CULTO A GOSTO DO CLIENTE?


O culto foi maravilhoso e ele saiu revigorado!
A experiência de cultuar em si mesmo fora extraordinária!
Ele se sentira tão bem! As palavras reafirmadoras dos dirigentes, as garantias de benção e prosperidade eram um bálsamo em meio às dificuldades.  A música e o louvor estiveram perfeitos, enlevando os sentidos e dando aquele sentimento de praticamente tocar o sobrenatural.  As coreografias das jovens no louvor tinham ajudado nessa sensação de êxtase espiritual e mesmo físico. Ele podia dizer com segurança que sentira deus, sua fé saíra reforçada e estava mais forte para enfrentar a vida.
Que culto abençoado!

A descrição anterior talvez o anime. Você quer saber onde fica essa igreja com cultos tão bons. Mas talvez já não se entusiasme tanto se lhe revelar que a declaração acima é do sentimento partilhado por um adorador de Baal na saída de seu templo... isso mesmo, o culto descrito foi tremendo... mas foi a Baal.

Baal era uma divindade de origem mesopotâmia que veio a se tornar um dos principais deuses da mitologia Cananéia.  Nessa mitologia, El era o deus supremo, mas no tempo de Israel se tornara um deus distante e pouco importante.  Baal com sua estória de morte e ressurreição representava o renascer da natureza.
Era o deus da fertilidade, da chuva, do trovão e relâmpago.
 Era ele quem fertilizava os campos e numa cultura essencialmente agrícola, tornou-se o deus preferido.

O culto a Baal constava de várias atividades. Sua adoração ocorria no alto de montes e morros mas também em templos elaborados. O adorador passava por um ritual de purificação que constava de lavagem em tanques sagrados à entrada do templo. No culto em si havia oferta de incenso e orações pedindo bênçãos materiais e sacrifícios animais e por vezes humanos para a fertilidade da terra. Os sacerdotes dirigiam as orações, faziam os sacrifícios e profetizavam prosperidade sobre os adoradores, em geral na medida exata do tamanho de sua oferenda. Havia cantos e danças rituais protagonizados por dançarinas e sacerdotisas e tudo em geral acabava com prostituição sagrada, pois a união sexual do adorador com uma das sacerdotisas simulava a fertilidade procurada no culto.

O sucesso desse culto entre o povo de Israel foi tão grande que a certa altura Elias se julgou o último adorador de Jeová restante (I Reis 19: 10). O povo do Deus verdadeiro desde o deserto do Sinai revelara uma forte tendência para cultos voltados para o adorador e não para Deus. Quando o Senhor desejou falar diretamente a seu povo este preferiu ficar com um intermediário (Êxodo 20:19). Quando o intermediário se demorou no monte logo prepararam um bezerro de ouro e um culto à sua medida (Êxodo 32). Um culto ao gosto do homem era o caso do culto a baal onde tudo era centrado na pessoa do crente. Tudo era feito para agradá-lo física e espiritualmente.

Analisando na Bíblia, verificamos que o culto ao Deus verdadeiro era bem diferente na medida em que se concentrava em Deus. No Antigo Testamento o culto constava de sacrifícios, ações de graças e festas. Os sacrifícios serviam para expiar os pecados e restabelecer a comunhão com Deus, as ofertas de ações de graças eram atos de louvor e gratidão ao Senhor que reforçavam a fé, e as festas eram momentos para recordar bênçãos do passado e louvar a Deus aumentando a confiança num Protetor que agia em prol de seu povo.



Com a destruição do templo de Salomão e a dispersão do povo surgiu um novo tipo de culto, agora nas sinagogas. Novamente o culto era concentrado em Deus. Constava de orações, leituras bíblicas e explanação das escrituras. Era um culto voltado para a recordação da pessoa de Deus e seu louvor. Visava levar o povo a um maior conhecimento da vontade de Deus expressa nas escrituras de modo a que não voltassem a cair em pecado como o que os levara ao exílio.

O cristianismo primitivo herdou tanto do templo quanto da sinagoga. Pelos escritos neotestamentários entendemos que o culto tinha alguns cânticos voltados à adoração e louvor, oração, profecia e por vezes línguas espirituais e explanação da palavra que ocupava o lugar central como Paulo frisava em sua primeira carta aos Corintios (I Corintios 14). Os crentes primitivos costumavam celebrar a ceia do Senhor em recordação da morte de Cristo e também fazer uma refeição em comum para fortalecer a comunhão (I Corintios 11:17 a 34).

Já no AT (Isaías 58:3 a 14) o Senhor enfatizava que o culto por Ele apreciado tinha a ver com uma vida consagrada. Deus não precisava de sacrifícios ou de oferendas. Queria vida consagrada! Era essa vida que cultuava mais que momentos isolados de adoração. Davi, considerado o grande salmista, um especialista em louvor, dava pouca importância aos sacrifícios. Ele os oferecia, evidentemente, como parte do culto estabelecido, mas nos seus 73 salmos só menciona sacrifícios (o culto formal) cinco vezes, sendo que quatro delas exatamente para dizer que o sacrifício verdadeiro para Deus não é o de animais no altar (Sal. 4:5; 40:6; 51:16 e 17; 141:2).

O culto moderno que vem tomando conta de nossas igrejas tem se afastado de forma clara da ênfase bíblica para se tornar cada vez mais um culto como o de baal. Pensemos um pouco nas razões para isso. O mundo moderno é marcado pelo individualismo ao contrário do coletivismo próprio do culto. A ênfase moderna é na satisfação pessoal mais que no contributo para a sociedade. Há um aumento crescente na oferta variada pois o homem moderno que escolher e mudar de idéia se assim quiser. Tudo isso leva a competição desenfreada que se nota em nossa sociedade.

Se notarmos com atenção, veremos que o culto moderno absorveu essa mentalidade. A preocupação parece ser no individuo. Gostou? Sentiu-se bem? Há dirigentes de louvor que fazem à congregação a pergunta famosa dos concertos de rock :_ estão se divertindo? O culto hoje é centrado no homem. Numa musica que agrade e enleve os sentidos até a ponto do hipnotismo e histeria de grupo. É preciso curtir o louvor, sentir-se bem. A busca de alternativas leva à competição entre músicos, grupos e bandas e até pregadores. Os "adoradores" vão onde se sentem melhor. Correm na busca de cantores e bandas famosos e do pregador da hora. Passamos a cultuar celebridades em nosso meio. Até as famosas dançarinas cultuais, tão próprias do paganismo, importamos para nossos templos, sem notarmos quanta sensualidade está envolvida nessa atuação.

A Igreja moderna tem se prestado a um culto que é mais próximo do de baal que o do Deus verdadeiro. O Senhor Jesus ensinou à beira de um poço de Samaria que a verdadeira adoração provêm do espírito (João 4: 23 e 24). A preocupação com sentir vem toldando nosso entendimento. A adoração requer entendimento e vida. Requer comunhão e espírito.

Basta olharmos para os coros que hoje cantamos e podemos ver claramente a mudança no modo de adoração moderno. Os hinos antigos tinham conteúdo. As letras eram ricas e inteligentes, verdadeiros sermões cantados. Ainda hoje temos poetas e músicos de Deus em nosso meio que compõem musicas que são de fato uma adoração inteligente. Mas o que faz sucesso nas igrejas são cânticos repetitivos, com letras vazias de sentido, escritas por famosos cujas vidas nem sempre servem de exemplo à igreja.

O tipo de culto adotado por boa parte da igreja de Jesus de hoje leva os crentes a uma dependência emocional e psicológica da injeção de ânimo semanal. É um culto que perpetua a anemia espiritual que domina nossos arraiais e que está voltado para a auto-ajuda e não para o Senhor do Universo.

Você tem saído animado do culto, mas percebe que essa animação acaba na segunda feira?


Fica tão cansado no fim do período de louvor que já não consegue se concentrar direito na palavra?


Precisa de um louvor especial para "sentir" a presença de Deus?


Fica aborrecido quando a equipe de louvor não toca seus cânticos preferidos?

Se respondeu positivamente a uma ou mais dessas perguntas é sinal que pode estar sofrendo dessa doença do culto feito ao gosto do cliente.

Pensemos nas características de um culto centrado em Deus e que seja digno da adoração ao Senhor de toda Terra.

1)Experiência:


Adoração tem a ver com elogio, falar bem, louvar, bendizer. Não se pode elogiar o que não se conhece. É hipocrisia falar bem de algo que não experimentamos. Se uma dona de casa faz sua especialidade para você e você não come, não vale a pena elogiar a comida. Ela não vai aceitar o elogio porque você não experimentou. Já, se comer e repetir 3 vezes, é natural que a cozinheira aceite qualquer elogio, porque você não só provou mas experimentou de verdade.

O culto de domingo começa na segunda feira. Passa por cada dia da semana, por cada experiência em que escolhemos viver com Deus ou sem Ele. Se vivermos com Deus durante a semana é natural que o queiramos adorar no domingo e é natural que Ele aceite essa adoração. Quando isso acontece nosso culto é voltado para Deus e não para nós. Nem ligamos muito para a ordem do culto ou a escolha das musicas. Quando tenho uma vivência real com o Senhor a adoração flui com naturalidade e não necessita de músicas especiais ou momentos de enlevo emocional para fluir. Não vou ao culto propriamente para ser abençoado, mas porque fui abençoado. A benção não se limita ao templo e às palavras do pastor. É algo real, cotidiano em nossas vidas. O culto é o lugar onde posso agradecer de modo especial, louvar e testemunhar das bênçãos já recebidas.

2- Comunhão:


O Senhor nos criou para vivermos com Ele mas também em comunhão com outros.   A Igreja deveria ser o lugar em que a humanidade volta a ser o que poderia ser sem o pecado. Na igreja, o egoísmo próprio da vida pecaminosa dá lugar ao amor fraternal e a um verdadeiro interesse nos irmãos.
Quando isso sucede o louvor é diferente.
Não vamos ao culto apenas para nos sentirmos bem ou para sermos abençoados, mas para compartilharmos as bênçãos e sermos benção. Quando aprendemos a viver como o Senhor deseja, entendemos que nossas vidas são para o louvor de sua glória e a benção de outros ao nosso redor. Logo, o culto se torna lugar de benção, de sensibilidade às necessidades alheias, de ajuda espiritual, de consolo e fortalecimento dos irmãos. Num ambiente assim a adoração é verdadeira e se torna benção muito maior que o simples sentir-se bem.

3- Palavra:


No culto bíblico a palavra sempre teve lugar preponderante. Quando vemos o suposto "louvor" tomando o lugar da palavra entendemos que as emoções dominam e os propósitos de Deus vão desaparecendo. O culto é lugar privilegiado para ouvirmos a voz de Deus. Isso acontece nas orações, nos cânticos, na comunhão e partilha com os irmãos, mas de forma muito particular e especial na pregação da palavra. A profecia tem que manter sua centralidade num culto verdadeiro. Afinal o culto é ao Senhor. O que haveria de mais importante que ouvir sua palavra? Como viveremos sua vontade de outro modo? Como saberemos sua orientação de outra forma? O servo de Deus que usa da palavra tem a responsabilidade de falar pelo Senhor. De transmitir o que o Senhor deseja para a sua igreja. É absurdo o que hoje se verifica em tantas igrejas onde após o "louvor" muitos deixam o salão de cultos. Dizem que vão adorar a Deus e justamente na hora em que ELE vai falar saem. Isso em termos humanos seria considerado comportamento vergonhoso e ofensivo. Certamente também é num culto sério e genuíno.

4- Objetivo:

O culto deveria ter o objetivo de nos mostrar a orientação de Deus. Se andarmos com Ele durante a semana, o culto é como um encontro de amigos ou uma reunião de trabalho em que o Senhor mostra aos seus servos os planos para a continuação da obra. Entrar e sair do culto sem entender o que Deus queria nos dizer é perder a noção do objetivo do culto. A adoração verdadeira está unida ao propósito. Entender a soberania do Senhor do Universo que merece adoração implica na busca de sua vontade, na procura de seus caminhos. O culto verdadeiro não visa me fazer sentir bem, mas conhecer melhor meu Deus e servi-lo de modo mais pleno no conhecimento de sua vontade. Um culto assim é um culto com propósito, com objetivo. Não voltado nas minhas necessidades, mas na vontade de Deus. Não centrado na minha prosperidade, mas no estabelecimento do reino de Deus na terra.

O culto que descrevemos certamente será um culto abençoado.   Um tempo onde louvo ao Senhor com quem vivi a semana toda, onde fortaleço minha comunhão sendo benção para meus irmãos, onde ouço a voz de Deus e ganho mais entendimento de seu propósito para minha vida, é um culto rico e que enche nossas vidas de sentido e alegria.   É um culto centrado no louvor do Senhor e como essa é a razão da nossa existência será um culto verdadeiro.

Pr. Joed Venturini de Souza

7 comentários:

Rodrigo disse...

Graça e paz!
Uma palavra abençoada, essa é uma realidade vivida nos dias de hoje, prescisamos rever o conceito de culto ao SENHOR JESUS, e voltar as escrituras!
como ministro dde musica aprendi muito, fui alertado pelo Espirito Santo e quero mudar minha ideia de adoraçao congregacional!
Q o Senhor abençoe sua vida e continue te dando palavras abençoadas!
meu imail---- rodrigo.music@hotmail.com
obrigado, a paz!

Dr. Joed Venturini disse...

Caro Rodrigo: A necessidade de rever nossa forma de culto passa por muitas vertentes. O próprio conceito de espiritualidade está mudando num mundo que vai indo além do pós-modernismo e buscando novamente o mistério da vida com Deus. Precisamos deixar de temer a espiritualidade mas enfatizar a vida com Deus e centrar a adoraçào naquele que é a razào de nosso culto. Obrigado pela participaçào. A paz de Cristo

Ida Venturini disse...

Agora ficou mais fácil publicar seu comentário. Queridos amigos do Blog, NÃO BASTA LER...É PRECISO PARTICIPAR!!
Nosso desejo é que estes artigos sejam bênçào para todo o povo de Deus.

Claudio Chagas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Obrigado pelo artigo. Certamente esse texto é uma das formas de Deus falar à Igreja Brasileira, tão doente, rasa, superficial, supersticiosa, humanista e desorientada. Sinto que o Senhor também têm me dado a incumbência de falar em nome Dele sobre essas coisas por onde passo. Só a misericórdia... é uma missão que vai ser dificultada à medida que a igreja desobedecer a Palavra e continuar em direção errada. Ai dos profetas nesse tempo. Que o Senhor tenha misericórdia do Seu povo. Semana passada estava em SP e visitei um grande evento "evangélico", com muitos estandes, editoras, livrarias etc... estando lá meu coração se entristecia em ver os "altares" (estandes) de todos os tipos de "semideuses evangélicos" (estandes de promoção de determinados "pregadores" com ministérios próprios, chegando a ter até boneco de papelão, grandes cartazes nitidamente autopromocionais do profeta fulano de tal, apóstolo "x", cantor beltrano...). Onde estamos indo com tudo isso? Estamos nos afastando no "Princípio regulador do culto", da Razão da existência do povo de Deus. Penso que estamos caminhando para um nominalismo evangélico crônico (se é que já não estamos vivendo isso!!!).

Com seu artigo, me lembro do livro "Com vergonha do evangelho" de John McArthur.

I.S

Anônimo disse...

GRAÇA E PAZ JOED, AMEI O TEMA CULTO AO GOSTO DO CLIENTE, PRECISAMOS ATENTAR A TODOS OS DETALHES AO NOSSO REDOR, SOU DA CIDADE DE GUARULHOS - SAO PAULO - MINISTÉRIO VERBO VIVO
DEUS ABENÇOE SUA VIDA!!!!

Cleide

Joed Venturini disse...

Cara irmã Cleide, muito nos alegra sua participação. Este é um tema que muitos autores têm enfatizado, mas que continua e sempre a ser pertinente e urgente uma auto-avaliação de forma como os cultos estão a ser prestados nas igrejas do Brasil.Muito tem sido feito em nome da extravagância e para chamar "fiéis". Procuramos a simplicidade e profundidade.

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