Bíblia – Manual de Instruções?


Com alguma frequência ouvimos dizer que a Bíblia é o “Manual do fabricante” para a humanidade. Parece uma analogia interessante e quem diz isso o faz com boa intenção. Mas, afirmações sobre a Bíblia devem ser analisadas com cuidado e carinho, pois entendemos que ela é a palavra de Deus. Na verdade, parece que boa parte dos crentes encara a Bíblia como manual. E qual é o resultado? Pensemos nas possibilidades:

Manual do fabricante: é aquilo que vem junto de cada produto novo que compramos. Por regra nós o vemos, folheamos e então guardamos. O manual não é propriamente boa leitura e cansa um pouco. Técnico, maçador e pouco claro. Deixamos guardado até porque, a maioria do que compramos, tem funcionamento intuitivo. Fica mais fácil ter alguém que explique como funciona ou vamos apertando botões a ver o que acontece. O manual só é procurado quando há uma emergência, o aparelho deixa de funcionar ou faz o que não queremos. Ver a Bíblia como manual do fabricante é assim. Deixamos de lado para as emergências. Achamos de difícil leitura e pouco esclarecedor e fica de lado até que haja uma crise e então, como com os manuais em geral, não sabemos o que procurar nem onde fazê-lo. 

Manual de Computador: esse é aquele manual que não lemos e nem guardamos. Ele vem necessariamente com o material adquirido, mas é demasiada matéria (um verdadeiro calhamaço) e demasiado complexo para pegarmos nele. Nem nas urgências o procuramos. É mais fácil ir ter com um profissional. Um pouco como se a Bíblia fosse apenas um manual de teologia. Não é para leigos. Só profissionais entendem realmente o que diz. E, nesse caso, a Bíblia é lida raramente e sempre com estranheza.

Manual escolar: aqueles que lemos porque é obrigatório. Uma vez lidos, deixamos de lado. Não voltamos a ler o manual da quarta classe, do 3º ano do secundário  ou mesmo da faculdade. Não interessa mais. Já sei aquela matéria. Já passei naquela prova. Já tenho aquela nota. E, quantas vezes, a Bíblia é deixada de lado porque já sabemos a história, já lemos o episódio. O pastor anuncia a passagem da mensagem e colocamos a mente em ponto morto porque já conhecemos aquela passagem e já ouvimos outras mensagens nela. Como manual escolar, a Bíblia fica de lado como ultrapassada. Uma vez esvaziada de seu conteúdo informativo pode ser descartada.
Por isso, creio que usar a analogia da Bíblia como manual do fabricante não é na verdade muito boa. Traz muitas implicações prejudiciais que não fazem jus à Palavra vida de Deus, que é poderosa e penetra até à alma e muda corações e transforma vidas. Outras analogias são necessárias. Sugerimos alternativas:

História de uma relação: gosto de biografias e de ler o modo como um personagem famoso foi evoluindo e sendo moldado. A Bíblia é a biografia da humanidade em sua relação com Deus. Como sou parte da humanidade, acaba por ser a história da minha relação com Deus. Basta olhar para ela e ver o quanto nos relacionamos. Por vezes, somos o caos da criação a precisar da palavra para conseguir direcção. Por vezes, somos o homem a cair em tentação outra vez. Nos sentimos escravizados como Israel no Egipto ou cansados de caminhar no deserto. Por vezes, somos como o povo no tempo dos Juízes, independente e burro, a cair e levantar vez após vez. Mas também, nos elevamos com os salmos, nos deleitamos nos heróis vitoriosos, nos relacionamos com profetas e apóstolos, duvidosos, queixosos, vitoriosos e competentes. A Bíblia nos fala ao coração porque nela vemos a nossa história e ela é completa e complexa, mas nela achamos o Senhor presente e abençoador. Eu quero ler essa história. Eu quero saber mais de como me relacionar com Deus. Eu quero perceber como Ele actua e mexe nas vidas. Eu quero aprender a viver melhor, a viver bem, a viver certo. 

Cartas de Amor: namorei à distância num tempo anterior à Internet (eu sei, estou a ficar velho). O namoro era feito por carta e essas eram tudo que nutria a paixão e fazia desenvolver a relação. Quando uma carta de minha amada chegava tudo parava. O mundo ficava em stand by até que lesse e relesse aquelas palavras. Analisava o sentido, a intensidade, a forma das letras e me alimentava do escrito. Era tudo que precisava. E uma carta fazia maravilhas no meu humor, na minha disposição e energia. Sentia-me amado, apreciado, desejado e isso devolvia um ânimo especial para cada novo dia. Tudo pela carta de uma namorada. 

Uma carta de amor mostra querer, vontade de quem a escreve, não é algo formal, foi feito com prazer. Revela o coração de quem escreve visto que fala de sentimento, pensamento e ação em prol do ser amado. Revela o que se pensa e deseja da pessoa a quem se escreve. E creio que temos tudo isso na Bíblia. O Senhor se revela porque quer. Nada o obriga a fazê-lo e poderia nos ter deixado no escuro mas quis nos dar sua revelação. Nela temos seu coração, seu pensamento, aquilo que Ele pensa de nós e o que deseja para nossas vidas. É um escrito de amor do Criador para a criatura e eu quero ler. Quero saber quem Deus é e o que Ele tem para mim. Este livro me interessa vivamente porque sei que nele encontrarei seu amor revelado e dele vou tirar vida e direcção. 

As implicações disso farão muita diferença na leitura. Quando leio uma carta de amor da minha amada não avalio a sintaxe e não faço estudo apurado do significado original das palavras. A escrita não foi feita para isso. É uma forma de comunicação. Como não estava presente, ela comunicou assim, mas a escrita continua a ser palavra dita, mesmo que colocada no papel por meio de um código. Ao ler quero realmente ouvir, sentir a presença, perceber a pessoa que comunica e transmite. E ler a Bíblia assim é muito diferente de a ler como manual de estudo ou do fabricante.

Basicamente quero repetir o valor da Bíblia para nossas vidas e a maneira de a encarar como leitura não apenas obrigatória, mas deleitosa, apaixonante, maravilhosa. Como o salmista, queremos dizer da lei de Deus: “A lei do Senhor é perfeita e revigora a alma. Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança e tornam sábios os inexperientes. Os preceitos do Senhor são justos e dão alegria ao coração. Os mandamentos do Senhor são límpidos e trazem luz aos olhos. O temor do Senhor é puro e dura para sempre. As ordenanças do Senhor são verdadeiras, são todas elas justas. São mais desejáveis do que o ouro, do que muito ouro puro; são mais doces do que o mel, do que as gotas do favo. Por elas o teu servo é advertido; há grande recompensa em obedecer-lhes.” Salmo 19: 7 a 11

Guerra dos Tronos – A Verdadeira


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A série de TV “Guerra dos Tronos” baseada na obra de fantasia “Game of Thrones” (GoT) do escritor americano George Martin tem feito enorme sucesso arrastando uma legião de fãs. A estreia da última temporada está as portas (escrevo em Abril 2019). A série explodiu com todos os recordes de audiência e também com os gastos de produção já que cada episódio tem o nível de um filme classe A da melhor qualidade visual. E aqui faço minha confissão: sou fã. Mais dos livros que da série de TV. Afinal todos sabem que os livros são regra geral bem melhor que os filmes ou adaptações televisivas. Mas é verdade, gosto de ler autores de fantasia. Meus favoritos são de longe J.R.R Tolkien e C.S. Lewis. Mas quando tempo permite (poucas vezes) gosto de ler autores de fantasia como Martin, Patrick Rothfuss, Joe Abercombrie, Steven Erikson, Mark Chadbourn, Robert Jordan ou Brandon Sanderson. Gosto de viajar no mundo que eles criam e admiro a capacidade imaginativa e descritiva deles. Li a obra de George Martin na língua original bem antes de sair na TV e apreciei.
É verdade que a série televisiva abusou da nudez e das cenas de sexo desnecessárias e que nem constavam muitas vezes dos livros. Creio que ânsia de ter boas audiências e certa falta de confiança num enredo que sozinho conseguisse conquistar as massas explica a opção dos produtores. Mas para isso tenho um botão no comando que me permite passar para a cena seguinte. E é verdade que no mundo de Martin há muita coisa ruim para ver. Seus vilões são especialmente maus e sádicos com uma maldade que ultrapassa a pura crueldade e por isso nos dá tanto prazer vê-los eliminados a sofrer a justiça merecida.
É verdade que a série é marcada por pecados característicos da época que a inspiram, a Europa Medieval. Assim temos violência muitas vezes gratuita; luxúria que ultrapassa a prostituição e chega ao incesto; mentira, deslealdade e vilania a cada curva; enganos e traições requintadas e fatais; vingança como propósito de vida que mantém personagens vivos em meio a agruras terríveis; religiosidade legalista que avança por uma hipocrisia pouco velada. Mas não são esses pecados na idade média e da nossa idade? Não é o que vemos quando abrimos os jornais? Não fala Martin daquilo que enche nosso cotidiano com mais ou menos expressão? Não posso porém deixar de notar que em meio a tudo isso ainda há nobreza que sobrevive. Lealdade a toda prova e honestidade mesmo sob pena de morte e execução sumária. Ainda há valores familiares e de amizade que sobrevivem e sacrifícios feitos para o bem maior. E não são esses valores cristãos importantes? E é por isso que no meio dessa saga creio que posso apontar para alguns pontos interessantes que corrigem a visão da série para a verdade que nos cerca e que é revelada na Palavra de Deus:
·         Há na verdade uma guerra dos tronos em andamento onde um usurpador senta no trono e há uma campanha para a recuperação do trono pelo verdadeiro Rei e Senhor. Há na verdade um senhor de mortos vivos que ameaça acabar com a humanidade e sua destruição não se faz com armas normais mas pode perfeitamente acontecer e irá acontecer.
·         É verdade que a justiça pode tardar mas cada um dará conta de seus pecados e quando Joffrey ou Bolton morrem de modo dramático e terrível não são tão diferentes de Jezabel ou Herodes, de Sadan Hussein ou Mohamad Khadafi que acabaram por sentir a justiça Divina sobre suas vidas malignas. Mas a justiça de Deus é paciente e misericordiosa na expectativa do arrependimento mesmo do maior pecador e não se mostra vingativa ou maligna.
·         É verdade que viver pela verdade e lealdade sem dar lugar ao mal pode acabar por levar à morte como foi o caso de Ned Stark. Este mundo não reconhece os mansos e nem valoriza os sinceros mas aplaude as Cerseis da vida que com engano e malícia vão subindo a escala social até o topo. Mas o cristão é chamado a ser diferente e viver de modo a honrar seu Senhor.
·         É verdade que há um Senhor da Luz que pode até ressuscitar mortos mas é bem diferente do deus da série com suas previsões pouco claras e sua indefinição mesmo para seus mais fervorosos seguidores. O verdadeiro Senhor da luz fala de modo claro, revela-se de forma coerente e faz sua vontade bem conhecida de quem o busca.
·         É verdade que muitas vezes são os menos prováveis que se tornam heróis. Um anão indesejado e lascivo, uma garotinha indefesa e tolinha, um bastardo indeciso e infeliz, um garoto gordinho mas bem-intencionado, são alguns dos heróis bem pouco prováveis da estória. Faz lembrar a saga dos hobbits que sendo os habitantes mais fracos da terra Média serão os heróis do “Senhor dos Anéis”. Mas que é isso se não uma reedição do livro de Juízes? Lá, temos um canhoto desconhecido, um covarde que malhava o cereal escondido, uma mulher de um aliado, um filho de prostituta, todos tornando-se os heróis. O Senhor da Glória não usa os mais capacitados mas certamente capacita os que se dispõe a servi-lo.
·         É verdade que há sempre personagens secundários que salvam o dia. Trata-se de uma técnica de escrita criativa manter vivos esses personagens de quem já nem lembramos para na hora H os termos como salvadores normalmente a custo de grande sacrifício. E isso nos lembra a graça geral. Nosso Deus não se limita a trabalhar com os personagens principais mas tem em suas mãos uma multidão de gente que pode e serve de bênção quando muitas vezes já não tínhamos esperança e nem saída. Ele usa quem deseja em sua santa vontade e salva quem quiser e quando quiser pelos meios que lhe aprouver mesmo que estejam totalmente fora da nossa imaginação ou perspectiva.
·         É verdade que há necessidade de uma guarda da noite que proteja o reino dos homens a custo de muito sacrifício e dedicação. Mas a verdadeira guarda da noite é a igreja de Jesus que pelo poder do Espírito Santo impede como muralha o total avanço do maligno sobre a humanidade. Como guardas da raça servimos ao Senhor verdadeiro e somos seus instrumentos para proteger as pessoas da maldade do maligno mesmo que isso signifique sacrifício e sofrimento de um povo que nem entende nosso trabalho e valor.
No fim dessas linhas lembro-me que na “Guerra dos Tronos” cada casa nobre tem um símbolo e uma frase que serve de lema. Cada leitor e fã acaba por se identificar com uma casa. No meu caso, aprecio a casa Stark muito pela dignidade de seu líder maior que morre no começo da série. Os Stark têm como símbolo uma cabeça de lobo e sua frase é “Winter is coming”. Trata-se de um mote realista e pessimista. Por um lado lembra o óbvio, o inverno eventualmente sempre chega. Mas não é um inverno qualquer que eles anunciam. É o inverno dos invernos em que o senhor dos caminhantes brancos derrubará a muralha e destruirá o reino dos homens. Sendo assim, o mote é pessimista e fatalista. Avisa que a raça tem seu tempo contado e um dia desses o inverno fatal vai chegar.
Mas nós não somos Stark. Deles tomamos apenas as virtudes morais que nos ajudam a honrar o Senhor. Nosso símbolo não é um totem animal mas uma cruz e um cordeiro de sacrifício. Nosso mote não poderia ser mais diferente porque em vez de anunciar a vinda da morte anuncia a chegada da VIDA. “Christ is Coming” é o nosso lema e com Ele o reino verdadeiro será estabelecido e terminada a verdadeira guerra dos tronos. Maranata! Vem Senhor Jesus!
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