SONHOS REVELADORES


Joed Venturini de Souza


A expressão de meu interlocutor era séria e um pouco aflita. Eu o conhecia como um muçulmano dedicado, orgulhoso de sua religiosidade e avesso ao evangelho. Não estava preparado para ouvi-lo dizer:
_ Pastor, eu tive um sonho... e preciso que o senhor me ajude a saber o seu significado.
Aquilo sim era novidade! Como responderia? No seminário não havia cursado nenhuma matéria com o título: “Interpretação de Sonhos". O mais próximo disso que me lembrava era de alguns conceitos freudianos nas aulas de Psicologia na Faculdade de Medicina, mas pareciam totalmente inapropriados para a ocasião. Senti-me como José no Egito ou Daniel na Babilônia, totalmente dependente de Deus. Precisava urgentemente de sua orientação!

Na verdade, eu não deveria ter me admirado nem me assustado tanto diante da busca pela interpretação de um sonho. Os missionários na África em geral, e entre muçulmanos em particular deveriam estar preparados para essas coisas, pois são comuns nesse contexto. Os testemunhos são incontáveis.

Sabemos que os Elgon da República Centro Africana acreditam que devem sempre contar seus sonhos “marcantes” para toda a comunidade, numa espécie de catarse (FORD 1999:viii), os Ashanti da Costa do Marfim creem que seus ancestrais se comunicam através dos sonhos enquanto seus nomes forem lembrados (FORD 1999:22) e os mitos Yoruba da Nigéria narram a respeito de vários sonhos proféticos que são levados à prática na macumba (FORD 1999:152).

Os Gikuyu, do Quênia, creem que seus chefes são instruídos por meio de sonhos, sobre a ocasião propícia para fazer os sacrifícios anuais da tribo (MBITI 1970:75). Os Nuba, do Sudão, entendem que Deus fala com os fazedores de chuva em sonhos (MBITI 1970:154). Os Sonjo da Tanzânia acreditam que o sacerdócio de sua tribo começou com um homem que Deus convocou em sonhos, e é dessa forma em que ainda hoje se conhecem os novos sacerdotes (MBITI 1970:221). Os adivinhos dos Turkana, do Quênia, recebem sonhos proféticos que os ajudam a provar o futuro (MBITI 1970:223) e os Ndebele, do Zimbábue, creem que os sonhos são uma forma dos mortos se comunicarem com seus parentes (MBITI 1970:267) enquanto os Lozi, da Zâmbia, sabem que depois de um sonho significativo devem fazer certos rituais há muito prescritos (MBITI 1969:82). Para a maioria dos africanos, como os Konkombas, do Gana, “sonhos e visões fazem parte da experiência humana no mesmo nível que fatos acordados”(LIDÓRIO 1998:12).

Entre povos muçulmanos a realidade não é diferente e eles entendem os sonhos como altamente significativos. Basta recordar que o seu profeta recebeu suas primeiras revelações por meio de sonhos (ARMSTRONG 2002:96). Sua famosa viagem, em que foi levado aos sete céus no cavalo celeste Buruq, é vista como uma visão recebida durante um sonho (ARMSTRONG 2002:259).

Várias etnias muçulmanas valorizam especialmente os sonhos. Os Taurug, das Filipinas, entendem que seus curandeiros são chamados a se envolverem nessas artes por meio de sonhos (MUSK 1989). No Sudão se prevê o futuro por meio da interpretação de sonhos e no Turkistão o curandeiro dorme na casa do doente a fim de receber, em sonhos, o diagnóstico e o tratamento (MUSK 1989). Os Kabyla, da Argélia, colocam comida na sepultura de um parente morto com quem sonharam e no Paquistão muitos santuários foram construídos por revelação direta de sonhos (MUSK 1989). No Marrocos as capelas dos santos muçulmanos são locais de peregrinação onde muitos fiéis dormem para obter sonhos especiais (GEERTZ 2004).

No contexto particular na África Ocidental temos descoberto que é comum entre os Mandingas contar os sonhos que se recordam bem às pessoas de sua convivência, pois acreditam que, ao fazê-lo, os sonhos poderão ser entendidos e fazendo isso podem obter proteção contra qualquer coisa má que esteja para acontecer. Já entre os pastores Fulas, do Mali e Senegal, há um líder espiritual que recebe o título de Silatigui. Ele é um chefe de iniciação mística que entre outras atribuições designa os pastores que devem guiar os rebalhos a cada novo dia, e o faz por meio de premonições vindas dos sonhos da noite anterior (BÂ 1994:356). Nos contos tradicionais Fulas é comum que os personagens principais recebam intruções, premonições e previsões através de sonhos (BÂ 1994:52).

Em outras circuntâncias os africanos sabem também que os espíritos podem se comunicar com as pessoas e creem que eles podem fazê-lo de várias maneiras, inclusive por meio de sonhos (O’DONOVAN 1994:209). As pessoas esperam que os sonhos mostrem a solução de problemas e enigmas ou que revele os desígnios do coração (VAN DER MEER 1995:30).

O próprio Cristianismo africano não tem estado alheio a isso e são várias as igrejas independentes africanas que foram fundadas depois que seus profetas tiveram revelações em sonhos especiais. Talvez a mais conhecida seja a Igreja Aladura da Nigéria, cujos profetas fundadores Joseph Shadare e Josiah Oshitele tiveram sonhos proféticos (SANNEH 1983:184). Todo avivamento Aladura enfatiza esse tipo de sonhos. A Igreja dos Querubins e Serafins, também com início na Nigéria, defende o uso de sonhos e visões como confirmação da vontade de Deus (SANNEH 1983:191).

Diante de tantas evidências, fica claro que os missionários ocidentais devem estar mais bem preparados para lidar com esta realidade africana e muçulmana, se quiserem atuar verdadeiramente integrados em seu meio e serem relevantes em seu ministério.

Mas, como os missionários farão isso? Como ultrapassar os preconceitos e o medo do místico desconhecido? Isso afeta minha família? Em que os sonhos podem contribuir para o crescimento do meu ministério?

Continuaremos na próxima semana... até lá!

3 comentários:

aviatorone disse...

Muito interessante! Fizeste uma ótima pesquisa. Mas não é a pior coisa que existe quando alguém quer te contar sobre o sonho que teve na noite passada? :-)

Interprete este sonho: "Had a dream that I was on airforce 1 with president Obama and had to make an emergency landing."

educacao disse...

Acho que não devemos glamorizar todos os sonhos, nem demonizar, mas se sonhamos com algo que nos serve de alerta é sempre bom ficarmos atentos, pra não nos arrependermos depois. Agora ficar adivinhando o sonho dos outros é que é perigoso... só se sentir que Deus lhe deu este dom.

Leonardo Martins disse...

Até aqui está interessante. Aguardo a semana que vem para comentar.

PS: Gostei de imagem acompanhado o texto. Ida, parabéns!

Leonardo Martins

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