O PASTOR QUE PRECISAMOS!

CARÁTER OU CARISMA?
A crise tem atingido a Igreja e o Ministério e hoje, mais do que em outros tempos procura-se pastores. Igrejas procuram, ovelhas procuram, até pessoas de fora da igreja procuram. Mas, que tipo de pastor?
Hoje muitas vezes, quando se trata de uma sucessão pastoral os critérios para a escolha de um pastor passam por um bom currículo (leia-se: ter sido pastor de igrejas grandes), fama denominacional, títulos (quanto mais, melhor), pregação agradável, nível salarial aceitável e sucesso no ministério anterior (leia-se: número crescente de membros na igreja anterior). Mas será que é isso que precisamos num pastor? Pensemos naquilo que realmente fará a diferença no reino espiritual:

1)Compromisso com Deus
Precisamos de um pastor que tenha, acima de tudo, um compromisso com o Senhor. Um homem com uma vida de oração marcante, que conhece o jejum e a intercessão, que separa tempo para ouvir o Grande Pastor em primeiro lugar. Normalmente as igrejas não contabilizam as horas de oração que seu pastor gasta por semana, mas esse deveria ser o primeiro critério de seleção.

Poderemos notar esse compromisso na formação da agenda: esse pastor é do tipo que marca as coisas porque há espaço na agenda ou ora primeiro antes de aceitar novos compromissos? Decide a linha ministerial por livros de sucesso no mercado ou depois de um tempo de busca do Pai? Enfatiza o uso de técnicas sociais na vida da igreja ou dá importância à oração da congregação? Prega de acordo com os temas da moda ou daquilo que tem convicção que o Senhor lhe mandou?

Se procurarmos bem, saberemos onde achar essas respostas. Não virão no boletim da igreja, nem possivelmente da liderança da igreja. Há que procurar mais perto, na esposa, filhos, amigos, vizinhos, funcionários da igreja que convivem no dia a dia com o homem de Deus . São esses que conhecem seu comportamento sob pressão. São esses que o vêem quando as luzes estão apagadas. São esses que nos poderão confirmar ou não o compromisso do homem com seu Senhor.

2) Compromisso com a Palavra
Precisamos de um pastor que tenha um compromisso vivo com a Bíblia. Que a veja como o livro de Deus, inspirado pelo Espírito Santo, enviado pelo Senhor como revelação direta de seu Ser e sua vontade para a vida humana. Esse compromisso tem que se mostrar na prioridade do estudo e meditação da Palavra. Um pastor que não tem tempo para ler a Bíblia está em maus lençóis.

O compromisso bíblico se revela da vida e na pregação. Numa vida pautada pelas orientações bíblicas, que faz decisões baseadas nos princípios da Palavra, que tem as prioridades definidas pelas escrituras e que não condescende para agradar. Mas também numa pregação em que a Palavra é central. Estamos cheios de sermões/ discursos de auto- ajuda, que falam de tudo e de todos, que usam técnicas de psicologia e outras ciências sociais mas que não alimentam porque não saem da revelação escrita.

Um pastor bíblico corre o risco de ser considerado um tanto retrógrado, um quadrado ou antiquado, mas trará à vida de seu rebanho o alimento verdadeiro que refrigera e dá orientação segura para as escolhas do cotidiano.


3) Compromisso com a Família
Precisamos de um pastor que saiba colocar seu casamento e sua família na ordem certa das prioridades do ministério. A Bíblia nunca pediu o sacrifício de matrimônio e de filhos no altar do ministério. Um casamento feito na orientação divina é o maior apoio para um pastor dedicado. Os filhos são benção de Deus e não empecilho para a ministração. Os que compõem a casa do pastor são seu primeiro e mais precioso rebanho.

Quando Paulo orientou a Timóteo na escolha de líderes para as igrejas, deu ênfase na família.  Deveriam ser maridos e pais cujo testemunho pudesse servir de base ao ministério. Perdemos a confiança quando vemos pastores cujas esposas não aguentam ouvir seus sermões e filhos que preferem o mundo à igreja. Um compromisso com a família é relativamente fácil de verificar. Veja seu casamento, entreviste seus filhos. O que têm a dizer sobre o pastor? Esse não tem sido um dos critérios muito procurados, mas é biblicamente um dos mais importantes no pastor que precisamos.

4) Compromisso com as Ovelhas
Precisamos de um pastor que entenda o que significa cuidado pastoral. Antes de ser benção no púlpito há que ser benção nas casas, no escritório, nos contatos pessoais. É aqui que muitos pastores se perdem. São ótimos de púlpito diante das multidões, mas não têm tempo para o discipulado e o acompanhamento. Pastores só serão pastores quando as ovelhas perceberem seu cuidado.

Precisamos regressar às décadas passadas para conhecer os pastores de então. Não é que não os encontremos hoje, mas é mais difícil. Hoje os pastores são avaliados por critérios públicos e a maioria das coisas que realmente fazem o pastor que precisamos são bem particulares como oração, estudo da Bíblia e aconselhamento. Pastoreio pode até acontecer do púlpito, mas acontece mesmo é nas conversas individuais, no discipulado, nas visitas e nas horas de aconselhamento.

Conclusão: Recentemente um seminarista me entrevistou acerca do ministério e o que seria mais importante, carisma ou caráter? O simples fato de precisar fazer a pergunta me entristeceu. Não deveria ser óbvio? Parece que não. Na vida ministerial (e em tudo o mais também) o caráter tem primazia sobre qualquer tipo de carisma. Caráter sem carisma pode fazer um grande ministério. Talvez pouco notório, mas seguro, valioso, agradável a Deus. Carisma sem caráter pode até levantar muita poeira, mas será só isso mesmo, poeira.

Caráter é vida, carisma é Show. 
Caráter é fundamento, carisma é decoração. 
Caráter é constância, carisma é explosão.
Caráter é fruto de comunhão com Deus, princípios claros e perseverança no caminho.
Carisma é genética, temperamento e muitas vezes manipulação. Junte os dois com base no caráter e poderá ter um grande líder, mas prefira sempre o caráter ao carisma.
... 
Quando tudo for pesado e avaliado, as luzes da festa estiverem apagadas e cair o pano, quando chegar a hora de uma avaliação real e duradoura, o pastor que precisamos é aquele de quem se possa dizer: Era um Homem de Deus!
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(Se gostou, apreciou ou sentiu empatia com esta meditação saiba que nas próximas semanas falaremos sobre a Igreja que Precisamos, o Sermão que Precisamos e o Louvor que Precisamos)


AMARGURA - Como a Fé na Justiça Divina nos ajuda a vencer a amargura


Os exames da faculdade de medicina eram orais e eram abertos. Muitas vezes assistíamos às provas uns dos outros até por solidariedade. Os exames de Psicologia Clínica foram abertos, e nós vimos as provas uns dos outros. Fiz uma prova boa e respondi com segurança na mesma medida dos demais colegas. Mas, na hora de dar a nota, eles receberam 16 e 17 e eu 12. Veio a revolta. Porque isso? Porque tinha me mostrado cristão e contrariado várias das teorias da professora. Mas eu sabia a matéria e respondera bem. Era injusto receber aquela nota. Era perseguição e prejudicava meu futuro em termos de média e colocação. O que fazer quando isso acontece?
O que fazer quando somos claramente lesados por pessoas más que nos querem mal? E quando somos tratados de forma injusta e recebemos mal pelo bem que fizemos? E quando há evidente perseguição contra nós pelo fato de termos um comportamento cristão? Estamos falando de coisas pequenas comparadas com ataques brutais que muitos irmãos em Cristo sofrem no mundo perseguido. E o que fazer quando os governantes são maus e matam os crentes? O novo testamento foi quase todo escrito sobre esse panorama. E o que nos foi dito? Para vencer a amargura e não deixar que ela nos torne azedos. E como?

Se possível, vivam em paz com todos. Paulo escreve isso a igreja que morava no centro do império e sentia a corrupção de perto. Ele escreve para uma igreja que era perseguida e em breve seria dizimada pela maldade de imperadores loucos. Nesse contexto mais que difícil ele dizia: ”Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.” Romanos 12:18. Isso quer dizer que devemos da nossa parte trabalhar no sentido de não dar lugar a inimizades. Se antagonizarmos de propósito não podemos depois dizer que fomos perseguidos. A nossa parte é fazer tudo para ter paz. Essa é nossa parte. E se não funcionar?

Não retribuir mal por mal. A reacção natural é revidar. Essa é a resposta do homem natural e que o mundo entende e aplaude. Mas é outra a regra bíblica. “Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, tanto uns para com os outros, como para com todos.” 1 Tessalonicenses 5:15. A retribuição só leva a escalada da situação. Quando nos fazem mal a primeira coisa é não retribuir ou estaremos nos colocando no mesmo nível. E então o que fazer?

Dar a outra face. 
Esse foi o ensino claro do Mestre. Jesus não nos deixou palavra filosóficas intrigantes para decifrar. Ele foi bem prático e direto. “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.” Mateus 5:38-41. Jesus não vivia um tempo fácil. Estava cercado de gente que se fazia inimiga. Foi perseguido pelos seus e pelos de outras terras e no entanto nos ensinou a ter essa resposta. Essa é a resposta cristã.

Abençoar quando a vontade é amaldiçoar.
 “Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.” Romanos 12:14. Amaldiçoar é a reacção da carne, do homem natural que não pensa, não faz nada a não ser reagir como animal. Somos convocados a ter outra resposta e a reagir mais ainda. Não é só a politica de não-violência de Gandhi ou de Martin Luther King, é mais que isso. É fazer mais ainda. É abençoar os que nos querem mal. E como fazê-lo?

Orando por eles
Foi o Mestre quem nos mostrou na prática como fazer pois ele o fez e disse como fazer. Seu ensino foi: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;” Mateus 5:43-44. Abençoamos quando oramos pelos que nos fazem mal e essa arma é tão tremenda porque o inimigo não a pode bloquear. Nem o maligno e nem os que nos odeiam. Não podem evitar que os abençoemos orando por eles. E ainda mais…

Trabalhando para a sua salvação. 
Note o que Paulo dizia fazer pelos que o perseguiam e queriam matar: “Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação.” Romanos 10:1. A verdadeira vitória contra o mal não é a morte mas a salvação. Queremos derrotar nossos inimigos? A maior derrota para o mal é quando alguém que perseguia o cristão aceita o evangelho. Por isso a história de Paulo é tão marcante. É possível. Deve ser nosso alvo.
Devemos relembrar que estes escritos não vieram de gente que vivia nos EUA em casas de classe média alta com excelente qualidade de vida. Jesus ministrou e amou até morrer em tortura. Paulo escreveu muitas vezes da cadeia. Eles sabiam o que era sofrer mas também o que era serem dirigidos pelo Espírito de Amor de um Deus justo. 

O que nos esmaga muitas vezes é a sensação de justiça que nos apela a agir. Sentimos que temos razão e que o outro não merece perdão e isso nos faz afundar na amargura, na auto comiseração. Mas quem somos nós para exercer justiça? Quem somos nós para falar sobre merecimento? Na verdade o Senhor nos livra do peso terrível de ser juízes e executores. Nos livra de fazer muito mal a nós mesmos e aos nossos na sede de vingança que sempre excede os limites. 

A capacidade para vencer o mal dessa maneira vem de 3 fontes principais: 
O exemplo extraordinário de Jesus. 
Quem sofreu mais do que ele? Quem sofreu mais injustamente do que ele? E no entanto a palavra nos diz: “Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” 1 Pedro 2:21-24. E nós recebemos não só o seu exemplo mas a sua capacitação, o seu Espírito em nós a sua mente para ser a nossa. É nele que podemos encontrar a capacidade para viver assim, bem acima do padrão do mundo.

A certeza da Justiça Divina. 
Temos a confiança de que o Senhor, de forma perfeita e perfeitamente justa irá tratar de todas as ofensas, todas as maldades, todas as coisas que nos entristeceram. Jesus nos garantiu essa justiça: “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça”… Lucas 18:7-8ª. O Apostolo Paulo reiterou essa certeza aos Romanos: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.” Romanos 12:19. Mais tarde, um livro inteiro foi escrito segundo a revelação de Deus para que a Igreja soubesse, em meio a tribulação e perseguição tremenda, que o Senhor faria justiça sobre seus adversários. Eis como é descrita a queda dos maus e inimigos da igreja: “Alegra-te sobre ela, ó céu, e vós, santos apóstolos e profetas; porque já Deus julgou a vossa causa quanto a ela.” Apocalipse 18:20. Era alegria porque a Justiça de Deus triunfava.

Mas a última e mais forte razão para termos a atitude que a Palavra ensina é o facto de que nós também recebemos o perdão da nossa ofensa e do nosso mal. 
Nós também merecíamos a pena, o castigo e fomos salvos, libertos, resgatados pelo sacrifício de Jesus. Eis como Paulo colocou essa verdade quando escreveu aos irmãos de Éfeso igreja que logo sentiria o peso da perseguição. “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.. Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave.” Efésios 4:31 a 5: 2

Somos assim chamados a deixar a amargura que nos persegue e que pode nos fazer tanto mal e a confiar na graça e justiça de Deus seguindo o exemplo de Jesus na gratidão pelo seu amor e perdão. Deixemos de tentar ser juízes e executores. Larguemos mão da vingança. Deixemos de carregar o fardo do querer mal e entreguemos ao Senhor. Ele nos capacita para isso. Que o seu perdão possa se tornar o padrão para o nosso. 


A IMPORTÂNCIA DA RESSURREIÇÃO



Entre as religiões que o mundo conhece nestes milénios de História, o Cristianismo é a única que faz a extraordinária alegação de que o Deus Supremo, Criador dos céus e terra, se fez homem para a salvação da humanidade. E essa alegação se baseia no evento capital do Cristianismo – a ressurreição. Se a cruz é o momento chave da salvação pois nela Jesus ganhou a nossa justificação e pagou pelos nossos pecados, a ressurreição é sua necessária confirmação. Sem a ressurreição a morte de Jesus passa a ser apenas um ato heróico de mais um mártir na história, ou a execução necessária de uma fraude terrível, ou mesmo a morte patética de um louco totalmente enganado. Mas com a ressurreição, a cruz passa a ser aquilo que o Cristianismo diz que ela é – a morte redentora do Filho de Deus, Deus feito homem.
Será por isso que os 4 evangelhos enfatizam tanto o relato da ressurreição e também por isso que a igreja nasceu com a alegação dos discípulos sobre a ressurreição de Cristo. Logo, Paulo pregava a ressurreição onde ia, mesmo sabendo que no mundo grego e romano isso era considerado impossível e indesejado como podemos ver na passagem de Paulo por Atenas. E é por isso que Paulo fica tão indignado com aqueles que em Corinto punham em causa a ressurreição:
Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?
E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.
E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.
1 Coríntios 15:12-19
Em meio a todas as dificuldades que a igreja de Corinto passava ainda havia mais esta: alguns negavam a ressurreição. Se olharmos para a composição da igreja em Corinto é provável que a maioria fosse grega com alguns romanos e judeus. Para os judeus a ressurreição era possível tendo em conta o AT, mas não era considerada verdadeiramente como real. Um ou outro caso de ressuscitação podia acontecer, mas não era bem a mesma coisa (ressuscitação é quando um morto volta à vida, mas depois de um tempo vai voltar a morrer e ressurreição seria o regresso de alguém depois de morto com um corpo preparado para a eternidade). Já entre gregos e romanos isso era impossível. Na cultura clássica, na filosofia de Platão, a alma era considerada imortal, mas o corpo era considerado maligno. Era a prisão da alma. Logo, a morte era um tipo de libertação. Era uma das razões para a cremação, libertar a alma do corpo. Tudo o que era material era considerado mau e nesse sentido a ressurreição era uma tolice impossível visto que na morte a alma ficava livre e certamente não desejaria voltar a sofrer num corpo maligno. E é provável que na igreja em Corinto houvesse crentes vindos de alguma escola filosófica grega que ensinava isso e que por isso negavam a ressurreição. Paulo reage com veemência e temos que notar em sua argumentação a importância capital da ressurreição para o Cristianismo.
Primeiro notamos o risco de uma afirmação ou doutrina que pode parecer inofensiva, mas que terá implicações tremendas. A aceitação de algo que é senso comum na sociedade em que se vive pode ter consequências fatais para a fé. Os que falavam em Corinto não negavam diretamente a ressurreição de Jesus. Apenas negavam a ressurreição seguindo o que era a noção da sua época. Mas se não havia ressurreição, logo Jesus também não ressuscitara. Era implicação lógica e imediata. E vemos como há que ter cuidado com o que diz e ensina por causa das implicações do ensino como era o caso aqui. Notemos por exemplo em nossos dias algumas alegações comuns que podem parecer menores, e que alguns até acham boas, mas que colocam em causa toda a fé cristã:
         Alguns, que até se consideram simpáticos à fé, dizem que Jesus foi um grande Mestre, um filósofo notório, o maior psicólogo de todos os tempos. Pode parecer simpático e até agradável, mas não nos enganemos. Se Jesus é apenas um mestre então não é o salvador. Se é apenas um filósofo então não era o filho de Deus que veio para nos resgatar. Alegação banal, implicação fatal.
         Há aqueles que afirmam com base na ciência que o homem é produto de uma evolução. Não houve criação e nem desígnio. Simplesmente uma ameba um dia resolveu ser mais que isso. É claro que cientificamente há muitos buracos na teoria, irreconciliáveis mesmo com a boa ciência. Mas a repetição incessante e a campanha já de décadas da média leva o homem a aceitar isso. E alguns dirão: isso é ciência e a igreja não tem nada a ver com isso. Mas se não há criação então não há propósito para a vida, não há Deus. Logo não há base real para a noção de justiça, de bondade, de algo certo e errado. Alegação aparentemente simples, implicações dramáticas.
         Há ainda a moda de afirmar que os evangelhos não são confiáveis. E surgem outros evangelhos que contariam uma história diferente e que apresentam um Jesus casado e com filhos, um homem bom que nada tinha de sobrenatural. E é claro que essas alegações são infundadas, os que as fazem não conhecem a verdade dos evangelhos, são afirmações feitas para ganhar dinheiro. Mas levantam dúvidas. Se Jesus não morreu e os evangelhos não são de se fiar então toda a fé cristã é inválida… alegação banal, implicação fatal.
Há que refletir no que falamos e pensar mais além. O que se fala tem muito poder para o bem e para o mal. Mas o homem nem sempre é sábio para o perceber e em Corinto os que diziam não haver ressurreição não percebiam o que significava sua palavra. E Paulo trabalha as implicações.
Ele afirma que sem a ressurreição são vãs a fé e a pregação. A palavra que usa no original tem o sentido de vazio, sem conteúdo, sem qualquer valor. Ora, a fé não é um sistema de pensamento, não é um conteúdo religioso, não é um conjunto de doutrinas. A fé cristã é uma relação. Uma relação com Jesus como o Filho de Deus salvador. Mas se não há ressurreição, então ele morreu e ficou morto. Como ter relação com um morto? a mesma que se tem com personagens históricos variados, mas isso tira todo valor e conteúdo à fé cristã. Ela é única porque alega uma relação com um Jesus vivo. Relação com Deus Vivo que morreu, mas ressuscitou. Mas se não há ressurreição então é vazia a nossa fé… E a pregação Cristã é Jesus. Não pregamos uma religião, um conjunto de ritos e cerimonias, uma igreja com suas regras e estatutos. Pregamos a uma pessoa, a pessoa maravilhosa de Jesus, vivo e presente. Mas se ele não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação. Perde toda sua novidade. Fica igual a pregação muçulmana ou budista de um mestre passado morto e enterrado cuja sepultura podemos conhecer.
Ora, se a pregação e a fé cristã dependem da ressurreição, sem ela somos falsas testemunhas. A ideia usada é de uma testemunha que comete perjúrio. Vai a tribunal falar algo com convicção, mas que se prova mentira. Alguém que tem a coragem de anunciar algo com toda certeza, mas que o tribunal verifica ser inverdade. Seremos falsas testemunhas de Jesus se ele não ressuscitou.
E se não há ressurreição então permanecemos no nosso pecado. E esta afirmação pode trazer alguma dificuldade. Nossa conclusão óbvia é que somos salvos pela cruz. Afinal foi na cruz que Jesus pagou nossos pecados. Foi na cruz que a dívida foi paga e a declaração “está consumado” feita e é natural que haja alguma dificuldade com a afirmação de Paulo. Estaria Paulo a desvalorizar a cruz para fazer seu ponto? Aquele que dizia que não queria saber de mais nada a não Cristo crucificado podia agora dizer que afinal não era a cruz o ponto chave? Certamente que não. Mas há que entender o ponto e é até simples. Não somos salvos pela cruz. Não somos salvos pela cruz objeto e nem pela cruz acontecimento. Somos salvos por Jesus Cristo. Ele é o Salvador, não a cruz. Foi na cruz que ele ganhou a nossa salvação, mas apenas se ele é o salvador de Deus. E Ele só é o salvador se é quem dizia ser, ou seja, se é o Filho de Deus, se é um com o Pai, se é Emanuel, Deus connosco. Ele só ganha a nossa salvação na cruz sendo o Filho de Deus, o Senhor da Vida. E Ele só prova que é isso na ressurreição.
A lógica de Paulo é simples. Se não há ressurreição então Jesus não ressuscitou. Se Ele não ressuscitou então não pode ser quem disse que era porque o Messias Salvador era o Filho de Deus que afirmou categoricamente que ia ressuscitar ao 3º dia. Se ele não ressuscitou era como outro homem qualquer e não pode ser o salvador. Logo o que aconteceu na cruz não foi a nossa redenção porque ela só podia ser feita pelo Filho de Deus e se não fomos salvos por ele então estamos ainda em nossos pecados. E naturalmente se isso é assim aqueles que morreram pensando estar salvos em Cristo na verdade morreram sem salvação pois ela não aconteceu no calvário como pensávamos. A lógica é dura e pode até ser um tanto violenta, mas Paulo tem que deixar claro para os Coríntios que o assunto é demasiado sério para ser encarado de outra maneira. É a base da nossa fé.
E há ainda outra conclusão a chegar. Se não há ressurreição, Paulo conclui que nossa esperança de Glória não existe. Se Jesus não ressuscitou, não é então o Filho de Deus e não houve salvação na cruz. Nesse caso estamos ainda perdidos e nossa expectativa de glória com Deus é vazia. O que significa que tudo que abdicamos aqui nesta vida, tudo que abrimos mão aqui neste mundo é por nada. Se tudo que esperamos desta vida é sofrimento e aflição porque sabemos que há a Glória depois, e se não há Glória, então somos uns tristes. Renunciamos a tudo para que? Tomamos a nossa cruz para que? Perdemos a vida para que? Ou seja, se não há Ressurreição Jesus é apenas mais um mártir, nossa fé é vazia, nosso pecado permanece e nossa esperança de glória é um mito tolo. Mas…Cristo verdadeiramente ressuscitou.

Comentando este trecho Willian Barclay escreveu:
 A ressurreição é essencial para o Cristianismo e para a humanidade porque nela temos a confirmação de que 
A Verdade é mais forte que a mentira (a verdade da vida de Jesus é maior que as mentiras dos religiosos que o condenaram); 
O Bem é mais forte que o Mal (visto que Jesus viveu fazendo o bem); 
O Amor é mais poderoso que o ódio (já que a vida toda de Cristo foi uma grande e permanente demonstração de amor); 
A Vida é mais forte que a morte (já que o Senhor da Vida não pode ser contido pela sepultura).
 Louvado seja Deus pela nossa certeza da ressurreição!

Natal: Festa Cristã ou Celebração Pagã?

Fui criado festejando o natal como uma das maiores celebrações do ano. Como a maioria das crianças eu a esperava pelos presentes que estariam debaixo da árvore. No entanto, sempre tínhamos o culto doméstico de natal e ao fazê-lo papai e mamãe lembravam que natal era Jesus e não os presentes ou a refeição especial. Com a idade aprendi a entender melhor o que natal realmente significava e tenho procurado fazer o mesmo com os meus filhos. Ultimamente temos visto uma campanha contra o natal crescendo no meio evangélico. Já são muitos os que o descartam de modo directo sob a alegação que se trata de uma festa totalmente pagã e que não pode ser festejada por cristãos biblicamente sãos. O debate pode parecer novo mas não é. Os puritanos na Inglaterra e no EUA rejeitaram a festa como pagã já no século XVII. Durante dois séculos lutaram contra ela até que se tornou feriado oficial nos EUA em 1870. Nesse período, congregacionais, quakers e anabatistas concordavam com os puritanos.


Não gosto de fugir dos debates. Creio que devemos examinar as evidências e julgar com discernimento. Entendo que os símbolos não são destituídos de significado ou função e que os devemos usar com critério seguro e consciência pura. Diante disso olhamos para o natal, sua origem, data e símbolos na procura de respostas as perguntas: O natal é cristão ou pagão? De onde vem sua data? É a data real do nascimento de Jesus? Os símbolos natalícios são de que origem? Quais os que podem ser usados por crentes em Cristo? Devemos rejeitar o natal ou há algo nele que o Cristão pode aproveitar?

Natal – A Festa
Não encontramos na Bíblia uma festa do nascimento de Jesus. Mas a verdade é que no Novo Testamento não encontramos propriamente celebrações cristãs a não ser a ceia do Senhor e os cultos dominicais. Os cristãos, pelo que lemos em Atos e pelo que encontramos nas cartas de Paulo, reuniam-se nos domingos e celebravam a ceia do Senhor. Isso não quer dizer que não celebravam festas. Os cristãos judeus continuavam provavelmente a celebrar as festas judaicas. Não temos relato bíblico mas a história nos diz que a morte de Jesus e sua ressurreição seriam celebrações bem antigas. Mas é de lembrar que cada domingo era no fundo uma celebração da ressurreição. Nos relatos históricos não encontramos a igreja festejando o natal de Jesus antes do 3º século. Os Pais da Igreja Irineu e Tertuliano omitiram essa celebração em suas listas de festas e Orígenes referia que na Bíblia apenas os pecadores celebravam seus aniversários. O mais comum era lembrar a data da morte de alguém importante como no caso de Jesus. As primeiras menções à celebração do natal de Jesus vêm de Alexandria, no Egipto por volta de 200 D.C, mas seriam feitas a meio do ano provavelmente em Maio. Nos séculos 3 e 4 a festa se tornou mais generalizada e em 385 temos um relato da mesma em Jerusalém havendo sua menção num almanaque da Igreja de Roma em 336. (ver notas na Enciclopédia Católica). Oficialmente ela teria sido instituída pelo papa Libério em 354. Oficialmente foi tornada feriado cívico pelo imperador Justiniano em 529 D.C. A partir de então a festa foi se generalizando havendo algum debate sobre sua data que persiste até os nossos dias já que nas igrejas de influência oriental ainda temos as maiores celebrações acontecendo em 6 de janeiro. O fato marcante é que a festa se tornou um marco do calendário Cristão. 

Natal – a data
Talvez a maior alegação de paganismo atribuído ao Natal tenha a ver com sua data em 25 de Dezembro. Afinal quando nasceu Jesus? Porque se festeja em 25 de Dezembro? É legítimo fazê-lo? Uma coisa é certa – não podemos saber com certeza a data do nascimento de Jesus. Para alguns isso já é prova de que não se deve festejar essa data, porque se Deus quisesse, ter-nos-ia dado a data exacta. Parece um argumento um pouco forçado mas é digno de menção. Será no entanto importante notar que com esse argumento seria necessário rejeitar quase que qualquer festa na era Cristã.

Já foram defendidas muitas datas para o nascimento de Jesus. Os únicos dados que nos permitem especular são os do evangelho Lucano. Baseados na data de serviço de Zacarias no templo os autores eruditos colocam o nascimento por volta de Outubro. Lemos em Lucas 2 que os pastores estavam nos campos com seus rebanhos. Isso exclui Dezembro porque seria inverno e os pastores seguiam para os campos no fim da primavera por volta de Maio retornando no começo das chuvas que apareciam em Outubro/Novembro. Isso nos dá uma margem muito grande. A festa inicial celebrada no Egito parece ter acontecido em 25 de maio. Se sabemos então que o nascimento não se deu em Dezembro ou Janeiro porque são essas as datas escolhidas pelas Igrejas?

Entre os dias 17 e 24 de Dezembro se festejava no Império romano as saturnálias, festas ligadas ao inverno e que envolviam muita bebida, comida e orgias. No dia 25 de dezembro se festejava o natalis invictus, ou festa do Deus sol. Tinha a ver com a passagem do dia mais curto do ano e a certeza de que o sol voltaria a brilhar trazendo a primavera. Era uma festa pagã, ligada aos conceitos de fertilidade e de origem muito antiga já que a adoração do sol e da lua é dos primórdios da humanidade. Nos tempos do NT essa festa tinha sido reivindicada pelos adoradores de Mitra, um deus mesopotâmico, deus do trovão, também chamado sol da justiça e cujo mistério agradava muito aos romanos sobretudo as tropas. Festejar mitra em 25 de Dezembro já era uma adaptação. Outras festividades do inicio de Janeiro também eram comuns. Era uma forma de o povo lidar com as agruras de um inverno rigoroso que trazia muito frio e neve e que impossibilitava os trabalhos agrícolas. Assim sabemos que os povos germânicos do norte da Europa e os celtas tinham também celebrações essa época ligada a festas, ornamentação das casas e troca de presentes.
Certamente tudo isso pesou para que a data da festa do nascimento de Jesus viesse a se fixar em 25 de Dezembro. Inicialmente os líderes cristãos tiveram que condenar os excessos de época e alertar os cristãos a que não cedessem a esses festivais pagãos. 

Com o tempo porém tomaram outra atitude e trataram de contextualizar as celebrações. Aparentemente a primeira menção a essa data como nascimento de Jesus vem do ano 221 num escrito de Sexto Juliano Africano. Lemos que Cipriano de Cartago (bispo em 249) via a data como uma providência Divina já que o verdadeiro Salvador nascesse bem no dia em que se celebrava o nascimento do sol. Crisóstomo (bispo por volta de 398 D.C) ia mais longe e citava a festa do nascimento do sol invencível da justiça como referência correta a Jesus já que “Quem era realmente invencível como Jesus, o verdadeiro sol da justiça” (ver Malaquias 4:2). Esses relatos vêm do 3º e 4º século e mostram que a contextualização foi feita com consciência clara e propositada. 

Será aqui interessante lembrar que as maiores celebrações cristãs, baptismo e ceia do Senhor, não são festas ou rituais originais mas contextualizados por Jesus. O baptismo era usado pelos judeus a séculos e os adoradores de Mitra também usavam uma forma de batismo e falavam de novo nascimento dos neófitos. A ceia com pão e vinho era usada entre os judeus no simbolismo rico da Páscoa mas também entre todos os cultos pagãos de então. Na história do Cristianismo e de Missões muitas são os relatos de festas locais que são adaptadas para servir a Igreja sem que isso as tornasse impuras ou malignas. Com o tempo, o simbolismo pagão acabava por se perder totalmente.

Natal – as celebrações, a árvore e o presépio
Os jantares de natal e as ornamentações das casas se mantiveram das festas de inverno pagãs. As bacanais pagãs incluíam bebedeiras e comida em abundância. A decoração das casas tinha muito a ver com a época. Se na primavera e verão havia cor e flores já no inverno ficava tudo escuro e sombrio. Decorar as casas com objetos coloridos e luminosos era uma forma de alegrar a mesma. Banquetes por seu lado são a forma de festejar mais antiga entre os homens e não surpreende que aqui fizessem parte essencial da festa.  
Elemento que veio a se tornar central na festa é a árvore enfeitada. Aqui também a origem pagã parece clara. 
Os vários povos euro-asiáticos adoravam árvores sagradas dando a elas poder de intervenção na vida humana e vendo-as como habitáculo dos deuses. Desde o simples shamanismo que via as árvores como fonte de poder animal a outras formas mais elaboradas de culto o homem sempre se encantou com a beleza e força de algumas árvores. Vários povos tinham diferentes árvores sagradas. Os egípcios adoravam as palmeiras, os druidas celtas os carvalhos, os germanos os pinheiros e os romanos adornavam abetos no culto a Baco. 

No AT lemos dos povos cananitas adorando em lugares altos e sob árvores frondosas. Uma tradição antiga dizia mesmo que ninrode, neto de Noé, seria o iniciador do paganismo e depois de sua morte teria revivido na forma de um pinheiro que era adorado por seus seguidores dando origem as religiões orientais persas. 

É possível que a árvore de natal tenha tido essa origem mas não temos um relato claro disso. É igualmente provável que tenha havido uma contextualização que via em Jesus a esperança sempre viva exemplificada pelo pinheiro sempre verde mesmo nos tempos frios e escuros do inverno. Uma tradição dá a introdução desse costume a Martinho Lutero (1483-1546), autor da Reforma Protestante do século XVI. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam uma trilha, Lutero viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida papéis coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Era o que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Teria nascido assim a árvore de Natal. Há quem negue essa tradição, mas é firmemente aceita por outros. 

Já o presépio é atribuído a Francisco de Assis. A tradição católica diz que o presépio (do lat. praesepio) surgiu em 1223, quando São Francisco de Assis quis celebrar o Natal de um modo o mais realista possível e, com a permissão do Papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, da Virgem Maria e de José, juntamente com um boi e um jumento vivos e vários outros animais. Nesse cenário, foi celebrada a Missa de Natal. O sucesso dessa representação do Presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres europeias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. Na Espanha, a tradição chegou pela mão do Rei Carlos III, que a importou de Nápoles no século XVIII. Sua popularidade nos lares espanhóis e latino-americanos se estendeu ao longo do século XIX, e na França, não o fez até inícios do século XX. Em todas as religiões cristãs, é consensual que o Presépio é o único símbolo do Natal de Jesus verdadeiramente inspirado nos Evangelhos.

Natal – A Figura do Pai Natal (Papai Noel, Santa Klaus)
Outro símbolo máximo do natal atual é a do velhinho gordinho e bem-disposto vestido de vermelho que percorre a noite de natal levando presentes as crianças que se comportaram bem ao longo do ano. Em seu trenó mágico, puxado por renas voadoras ele entra pelas chaminés ou janelas e colocar misteriosamente as prendas por baixo da árvore. É um dos mitos infantis mais populares do ocidente.

A ideia parece provir do bispo São Nicolau de Mira que viveu no século 5 apesar de haver histórias parecidas sobre o santo bizantino Basilio de Cesaréia venerado pelos gregos. O dia de São Nicolau no leste é o dia 6 de Janeiro, igualmente dia em que os magos teriam trazido seus presentes. O dia de São Basilio é 1 de Janeiro e assim as tradições de ofertar prendas variam de dia conforme a cultura. 

Nicolau seria um homem bondoso que daria dinheiro escondido a famílias necessitadas. Há uma história de que certo homem empobrecera e não tinha dote para suas três filhas que seriam vendidas como escravas. De noite, sob o manto da escuridão, Nicolau teria colocado 3 bolsas com moedas de ouro na lareira do homem salvando assim suas filhas. Relatos como esse deram origem a lenda e no norte da Europa, Alemanha e países baixos, a figura se ligou ao natal e ao dar presentes.

A evolução da figura é bem mais recente. Nos EUA ele se torna popular a partir da guerra revolucionária. Os americanos libertos do jugo inglês estariam procurando figuras anteriores a dominação colonial. Em Nova Iorque havia forte tradição holandesa já que a cidade tinha sido fundada por estes com o nome de Nova Amsterdam. Daí teria vindo a ênfase na figura de Santa Nicolaus ou Santa Klaus. Já em 1822 Clemente Clark Moore, um professor de literatura grega em Nova Iorque, escreveu um conto poema para seus filhos chamado “Uma visita de São Nicolau”. É nesse conto que o pai natal passa a viajar com renas e a entrar nas chaminés com presentes. Lembrando que as chaminés eram limpas nessa época para facilitar o aquecimento das casas e deixar entrar bons ares (bênçãos). O poema popularizou essa imagem e em 1886 o cartonistaThomas Nast da revista Harper`s weekly desenha e pinta o velhinho com uma roupa castanha esverdeada típica de lenhadores e caçadores. 

Na Europa ele era apresentado com roupas eclesiásticas de bispo mas a imagem de Nast ganha popularidade. Por fim em 1931 a Coca-Cola precisou fazer uma campanha de inverno já que as vendas caíam nessa época e escolheu o Pai Natal dando-lhe no entanto as cores da empresa, vermelho e branco. Essa campanha de marketing foi tão bem sucedida que esse passou a ser o novo visual da figura.

Essa imagem é claramente alheia ao natal nada tendo a ver com Cristo ou o sentido de seu nascimento. Ainda acresce que leva a mentiras contadas a crianças o que é notadamente anti-bíblico. Muitas crianças ligam a figura do Pai Natal a Deus e quando se desiludem de um acabam transpondo esses sentimentos ao outro julgando tudo mito e farsa.

Conclusões – Em que ficamos?
Tentemos então chegar a algumas conclusões diante dos fatos expostos. Gostaria de realçar que minha interpretação é a visão de um missionário que entende a necessidade da contextualização. Em toda a Bíblia encontramos esse fato. O Senhor sempre permitiu e usou a contextualização para a transmissão de sua verdade. Essa contextualização tem que ser crítica, cuidadosa e consciente, mas pode e deve ser bênção para a igreja e a propagação da Glória de Deus. Terei isso em conta em minhas avaliações finais.

Faz sentido festejar o nascimento de Jesus? Creio que sim. Somos ensinados na Palavra a celebrar o Senhor (Salmo 100:1) e a anunciar as suas maravilhas (Salmo 98: 1, 2 e 4). Não teremos razão para celebrar o nascimento do Salvador? Trata-se de um milagre/mistério maravilhoso e que mostra o amor de Deus por nós. Celebrar o nascimento de Cristo é festejar a graça de Deus, o milagre da encarnação, a prova maior de seu amor por nós em vir viver entre os homens em forma humana. Os anjos vieram anunciar seu nascimento e louvar. Nós os salvos podemos faze-lo e usar esse momento para anunciar as boas novas da chegada do Messias salvador e que essa é nova de alegria para todo povo em todas as culturas.

Faz sentido celebrar o natal em 25 de Dezembro? Como não sabemos a data real do nascimento de Jesus, qualquer data seria possível. Uma deverá ser convencionada. Creio que os pais da igreja ao usarem uma data já festiva e adapta-la a realidade da mensagem cristã nos deram um bom exemplo de contextualização. Nada temos a ver com festas ao sol e a mitra. A esmagadora maioria dos cristãos nunca ouviram falar disso. Festejam nessa data porque foi a escolhida e não vejo que isso possa só por si nos afetar negativamente se nosso coração for puro e nossa festa genuína.

Podemos montar uma árvore de natal? A razão de ser da árvore e sua origem é na verdade bastante controversa. Dizer que não podemos usá-la porque há povos que adoram árvores é como dizer que não devemos cantar porque cantar faz parte de cultos pagãos, não devemos usar instrumentos de percussão na adoração porque são instrumentos da macumba e muito mais. Não creio que os cristãos adorem suas árvores de natal.

É apenas um adorno festivo que nos lembra a chegada de Jesus e serve para marcar uma ocasião diferente e especial para nós. O salmista diz que as árvores também louvam a Deus, inclusive os cedros (Salmo 148:9). No entanto se isso lhe faz confusão então festeje Jesus sem árvore ou adornos. 

Podemos montar presépios? Há quem os veja como idolatria. Certamente será se nos ajoelharmos a orar diante dessas figuras. Se por outro lado são decorativas e servem para nos lembrar dessa cena amada do nascimento do Salvador podem ter razão de ser e servir de motivo de gratidão a Deus. Lembro-me inclusive de participar de presépios vivos que davam ensejo a oportunidades de testemunho do Senhor.

Podemos fazer uma ceia de natal? Todas as festas têm refeições especiais. Porque o nascimento de Jesus seria diferente? Devemos no entanto lembrar de modo claro que natal não é comida ou bebida. Deveríamos fazer refeições especiais mas modestas e que não favoreçam nem glutonaria e nem bebedeiras que tirariam todo louvor da celebração. Nossas refeições todas e em especial a do natal devem ser feitas para a Glória de Deus (I Cor. 10:31). Deveríamos também lembrar dos menos favorecidos e nessa data oferecer a eles parte de nossa dispensa para que também festejem como a Bíblia claramente ensina (Neemias 8:10 a 12).

Podemos dar prendas no natal? Confesso que aqui tenho que concordar com os que combatem o costume. As prendas ofertadas no natal bíblico são dadas a Jesus. O costume de trocar prendas que foi adaptado do meio pagão tem tomado ao longo dos tempos o lugar central da festa. Não somente deixamos de presentear o aniversariante (Jesus) como nos concentramos em nós mesmos e em nossas prendas e contribuímos para o consumismo louco que domina nossa cultura atualmente. Creio que faríamos melhor se usássemos esse tempo para ofertar para a obra de Deus, para as missões (como uma bela tradição batista americana) e os mais desafortunados. Poderíamos dar algo a nossos filhos, principalmente coisas úteis e necessárias e aproveitar para lhes ensinar o verdadeiro sentido do natal. Aproveitaríamos também para combater esse consumismo que faz com que o natal seja tão desvirtuado mesmo no meio cristão. 

Podemos usar a figura do pai natal? Sinceramente, creio que não. Essa imagem é alheia ao natal, estranha ao festejo e produto do marketing desenfreado que acabamos de combater. Creio que como cristãos não podemos mentir a nossos filhos e nem ligar o natal ao exclusivo ganho de brinquedos. A figura actual do pai natal desvia a festa de Jesus que deve ser seu foco maior e único.

O Natal só fará sentido se o celebrarmos com o foco em Jesus. É tempo de alegria e louvor pelo nascimento do Salvador. É tempo de proclamação da salvação que veio para todos. É tempo de encarnação da Igreja que se aproxima dos mais necessitados aliviando a dor e o sofrimento. Esse será um natal digno de ser celebrado. Esse será um natal digno de Jesus. 




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