caixinhas de fósforo e rolos de papel higiênico para compor a base da árvore, que Gabriel insistia em querer abrir, pensando que eram presentes de verdade!

Havia muito pouco o que comprar na feira, mas fizemos o melhor possível! Ida correu atrás e procurou artigos para festejar a ocasiào. A ceia constou de biscoitos, salada de atum e um pequenino frango!   Com o gravador à pilha, colocamos música de natal todo o tempo!  Analita, com sua bela voz cantava e ensaiava um lindo hino.

A noite do dia 24 transcorreu à luz de velas, pois nosso gerador estava danificado! Sentei-me no chão e Gabriel foi sentar-se no meu colo.  Abri um grande livro com figuras e comecei a contar-lhe a história do Natal.  Para nós, os adultos, fiz uma pequena meditação e oramos, rogando a Deus sabedoria para conquistar o povo Fula, que nem se lembrava da vinda do Salvador.

Louvamos a Deus cantando todos os hinos tradicionais que nos lembrávamos.  Eu e Ida chorávamos emocionados enquando Analita cantava "É meia noite...instante augusto é este", meu hino preferido!
Sabíamos que nossas vozes eram ouvidas por toda a rua, pois no silêncio de Bafatá qualquer som é percebido.  De nossa varanda o som repercutia por toda a vizinhança e logo vimos que muitos meninos estavam quietos, escutando as canções na nossa varanda.

É difícil explicar a sensação que sentíamos... sabíamos que éramos os únicos da cidade a comemorar o Natal de Jesus.  Orava e Clamava:
_ Senhor, que um dia muitos desta cidade possam entender o que é o verdadeiro Natal!

Hoje, passados 12 anos deste primeiro natal alegro-me em dizer que neste natal será feriado em Bafatá.  Na feira,  já encontramos árvores de natal e enfeites à venda.  Na rádio o chefe da mesquita local avisa a todos que se quiserem, podem fazer a festa de natal, desde que não tomem bebidas alcoólicas nem comam carne de porco.  Muitas famílias  já comemoram o natal com frango e suco de laranja!  E na Igreja Batista de Bafatá, hoje com 150 membros, as comemorações duram todo o mês, com peças natalinas, cantatas, mensagens especiais e  encontros festivos.

O Senhor é Bom, e  no Natal devemos recordar Sua bondade e Misericórdia!
Desejamos que este natal seja realmente inesquecível!
A todos os queridos amigos e irmãos, um FELIZ NATAL!
     
                                          Joed, Ida, Gabriel e Rebeca   

4 comentários:

Dinê Lóta disse...

Joed, não posso deixar de comentar o seu texto, pois à medida que lia me lembrava da minha infância da mesma ilha em que você morou passando as mesmas dificuldades que você passou. De fato as lembranças da infância são marcantes, principalmente a de um urso de pelúcia que ganhei de sua mãe num dos primeiros natais no Faial. Lembro também dos encontros dos missionários em Portugal e das músicas que seu pai gostava de cantar com sua bela voz de tenor! Os tempos passam mas o Espírito de Natal, o Santo, esse fica para sempre em nossos corações nos movendo a comemorar a vitória de Jesus consumada na cruz do calvários e iniciada na manjedoura!
Um abraço forte!
Dininho

Claudia disse...

pastor e Ida
fiquei emocionada em ler seu texto também mas principalmente ao saber que hoje em Bafatá comemora-se o Natal!
louvado seja Deus por isso!
louvado seja Deus pelo que Ele fez, através dos irmãos, naquela terra!
Deus continue abençoando-os e usando-os

abraços ♥♥♥
Claudia Heiderick

Ida disse...

Querida Cláudia,
Fico muito feliz por ver que nos acompanha mesmo depois de tanto tempo. O Senhor é bom e tem nos guiado até aqui. É animador saber que os amigos não se esquecem e oram por nós. Obrigada pelo apoio e que Deus te abençoe!

Bizcocho Venturini disse...

Querido mano chorei ao relembrar esse Natal de quando éramos crianças. Só temos razões para louvar a Deus por todo Seu Cuidado conosco desde pequenos e tudo que segue fazendo por nós. Amo vcs. Com carinho Lilia.

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