Factos e Verdades

Costuma-se dizer: “Contra factos não há argumentos”. E, no geral, podemos dizer que essa afirmação se aplica bastante bem. Mas, será que factos e verdades são a mesma coisa? Será que podemos apenas analisar os factos e viver baseados nisso? Será essa atitude, em geral chamada de realista, a melhor para se viver? Será a maneira cristã de se viver? Partimos do princípio que factos são verdades, mas será? Ora, factos são coisas que acontecem e podem ser verificadas e nesse sentido são verdades.

Mas serão os factos sempre o reflexo da verdade eterna? NÃO! Para o discípulo de Jesus a Palavra de Deus é a verdade eterna e muitas vezes os fatos estão contra ela. Nesses casos, os fatcos não são a mesma coisa que a verdade.

Vamos exemplificar: Os factos nos mostram que nos dias de hoje cerca de metade dos casamentos acabam em divórcio. Ou seja, metade das pessoas que prometeram amor eterno chegaram à conclusão de que esse amor acabou e romperam seu compromisso. Desses factos se poderia tirar a verdade de que o amor é algo que acaba, é passageiro. Mas não é isso que a Palavra diz. O texto bíblico é claro: “o amor jamais acaba” (I Coríntios 13:8).

Os factos diários nos mostram que os espertinhos ganham vantagem, os que ludibriam as leis escapam impunes e os corruptos ficam mais ricos que os cidadãos cumpridores. Por esses fatos seríamos tentados a concluir que a verdade é que os ímpios triunfam. Mas não é essa a verdade das escrituras. A palavra diz que “os perversos não prevalecerão no juízo” (Salmo1:5). Quando Asafe avaliou os fatos e foi tentado a concluir de acordo com eles, buscou o Senhor e percebeu que o fim dos ímpios é bem diferente do que os factos mostram (Salmo 73). A verdade é outra.

Os factos dizem que na maioria das vezes não vale a pena fazermos o bem. O bonzinho é considerado tolo pelo mundo pois os factos não favorecem a bondade ou a generosidade. Mas a Palavra diz: “Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome” (Hebreus 6:10), porque o “nosso trabalho não é vão no Senhor” (I Coríntios 15:58).

Os factos dizem que a vida humana é fútil. Essa tem sido a conclusão de multidões que vivem vidas sem sentido. Há mais suicídios que pessoas a morrer com SIDA a cada ano. Porque? Porque acreditaram no facto de que a vida não tem razão de ser. Homens considerados grandes pensadores e filósofos atestam esse facto de modo contundente. Mas, a Palavra diz o contrário. Lemos que “fomos resgatados da nossa vã maneira de viver” (I Pedro 1:18). A Verdade bíblica nos ensina que a vida não acaba, simplesmente muda de realidade e que podemos vivê-la de modo pleno aqui e além. A palavra diz que em Jesus encontramos vida abundante e multidões têm experimentado essa verdade.
Devemos então concluir com cuidado diante dos “factos”.

O mundo de hoje gosta de se orientar pelas últimas pesquisas, como se fossem a fonte de toda a verdade. Pesquisas podem ser úteis e ajudar a entender algumas coisas, mas não são necessariamente a expressão da verdade. O cristão sabe que o mundo jaz no maligno e que as pesquisas são em grande medida a expressão dessa verdade bíblica. Não nos guiamos pela vista, mas pela fé. Não nos guiamos pelos factos, por mais avassaladores que sejam, mas pela Palavra Eterna do Senhor que é a sua revelação escrita, o firme fundamento que não muda através dos tempos e nos dá alicerce e direção para a vida.

Encantada


Uma das bênçãos do pastorado é a visitação. Bênção para quem é visitado e recebe uma palavra de conforto e ânimo mas também para o pastor que adquire maior conhecimento de seu rebanho, descobre novas maneiras através das quais o Senhor trabalha, e recebe as bênçãos do testemunho cristão genuíno. Muitas tem sido as vezes em que visitei ovelhas e recebi bem mais do que o que levei. Abençoado ministério!
Recentemente visitei uma irmã com mais de 90 anos. Ela me convidou para um chá de tarde. Fui com alegria mas também um certo receio. O que dizer para animar uma pessoa de 90 anos? O que transmitir que ela ainda não ouviu? Como ser bênção para quem já viveu por tanta coisa? Seria eu capaz de me mostrar útil? Pensamento talvez egocêntrico, mas perdoe-me o leitor, somos de carne e osso.
A experiência foi marcante pela positiva. Que irmã animada, que entusiasmo! Que vontade, que vida ela demonstra já na 9ª década de peregrinação. Durante mais de 2 horas eu e minha esposa ouvimos as histórias de vida dessa querida irmã contadas com um sorriso permanente. Nada de queixas, nada de mazelas físicas ou emocionais, nada de reclamações ou acusações. O que mais me admirou no discurso da irmãzinha foi o uso recorrente da palavra “encantada”. Ele tinha ficado encantada com a pessoa X, com a situação Y, com a experiência Z. E fiquei com a firme convicção de que a irmã realmente vivia esse encanto no Senhor.

Meditando na visita pensei no quanto somos prejudicados pela familiaridade. Perdemos a capacidade de nos maravilharmos. Adão e Eva estavam no paraíso, mas se familiarizaram até com um paraíso e logo queriam o conhecimento que fora proibido. O povo de Israel viu maravilhas tais que derrotaram o Egito, mas logo se cansaram de milagres e queriam voltar aos pepinos. O povo no tempo de Jesus via o Senhor fazer coisas impressionantes para no dia seguinte procurá-lo para novo milagre. E nós?
Quando desejamos algo novo nos enchemos de vida. Pode ser uma casa, um carro, um aparelho ou outra coisa. No inicio nos deslumbramos e quando o Senhor nos abençoa ficamos gratos e louvamos. Mas depois... o tempo e a familiaridade nos fazem esquecer a maravilha. O carro que antes políamos quase diariamente, passa um mês sem ser lavado; a casa que era literalmente adorada passa a ser apenas um imóvel a ser pago; aparelhos que precisávamos ter para mudar nossa vida já têm outros modelos no mercado.

E a Igreja? E a oração? Aquele pedido que fizemos durante meses e foi finalmente atendido logo fica esquecido. A igreja onde encontramos alegria e vida logo passa a ser local onde há gente que não gostamos e passamos os cultos olhando o relógio para ver a hora. O pastor que pregava tão bem há 6 meses é hoje só mais um dos que vai ocupar o espaço de tempo entre mim e o meu almoço de domingo... Familiaridade a mais. Perdemos a maravilha. Perdemos o encanto.
Aprendi com a querida irmã na visita realizada a bênção do encantamento. O segredo que a levou a viver até depois dos 90 com um sorriso nos lábios não é a riqueza (ela vive de uma magra pensão), ou a falta de problemas (teve e tem muitos ao seu redor), não é a saúde perfeita (pois tem inúmeras dificuldades físicas) ou as pessoas que a cercam (ainda mora sozinha até hoje por escolha própria). Seu segredo é que encontrou no Senhor a bênção do encantamento. Ela vive encantada com o que Deus é e com o que ELE faz. Que coisa linda. Que bênção fantástica. Que milagre do céu. Ó Pai, faz-me encantado! Dá-me a tua satisfação. “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez vos digo regozijai-vos” Filipenses 4:4

Como o Anableps...


Já ouviu falar dele? O anableps? Tem vários nomes, mas talvez o que melhor o define é o de peixe quatro-olhos. Trata-se de um peixe que vive junto à foz dos rios da América Central e do Sul existindo espécies de anableps desde o México ao Brasil. Ele vive na zona de transição entre a água doce e salgada. É um vertebrado carnívoro e come insetos e outros peixinhos minúsculos. Passa a grande maioria de seu tempo nadando lentamente em grupo junto à superfície das águas, aparecendo com sua cabeça meio submersa e os olhos bem no topo.

 E o que há de tão extraordinário nesse peixe? Ao olharmos para ele algo nos chama a atenção. Ele parece ter quatro olhos. Na verdade, isso é uma ilusão de ótica, porque o anableps tem metade dos olhos em baixo de água e metade em cima. E é aí que reside a maravilha. Os olhos desse peixe são únicos em todas as espécies. Ele tem os olhos divididos em duas partes, de cima e de baixo, por uma leve membrana. Tem duas íris e duas pupilas e inclusive índice de refração diferente em cada parte do olho. Apesar de ter apenas um par de olhos, vê com a parte de baixo o que se passa debaixo de água e está adaptado a isso e vê com a parte de cima o que se passa acima da superfície, tendo a visão de cima adaptada para isso. Fantástico não? Lente multifocal num peixe... Isso lhe permite encontrar mais alimento e se defender mais facilmente de predadores.
E o que tem o anableps a ver comigo e com você? É que somos chamados a ser anableps neste mundo. O Cristão recebe de Deus essa visão multifocal para viver neste mundo sem ser dele. Visão para conseguir trabalhar aqui enquanto vive esta vida, mas mantendo a mente e a visão parcialmente em outra realidade, em outra vida e em outro mundo. Para as outras pessoas deve parecer estranho. Os animais têm olhos para ver debaixo de água ou ao ar livre. Animais terrestres podem até mergulhar e abrir os olhos, mas sua visão fica limitada. Peixes podem até subir a superfície e olhar, mas verão pouca coisa. Só o anableps vê perfeitamente bem em ambas as realidades. Assim deveria ser o Cristão.
Paulo escrevendo aos efésios, no capítulo 1,verso 18, orava para que tivessem "iluminados os olhos do coração". Do que ele está falando? Não é dos olhos que veem o material, mas de olhos com visão e perspectiva espiritual. Ele explica isso ao falar aos coríntios, "ora o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem (vêm) espiritualmente" 2:14.

No mesmo capítulo ele já dissera que "nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito;" 2:9 e 10a. O crente em Cristo transita em duas realidades. Uma que se vê naturalmente, com olhos materiais, com os sentidos humanos e que ele partilha com todas as outras pessoas. Mas também vê com os olhos da fé, do Espírito, realidades que são invisíveis ao olho nu. O Cristão discerne aquilo que para o incrédulo é impossível ver e por isso o chamam de louco.

Assim como o anableps, nossa visão multifocal nos permite colher alimento onde outros só vêm tribulação, ânimo onde outros só vêm dor e esperança onde o mundo só enxerga desespero. Também a visão dupla nos permite defesa nas lutas espirituais que são as mais importantes porque discernimos o inimigo da alma que na esmagadora maioria das vezes é invisível ao homem natural.

Trata-se de um recurso fabuloso e extraordinário, próprio da graça de Deus. Alguns o têm usado de modo contundente como os profetas do passado, os apóstolos do Senhor e o próprio Jesus. Quando devidamente desenvolvida, essa visão dupla é fonte de bênçãos incontáveis.

 Agora imagine um anableps tolo que desprezasse sua visão dupla e desejasse passar a vida ou apenas submerso ou apenas na superfície. Perderia imediatamente metade de seu campo de visão. Metade de seus olhos ficariam meio cegos e toda a vantagem que ele tinha se esvairia tornando-se inclusive mais vulnerável.

Infelizmente alguns crentes fazem voluntariamente isso. Ou abdicam da visão espiritual vivendo apenas deste mundo, perdendo toda a capacidade de ver as bênçãos, ficando presa fácil do maligno, deixando de enxergar as coisas maravilhosas que Deus preparou para nós. Ou então, resolve viver num mundo espiritual desfasado do real, longe das coisas práticas, perdendo a capacidade de ser útil a igreja e ao Senhor, deixando aos poucos o contacto com as verdades práticas da vida. Assim vivem na igreja tanto os materialistas como os puramente místicos. Abrem mão da preciosa metade de sua visão.

Imagino, por vezes, a vida do anableps em meio a outros peixes. Talvez os outros peixes façam troça dele, de seus olhos estranhos e de sua teimosia em ficar nadando meio submerso. Mas, o anableps não se preocupa. A vantagem é toda dele!

Se vivermos plenamente a visão dupla que o Senhor nos deu seremos mal interpretados, incompreendidos e até ridicularizados. Mas a vantagem é toda nossa. Sejamos gratos por nossa visão multifocal e não deixemos que o inimigo nos prive de nossa maravilhosa capacidade de ver bem em ambas as realidades. Que sejam iluminados os olhos do nosso coração.

Um Travesseiro de Pedra

Dormir é importante e creio que você já sabe. Para dormir bem há vários requisitos. Deve evitar muita agitação antes de ir dormir, deve fazer refeições leves a noite, deve deixar de pensar em problemas... e convêm ter um bom travesseiro. Não sei o que é um bom travesseiro para você. Há pessoas que gostam de travesseiros altos, outras preferem os baixos, macios, mais duros, com certos tipos de material como pena de ganso, etc. Mas, acho que todos concordaremos que uma pedra não será um bom travesseiro! 

Em Gênesis 28:11 lemos que Jacó depois de deixar a casa de seu pai, rumou em direção a leste, dormiu ao relento e usou uma pedra por travesseiro. Não admira que tenha tido uma noite agitada e acordasse para lá de assustado. Pedras não dão bons travesseiros e Jacó estava nessa situação por sua própria conta. Era um homem que desconhecia Deus, toda sua vida agira de acordo com esquemas e trapaças e nunca se preocupara em colocar o Senhor em sua agenda. Resultado: dormia ao relento com uma pedra por travesseiro.
Primeiro Jacó fugira daquilo que se esperava dele. Em vez de ser homem do campo, afoito e corajoso, destemido na caça e nas lutas familiares preparando-se para a chefia do clã, preferia ficar pelas tendas da familia aprendendo a cozinhar com Rebeca sua mãe. Depois esperara a oportunidade para ficar com a primogenitura do irmão. Quando lemos o episódio em que Esaú vende sua primogenitura (Gênesis 25: 27 a 34) fica evidente que tudo foi arquitetado. Não aconteceu por acaso. Jacó conhecia seu irmão e planejou as coisas. Esperou o momento certo, armou o palco e fechou a cilada.

Por fim, veio todo o esquema levado a cabo para conseguir receber a benção de seu pai, Isaque. Jacó faz uso de artimanhas, explora a cegueira do pai e rouba a benção de Esaú. Esse era seu perfil, um sujeito ardiloso e cheio de artificios. Mas, o que isso lhe valeu? Ter que fugir de casa. Sair meio sem saber para onde ía. Logo ele que tanto gostava de ficar junto das tendas familiares e da mãe protetora. Teve que sair pelo mundo, sem rumo certo, sem saber bem onde ficar e sem ter consciência de que o próprio Deus, Criador da terra e céu estava todo o tempo junto a ele (Gênesis 28:16). É isso que deu viver de esquemas. Estava só, dormindo na rua, com uma pedra por travesseiro.

O homem em geral gosta de levar vantagem. Amamos furar fila, ultrapassar os outros antes do sinal fechar num cruzamento, receber o primeiro pedaço do bolo e a última fatia da torta. Alguns são mesmo especialistas nisso. Em certos países já não vemos a meritocracia, mas sim a "jeitocracia", onde em tudo é possível dar um "jeitinho. Se há alguma forma de pularem as leis, os protocolos e as regras podemos estar certos de que o farão. E depois se regozijarão disso e falarão a todos como são espertos. É bom ter cuidado! Jacó também pensava que era... ele é o santo padroeiro dos espertos!

O homem/mulher de Deus deve viver de um modo bem diferente de Jacó, antes de chegar até Betel. Primeiro porque tem que ter consciência da presença Divina a todo tempo. A Palavra nos diz que o temor do Senhor é o principio da sabedoria. Princípio aqui no sentido de começo, mas também de base. Ter a noção da presença do Senhor e um santo temor é básico para uma vida sábia e proveitosa. Há muitas coisas que não faremos e que não falaremos se cultivarmos a perspectiva da presença permanente de Deus conosco.

Depois devemos entender que os esquemas podem parecer vantajosos para nós mas representam invariavelmente perda para alguém. Se eu passo na fila alguém ficou para trás. Se eu uso uma cunha ou conhecimento outros serão prejudicados. Ao agir assim eu me igualo a todos os demais. Me desculpo com a resposta tradicional "Todos fazem isso". Mas nós não somos "todos". Somos filhos de Deus, salvos por Cristo para viver em novidade de vida.

Lembremos que o Senhor nos instrui na Palavra a obedecer as autoridades e as leis (Romanos 13: 1 a 7). Isso quer dizer que se há leis, regras, limites e outros estabelecimentos são para serem cumpridos. Meu testemunho exige isso. Meu temor de Deus exige isso. Meu respeito e amor ao próximo exige isso. Vivendo assim contribuo para um mundo melhor. Se todos vivessem assim, teríamos um mundo muito melhor. Farei doravante a minha parte. Outros certamente vão preferir continuar dependendo de esquemas... a esses dizemos: cuidado! Um dia desses pode acabar descobrindo que tem uma pedra por travesseiro.

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