Encarnação - Deus fez-se Homem!


Sempre que falamos de Deus, há em nossa mente alguma imagem mas pouco clara. Isso acontece porque fomos criados num contexto cristão. Se fossemos hindus, chineses ou animistas na América do sul ou África, teríamos milhares de figuras animais e humanas para relacionar com Deus. Mas, no contexto cristão aprendemos que o Deus verdadeiro é Espírito, não pode ser visto porque não tem corpo e exactamente por isso Ele é omnipresente, ou seja, pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. No entanto, tendo isso claro e sabendo isso no coração, temos no principal rito cristão um acto que parece contraditório. Pegamos um pão e obedecendo a ordem deixada pelo Senhor Jesus lembramos que Ele tomou um pão na noite em que foi traído e disse: “Isto é o meu corpo”… e aí vem a dificuldade. Se Deus é espírito, como falar de seu corpo? Ora isso é possível por causa daquela maravilhosa doutrina cristã da encarnação. Essa é daquelas doutrinas que envolvem grande grau de mistério. Deus feito carne e habitando entre nós. Não cabe apenas na razão e exige fé apesar de nos dar boas evidências.

 Um de seus textos clássicos é Filipenses 2: 5 a 11.
“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:5-11

Muitos estudiosos da Bíblia crêem que neste texto Paulo transcreve a letra de um hino cantado pela igreja nos seus primórdios o que nos dá ainda mais um toque de valor desta passagem tão amada. Ela nos fala do caminho todo da salvação e nos deve ajudar a meditar nesse mistério da salvação. Vejamos brevemente o que a encarnação nos ensina:

Amor Gracioso

A encarnação envolveu esse amor de Deus que não se pode explicar. Só o conceito da Graça pode ajudar a entender como Deus faria isso pela humanidade caída em pecado e longe dele em rebelião. Deixar a Glória só poderia ser feito num acto de graça amorosa porque nada que o homem fizesse justificaria tal gesto. Nada nem ninguém poderia obrigar Deus a encarnar. Cada vez que olhamos o pão e o vinho e sabemos que o Senhor deixou sua Glória por nós temos que nos encantar com esse amor. O verdadeiro amor faz isso. O ser amado que entende ou percebe o amor que lhe é votado, nunca deixa de se maravilhar pelo facto de ser amado porque sabe não merecer. Encarnação é amor puro. Esse amor que é a essência de Deus. E quando somos tentados a duvidar do amor de Deus devemos encarar a encarnação como sinal e prova de um amor que não pode ser negado ou duvidado.

Humilhação

Mas a encarnação envolveu um grau inimaginável de humilhação. Não há como o entender. Podemos fazer algumas conjecturas e propor algumas analogias mas sempre estarão muito abaixo da realidade. Imagine um rei, acostumado a todos os confortos, a todo luxo, à criadagem e serviçais e a tudo o que há de bom na terra. E um dia ele deixa o palácio e vai viver como um desabrigado, um sem tecto. Fica na rua, pede esmolas, vasculha caixotes de lixo. Dorme numa lixeira. Que imagem impressionante, mas não suficiente. Porque ao encarnar o Senhor não somente deixou sua Glória mas veio tomar a forma de um ser infinitamente inferior e na verdade criado por ele. Um rei a viver na rua ainda teria a mesma natureza dos outros mendigos porque na prática são todos seres humanos. Mas Deus deixou o céu para viver com criaturas menores. A analogia mais próxima seria nós nos tornarmos insectos para ficar um pouco mais perto. Insectos com consciência humana vivendo entre insectos… nem dá para imaginar o que seria. Que humilhação. O Senhor fez isso por nós. Mas porque?

Identificação

Por amor, para identificação. O amor verdadeiro se identifica. Não fica de longe mandando ajuda. Entra na realidade, vive a realidade para poder entender e ser entendido. Quando queremos falar sobre entender alguém ou entender sua situação falamos em nos colocarmos nos sapatos de alguém. Jesus fez isso por nós. Ele calçou nossos sapatos, vestiu nossa humanidade. Esse amor prático que vai ao encontro do ser amado é o grau mais avançado de amor. E ao viver entre nós ele entendeu como ninguém nossas lutas e fraquezas. Costumamos pensar em Deus como um ser zangado com o pecado. Mas na verdade sua ira é manifestação de sua santidade e de sua tristeza. Imagine a dor que Deus sente porque Ele na verdade sabe. Quando vê um refugiado em terra estranha, quando vê alguém perseguido por sua etnia ou fé, quando assiste a alguém a passar fome, quando percebe um homem ou mulher abandonado pelos que julgava serem seus amados, quando vê alguém a ser torturado e morto, ELE sabe. Ele passou por tudo isso. Encarnação é identificação. Daí que Deus não veio a nós adulto e formado. Isso seria tão fácil e aparentemente pouparia tanto tempo. Mas não seria identificação plena e Ele faz tudo perfeito. Veio como um bebé, para passar por tudo que passamos e poder entender ainda melhor tudo que somos. E sua identificação implicou em sofrimento.

Sofrimento

Toda encarnação leva a sofrimento, porque é impossível entrar na vida de outro sem sofrer o que ele sofre. E Jesus veio viver como servo e como servo se submeteu a tudo e mesmo a tortura e a morte. Quando tomamos o pão, é um pão que simboliza um corpo torturado e morto. Ele não ficou por palavras e instigações. Não veio ao mundo para nos animar ou dar incentivos. Não veio apenas para ser um bom exemplo. Deu a si mesmo por nós. A encarnação levou a essa dor e ele sabia e por isso teve que se humilhar de tal modo. Foi seu amor que o levou a suportar tudo e a Palavra diz mesmo que suportou com alegria. Quando uma mãe se sacrifica por um filho, ela pode até sofrer, mas sofre com alegria se pensar nas vantagens que seu filho terá. Uma mãe, se tiver que escolher entre a sua vida e a de seu filho, pode escolher morrer e com alegria pela satisfação de pensar no futuro de sua criança. Com Jesus vemos esse tipo de amor ao máximo. Deus criador de tudo, Ele sofreu por sua humanidade pelo prazer de saber que isso a levaria a restauração e aqui chegamos ao coração da encarnação.

Salvação

A encarnação era necessária porque só um homem poderia saldar a dívida do homem com Deus. Logo, o salvador tinha que ser um homem. Fora um homem a pecar. Fora o representante da humanidade a ofender a Deus e se tornar rebelde. O problema com Deus era do homem, só um homem poderia tratar dele. Mas todos os homens nascem sob a sombra do pecado e acabam por sucumbir. Todos trazem no coração a inclinação para o mal e não o conseguem vencer. Logo, só Deus poderia viver uma vida sem pecado necessária para redenção. Assim, Deus teve que se fazer homem para poder nos ganhar a salvação. Novamente as obras são uma afronta a Deus. Só Ele poderia fazer o necessário para nossa salvação. Pensar algo diferente é fazer pouco da encarnação do Senhor. Afinal é o homem que tenta a salvação pelas obras que se mostra orgulhoso. Só o Deus encarnado, Deus e Homem, poderia, então, tratar de saldar a dívida que existia e fazer a reconciliação entre Deus e o Homem. E ao fazê-la temos o retorno à Glória.

Glorificação

A exaltação do Senhor Jesus veio quando a missão estava cumprida e a encarnação tinha feito sua função. Ele volta a Glória do Pai mas de certo modo diferente. Aqui entramos em terrenos santos e onde temos que pisar com todo cuidado. Mas, ao pensar na encarnação, percebemos que Deus muda sua própria essência de modo sublime, extraordinário e misterioso para nos salvar. Jesus faz-se homem e ao voltar ao céu leva essa encarnação ao alto do trono e nos promete a Glória com ele. Não dá para entender, mas dá para nos maravilharmos. Como pode ser isso possível? Por amor. Voltamos ao começo. O amor fez possível. Deus é amor e sua essência fez isso possível. O Deus que encarnou e nos salvou é o soberano que recebe nome mais exaltado e senta-se à direita do Pai.

Para nós a encarnação é então motivo de louvor apaixonado. Como não adorar um Deus que de tal modo se dá por nós pecadores sem merecimento. Cada vez que tomamos o pão e bebemos o vinho devemos meditar na maravilha misteriosa da Encarnação e o quanto ela representou para que pudéssemos cantar a redenção do Senhor.

Thank God it's Friday!

MALDITO TRABALHO!!?
O individuo parecia transtornado. Os músculos da face tensos e contraidos enquanto por entre os lábios saía o impropério: "se um dia encontrar quem inventou o trabalho dou-lhe um tiro nos miolos!"  Assisti a cenas parecidas com esta por mais de uma vez. Era um desabafo contra uma atividade penosa que servia apenas para sustentar a familia.

Outras expressões menos dramáticas, mas igualmente contrárias ao trabalho são as que vemos nas tiras de banda desenhada do gato Garfield onde ele confessa: "I hate mondays" (Detesto segunda-feira) ou "Thank God it´s friday" (Graças a Deus é sexta).  Todas essas expressões servem para transmitir a mesma mensagem: o trabalho é algo detestável do qual todos nos queremos ver livres!  Será essa a visão biblica e cristã do assunto?

Devemos começar por reiterar que o cristão deve ter uma cosmovisão guiada pela Biblia em todas as coisas. A vida cristã não pode ser apenas a que se vive em algumas horas no domingo ou em dias sagrados, mas deve ser a vida diária que engloba todas as atividades que desenvolvemos.  Uma fé que não diga respeito ao meu trabalho será de pouco valor. Se gasto a maior parte do meu tempo trabalhando então minha fé deve ter algo a dizer sobre isso ou não será uma fé relevante! 

Encurralar meu cristianismo aos domingos é destituí-lo de toda influência prática e
real na minha vida! 

Logo, minha fé tem que me falar de meu trabalho.   E o que aprendemos na Bíblia sobre o trabalho?

1) O Trabalho precedeu o pecado na História Humana

Biblicamente, o trabalho aparece antes do pecado.  Deus criou o homem e o colocou no jardim para que cuidasse dele e dos animais. O primeiro homem foi jardineiro, agricultor e criador de animais. Essa atividade era plena, ocupava os dias de Adão e Eva e representava uma boa utilização das capacidades com que o Criador os dotou.   Logo, sendo algo original ao homem, estava inicialmente em estado puro. O trabalho não veio como castigo por causa do pecado como pensam alguns, mas o precedeu com o intuito de dar ao homem propósito e realização.

2) O Trabalho foi instituído por Deus
Segundo Genesis 1 e 2,  foi Deus o inventor do trabalho.  O Criador conhecia a criatura como ninguém.  Deus trabalhou e ainda hoje trabalha, criou o homem à sua imagem, logo, criou um ser trabalhador.  Deus deu ao homem trabalho especiífico e esse mandato precedeu todos os outros inclusive os da era da Igreja.  Aqueles que se insurgem contra o trabalho em si, se rebelam contra Deus.   Aqui não discutimos a existência de trabalho escravo, de trabalho injusto, de trabalho infantil ou mal remunerado(fruto do pecado e da ganância dos homens).  Falamos do trabalho como instituição!  Do trabalho honesto, que serve para sustento próprio e para prover outros.  O trabalho como tal, foi criação de Deus para valorizar e honrar o homem e por isso mesmo nenhuma cultura do mundo até hoje honrou o preguiçoso.

3) O Trabalho foi valorizado nos 10 mandamentos
Sabemos que o decálogo tem as bases de toda a lei.  Nesses 10 mandamentos encontramos o resumo daquilo que seria o guia prático para o povo de Israel.  No oitavo e no décimo mandamentos há uma clausula de proteção a propriedade privada que nos mostra o valor do trabalho. Na lei estipulada pelo Senhor há regras especificas para salvaguardar aquilo que é fruto do trabalho do homem.

4) O Trabalho era muito valorizado pelo povo de Deus
Na cultura judaica resultante da orientação divina o trabalho sempre foi valorizado. Todo menino judeu deveria aprender uma profissão mesmo que depois se dedicasse a outras atividades mais intelectuais. Isso demonstra a importância do trabalho para o povo de Deus.

5) Jesus e os lideres Cristãos foram trabalhadores
Todos sabemos que Jesus foi carpinteiro.  Até os 30 anos ele exerceu essa profissão que aprendeu de seu pai terreno dando assim uma visão elevada do trabalho humano. O Criador feito criatura não rejeitou a vida de trabalho.  Os apóstolos de modo geral eram homens simples de trabalho que o Senhor chamou para a missão.  Paulo manteve sua profissão como fazedor de tendas e em boa parte de seu tempo, mesmo como missionário, ele se sustentava com sua atividade profissional.

Ainda a propósito da vida de trabalho de Jesus será interessante lembrar o episódio de seu batismo.  Deus o Pai falou do céu "Este é meu filho amado, em quem me comprazo!"para referir seu contentamento com Deus o Filho.  Fica a questão: Por qual milagre o Pai exaltou o Filho?  De que sermão falava Deus ao elogiar Jesus?  Na verdade, o seu ministério público ainda estava por começar, logo,  o contentamento do Pai não se referia a nenhum milagre, maravilha ou mensagem.  O Pai estava feliz com Jesus, que até então vivera como um simples carpinteiro, honesto, trabalhador, sustentando a familia e vivendo um testemunho de profunda comunhão com o Pai.  Seria bom meditarmos nisso.

6) O Ensino bíblico incentiva o trabalho
Muitas das parábolas de Jesus acontecem no ambiente do trabalho.  A famosa parábola dos talentos diz respeito ao galardão de trabalhadores esforçados.  As epístolas seguem nessa linha e Paulo incentiva mesmo os escravos a serem bons trabalhadores e darem exemplo como servos dedicados.  O trabalho recebe nas escrituras uma posição destacada como parte fundamental da vida.  Na verdade, o trabalho é um dos modos mais importantes de expressarmos nosso caráter e personalidade.  Um mal trabalhador dificilmente convencerá as pessoas de que é uma boa pessoa.  Minha forma de encarar e viver minha vida de trabalho certamente revela muito de quem eu sou. por isso a Biblia incentiva o crente a ser um bom trabalhador.

_ Se o trabalho é assim tão valioso e de origem divina, então por que é que hoje temos uma visão tão negativa do trabalho?

- Os gregos faziam uma dicotomia marcante entre o material e o espiritual.  Uma das correntes mais fortes da filosofia grega apresentava tudo o que é matértia como negativo e mal.  Nessa visão, o trabalho físico perdia valor em relação ao espiritual.  O Cristianismo bebeu nessa fonte, passando a considerar o trabalho do espírito (pregação, ensino, serviço religioso) como mais valioso que o do corpo.  Isso contribuiu bastante para uma visão negativa do trabalho no mundo de cultura judaico-cristã.

- O pecado contaminou tudo, inclusive o trabalho. Quando pecou, o homem perdeu a comunhão com Deus e nessa perda se foi o propósito para a vida, que incluía o trabalho.  O homem sem Deus não tem razão para viver e se vê como fruto do acaso.  Nessa perspectiva o trabalho é verdadeira prisão que nos impede de aproveitar a vida.  Surge uma visão negativa do trabalho.

- A mentalidade de consumo e lazer que impera hoje incentiva o entretenimento em detrimento do trabalho.  O homem moderno vê o trabalho como aquilo que tem que fazer para poder ter dinheiro para gastar em coisas e em serviços que lhe tragam prazer e bem estar.   Nessa perspectiva o trabalho é novamente o vilão que nos rouba a melhor parte da vida.  A aposentadoria se torna a terra prometida, um período em que não precisaremos fazer nada que não queiramos e vamos gozar a vida.  Muitos, senão mesmo a maioria, descobre tempos depois que era mais feliz quando trabalhava e não sabia...

_Qual deve ser a posição do cristão sincero diante do trabalho?


Propósito: Deus nos criou com um propósito e para tal nos dotou de talentos e virtudes. Devo entender como fui criado, desenvolver minhas habilidades e usa-las para experimentar toda a razão da minha existência. Dou glória a deus como Criador quando cumpro minha missão na terra trabalhando de acordo com as caracteristicas que deus me deu. Uns serão bons para certas coisas, outros para outras. Podemos e devemos todos encontrar alegria e realização no que fazemos.

Honra: O trabalho honesto deve ser valorizado e honrado no meio cristão e no seio da igreja. Não devemos cair na mentalidade errada de desacreditar certos tipos de trabalho. Precisamos de todos para viver melhor e a igreja deveria estar na linha da frente na preservação da dignidade do trabalho.

Bênção: Se estou a trabalhar naquilo em que sou bom, porque Deus me criou assim, então vivo para a glória de Deus e posso ser bênção para os demais!  Por exemplo: um pintor de parede:  num mundo escuro, sujo e sem graça por causa do pecado, o pintor pode se ver como aquele que traz vida, cor e alegria.  Depois de terminar seu trabalho, um lugar que antes era feio e sem vigor pode ter graça, beleza e animar os espíritos. O pintor pode se ver como sócio de Deus no propósito de recuperar as cores que o pecado manchou.

Eu sou médico. Entendo que a doença não fazia parte do plano de Deus para o homem e surgiu como consequência do pecado. Quando luto contra a enfermidade e trabalho para a saúde entendo que estou engajado na tarefa Divina de recuperar o homem por inteiro.

Cada profissão pode entender sua atividade como uma sociedade com o Criador na restauração da Criação e desse modo cada profissional passa a ser um agente de salvação na terra.  Essa visão madura e abençoada do trabalho deveria encher o coração de cada cristão. Como seria diferente um trabalho feito assim!  Deixe-se contagiar e contagie outros com essa visão e estaremos trabalhando por um mundo melhor para a glória de Deus!

Joed Venturini

Meu avô, Pr. Reis Pereira

Dia 15 de outubro completará o 20o aniversário da morte do pr. José dos Reis Pereira, diretor do Jornal Batista por 24 anos, pastor, jornalista e professor. Um homem de uma inteligência extraordinária e de uma visão do Reino de Deus especial para o seu tempo.  Mas hoje, poucos lembram de suas palavras e do seu ensino, ou mesmo de seus editoriais que influenciaram milhares de crentes no Brasil e no mundo.  Hoje, quero lembrar-me apenas de meu avô, o vovô Reis.

Juntamente com minhas 5 irmãs, amava visitar vovô Reis, o que acontecia pelo menos 3 vezes por semana, dada a nossa proximidade.  Era delicioso sair da escola e passar as tardes na casa do vovô Reis, pois sempre havia novidades. 

Um missionário da JMM que passava pelo Brasil, um pastor, ou mesmo crentes de diversas partes do Brasil sempre o visitavam.  No natal as portas ficavam repletas dos cartões de natal recebidos de todas as partes do mundo.  Ele se correspondia com irmãos e amigos de tantos lugares que me espantava a forma como mantinha sempre os contatos e as amizades. Sim, ele era fiel aos seus amigos.

Gosto de lembrar e sonhar com nossas caminhadas...mesmo quando estava doente caminhávamos por duas horas, sempre a conversar.  Foi assim que ele me mentoriou e instruiu da melhor maneira, no dia-a-dia.  Iniciava uma conversa com uma pergunta:  Ida, o que você sabe sobre os grandes poetas portugueses?  Em cinco minutos despejava o que lembrava e nas duas horas seguintes absorvia todos os detalhes que o avô acrescentava. Ouvia poemas magníficos com suas críticas e impressões como se os tivesse conhecido pessoalmente.

Amava ouvir suas aulas de mestrado em História da Igreja.  Para ele Lutero e Zuinglio não eram apenas personagens num livro enfadonho, mas crentes especiais que transformaram sua época.  Quando ensinava, seus olhos brilhavam, sua voz se animava e conseguíamos reconhecer naqueles personagens seus melhores amigos.  Contava detalhes de suas vidas que tornavam toda a História num momento vivo e divertido!

Amava passear com vovô e principalmente estar à mesa, em família. Uma grande família, sempre com seminaristas e iberistas a participarem ativamente do colóquio.  Gostava de piadas inteligentes e era leitor assíduo de revistas, jornais, entre elas o Times e Readers Digest.  Todas as editoras enviavam-lhe seus livros de lançamento, ele lia e memorizava-os, numa técnica impressionante! Jamais esquecia-se de um nome!

Quando ficou doente o médico restringiu-lhe a alimentação, porém, quem conheceu vovô sabe que comer era o seu hobby predileto.  Quando eu e Joed namorávamos e almoçávamos com ele, sempre invejava o prato de Joed dizendo:
_ Darcília, o que é que o Joed está comendo? Eu quero o que Joed está comendo, pois parece bem melhor...
Vovó Darcília, morta de preocupação respondia: 
_Mas, Reis, você não pode comer desta comida...o médico já disse....
_Darcília, eu quero...vou pegar só um pedacinho.  E lá se ia o grande bife que Joed pretendia...
Amava a culinária portuguesa, mas também era fã dos queijos franceses!! Infelizmente, esse apetite agravou-lhe a saúde.

Surpreendia-me quando queria cozinhar um pão de ló com 12 ovos! Ou quando me ensinava a receita de um frappé de coco que levava sorvete de coco e um vidro inteiro de leite de coco...gordura para matar qualquer um...mas, que delícia! E depois, sobrava para mim o trabalho de limpar toda a sujeira na cozinha, antes que vovó descobrisse nossa estripulia!

Divertido era ver vovô assistindo a uma luta de boxe.  Como ele gostava de boxe! Eder Jofre e outros lutadores...vovô treinou boxe quando novo e gostava de "tentar" nos ensinar.  Podem imaginar vovô dando uma "gravata" nas netas, que em vão tentavam jogá-lo ao chão.  Um dia a cama do quarto da vovó foi abaixo porque as quatro netas pulavam tanto e lutavam com o avô que esta não resistiu.  E vovó Darcília ficou uma fúria! Hoje a compreendo bem, que trabalhão e que gangue nós fazíamos!

Vovô gostava de uma boa argumentação, gostava de uma discussão intelectual.  Não lhe agradava aqueles que em nada podiam contribuir, ou que simplesmente concordavam e abaixavam a cabeça.  Mesmo sendo muito nova, sempre gostei de perguntar e instigar e com isso vovô se abria e ensinava ainda mais. Foram as lições mais preciosas, que não se aprendem numa cadeira de seminário ou faculdade. Foram anos maravilhosos!

Vovô deu-me meu primeiro emprego: secretária particular.  Deveria organizar sua biblioteca e seus milhares de pequenos cartões com anotações.  Seus sermões eram guardados nestes cartões e muitas vezes havia apenas o texto bíblico e 4 palavras.  Achava incrível como conseguia lembrar-se de uma mensagem completa com apenas estas anotações. Ajudava-o a elaborar o boletim da igreja e organizar sua correspondência.  Foi confidente de tantos missionários,  pastores e esposas de pastores, mas sempre manteve total sigilo e antes de falecer lembro-me que queimou a maior parte de seu arquivo de cartas, não fossem cair em mãos erradas.  Através destas cartas orientou e guiou o meio batista no Brasil.  Hoje sua firmeza doutrinária, suas convições profundas e seu amor pela Palavra fazem falta.  Sua amizade era genuína, sem preconceitos, sem interesse nem acepção de pessoas.  Os doutores e os mais iletrados eram ouvidos da mesma maneira e todos eram recebidos à volta de sua mesa.

Pr. Reis não era um homem fechado e não o considero um batista fundamentalista, era um batista sincero e convicto, pois sua crença vinha do muito estudo e meditação. Muitos que o conheceram apenas de púlpito podiam considerá-lo reservado, mas conosco era alegre, descontraído e muito, muito espirituoso.

Hoje, após  vinte anos de sua morte ainda sonho com seus conselhos, ainda recordo-me de seus exemplos, histórias e anedotas.  Suas marcas permanecem em minha vida e na vida de meus filhos, que mesmo não o conhecendo ouvem suas histórias e aprendem sua maneira de ver a vida.

Sua última oração foi no dia 12 de outubro de 1991, o dia de meu casamento.  Vovô não assistiu, já estava de cama.  Saímos da igreja do Rocha diretamente para a casa do vovô.  Vovó Darcília surpreendeu-se, pois ele sentou-se, apoiado pelo pr. Tiago Lima e nos ajoelhamos junto à cama.  Ele uniu nossas mãos, apertando-as com força entre as suas mãos e durante longos minutos orou abençoando nosso ministério e nossa vida de casados. Depois disto nunca mais falou.

Era o dia mais feliz de minha vida, mas também o mais triste, pois sabia que vovô estava indo e não podia segurá-lo mais.  Esperou até o meu casamento e nos abençoou. Vovô faleceu três dias depois, e as mesmas flores do meu casamento estavam no funeral na igreja do Rocha. 

Obrigada, vovô, pela sua vida, pelas bênçãos que eu e meus filhos desfrutamos até hoje, pela proteção no campo missionário e pelo exemplo que nos deixou.  Não nos esqueceremos jamais, pois sempre será para mim o vovô Reis.

Uma neta saudosa
Ida Venturini de Souza



Cronologia José dos Reis Pereira - Jornal Batista 29.12.1991
 


Homenagem ao Pr. Reis. Jornal Batista de 29.12.1991
 

Vencendo a Depressão – Vida e Obra de Adoniran Judson


Ele estava deprimido! Mas não era uma simples depressão. Era uma depressão profunda, num momento em que não havia antidepressivos e ninguém sequer sabia o que eram depressões. Sua tristeza era tão profunda que ele cavou uma cova para si no interior da floresta infestada de animais selvagens, entre os quais Tigres, e sentou-se a beira dela dias a fio olhando o vazio à espera de morrer. Essa pessoa de quem falamos é, no entanto, um dos missionários mais reverenciados da história. Como é possível? Como foi possível ele vencer uma tão profunda depressão?

A depressão deixou de ser um assunto tabu do qual não se falava. Hoje a OMS a reconhece como a doença do século XXI e os números falam de até 340 milhões de pessoas sofrendo no mundo. A população portuguesa teria até 20% de afetados por depressão. Os medicamentos antidepressivos sãos dos mais vendidos no mundo, e a pesquisa procura novas drogas para mitigarem essa dor. Alguns sintomas são:
  • ·         Desânimo persistente
  • ·         Falta de energia e cansaço crônico
  • ·         Desinteresse pelas coisas
  • ·         Incapacidade de experimentar prazer
  • ·         Tristeza profunda por vezes inexplicável
  • ·         Falta de capacidade para trabalhar
  • ·         Limitação da função mental
  • ·         Alteração do apetite e sono
  • ·         Baixa auto estima
  • ·         Pessimismo intenso
  • ·         Retraimento social
  • ·         Choro fácil

Muitos doentes deprimidos não sabem o que tem. Muitos chegam a se fazer mal por não entenderem que precisam de tratamento e a depressão tem a tendência de se alimentar de si mesma, ou seja, o deprimido acaba por “gostar” de se sentir miserável e alimenta este estado resistindo a tentativas de ajuda. Mas não se trata de algo novo. A Bíblia nos fala de muitos exemplos de depressão como o de Moisés diante da maldade do povo ou de Elias quando Jezabel tenta matá-lo. Vejamos um desses em I Samuel 30:

“Sucedeu, pois, que, chegando Davi e os seus homens ao terceiro dia a Ziclague, já os amalequitas tinham invadido o sul, e Ziclague, e tinham ferido a Ziclague e a tinham queimado a fogo. E tinham levado cativas as mulheres, e todos os que estavam nela, tanto pequenos como grandes; a ninguém, porém, mataram, tão-somente os levaram consigo, e foram o seu caminho. E Davi e os seus homens chegaram à cidade e eis que estava queimada a fogo, e suas mulheres, seus filhos e suas filhas tinham sido levados cativos. Então Davi e o povo que se achava com ele alçaram a sua voz, e choraram, até que neles não houve mais forças para chorar. Também as duas mulheres de Davi foram levadas cativas; Ainoã, a jizreelita, e Abigail, a mulher de Nabal, o carmelita. E Davi muito se angustiou, porque o povo falava de apedrejá-lo, porque a alma de todo o povo estava em amargura, cada um por causa dos seus filhos e das suas filhas; todavia Davi se fortaleceu no SENHOR seu Deus.” 1 Samuel 30:1-6

Davi já andava a tentar viver longe do perigo de Saul há anos. Finalmente as coisas pareciam estar a melhorar. Um dos príncipes filisteus lhe dera uma cidade, Ziclague, e ali Davi e seus homens podiam criar suas famílias em paz e pensar num futuro mais calmo. E eis que quando tudo parecia se acertar, o pior acontece. Enquanto Davi servia ao rei filisteu os amalequitas deram sobre a cidade e destruíram os sonhos de paz e prosperidade levando as esposas e filhos como escravos. Davi chorou mas ainda mais quando ouviu o povo o culpando e seus próprios homens colocando a responsabilidade sobre ele. A vida pareceu parar. Nada mais fazia sentido. Sua angústia foi profunda, total, ele quase se entregou.

A depressão é assim. Pinta o quadro mais negro possível, esconde qualquer chance de futuro, Rouba toda a alegria e satisfação, seca toda fonte de prazer, faz de todos os demais inimigos, torna todas as palavras em acusações, faz de todos os esforços tolices e se compraz em nos dizer que não há nada a fazer. Mas Davi saíu da depressão. Como ? Vejamos o texto:

“…Todavia Davi se fortaleceu no SENHOR seu Deus.E disse Davi a Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque: Traze-me, peço-te, aqui o éfode. E Abiatar trouxe o éfode a Davi. Então consultou Davi ao SENHOR, dizendo: Perseguirei eu a esta tropa? Alcançá-la-ei? E lhe disse: Persegue-a, porque decerto a alcançarás e tudo libertarás. Partiu, pois, Davi, ele e os seiscentos homens que com ele se achavam, e chegaram ao ribeiro de Besor, onde pararam os que ficaram atrás. E perseguiu-os Davi, ele e os quatrocentos homens, pois que duzentos homens ficaram, por não poderem, de cansados que estavam, passar o ribeiro de Besor. E acharam no campo um homem egípcio, e o trouxeram a Davi; deram-lhe pão, e comeu, e deram-lhe a beber água. Deram-lhe também um pedaço de massa de figos secos e dois cachos de passas, e comeu, e voltou-lhe o seu espírito, porque havia três dias e três noites que não tinha comido pão nem bebido água. Então Davi lhe disse: De quem és tu, e de onde és? E disse o moço egípcio: Sou servo de um homem amalequita, e meu senhor me deixou, porque adoeci há três dias. Nós invadimos o lado do sul dos queretitas, e o lado de Judá, e o lado do sul de Calebe, e pusemos fogo a Ziclague.E disse-lhe Davi: Poderias, descendo, guiar-me a essa tropa? E disse-lhe: Por Deus jura-me que não me matarás, nem me entregarás na mão de meu senhor, e, descendo, te guiarei a essa tropa. E, descendo, o guiou e eis que estavam espalhados sobre a face de toda a terra, comendo, e bebendo, e dançando, por todo aquele grande despojo que tomaram da terra dos filisteus e da terra de Judá. E feriu-os Davi, desde o crepúsculo até à tarde do dia seguinte; nenhum deles escapou, senão só quatrocentos moços que, montados sobre camelos, fugiram. Assim salvou Davi tudo quanto tomaram os amalequitas; também às suas duas mulheres salvou Davi. E ninguém lhes faltou, desde o menor até ao maior, e até os filhos e as filhas; e também desde o despojo até tudo quanto lhes tinham tomado, tudo Davi tornou a trazer. Também tomou Davi todas as ovelhas e vacas, e levavam-nas adiante do outro gado, e diziam: Este é o despojo de Davi.” 1 Samuel 30:6-20

Há alguns passos que Davi deu que nos levam a perceber o caminho da vitória:

Buscou o Senhor. Por isso ele será lembrado como o homem segundo o coração de Deus. O único que pode nos dar força para vencer algo que nós não conseguimos é o nosso Deus.
·   Consultou a palavra de Deus por meio de seu servo. Nós temos vantagem em relação a Davi na medida em que temos a revelação escrita ao nosso alcance e podemos fazer uso dela quando quisermos
·  Agiu de acordo com a orientação. Davi não ficou sentado a chorar suas mágoas. Chorar nunca resolveu o problema de ninguém. Sem ação não há depressão que se vença. Sem iniciativa na força de Deus ninguém sai do buraco.
·  Fez o que estava ao seu alcance que era correr atrás do prejuízo. No seu caso era perseguir os amalequitas mesmo sem saber bem para onde iam (lembre-se que eram nómades habitantes do deserto). Não seria fácil acha-los mas era o que tinha que fazer. Ele saiu para tentar. 
   Pegou a primeira oportunidade que surgiu. Aquele moribundo não parecia grande coisa mas era o que havia no caminho para usar e acabou sendo a solução do problema dele e a orientação
· Enfrentou o inimigo de cara e lhe tirou o que era seu, sua família, sua fonte de alegria e prazer no mundo e sua satisfação.


A depressão pode nos rondar e mesmo nos pegar, mas temos algo que os demais não têm que é nosso acesso a Deus e sua força. Adoniran Judson é um bom exemplo disso. Ele nasceu Malden, Masschussets nos EUA em 1788 filho de um pastor congregacional. Aluno brilhante entrou na faculdade aos 16 anos e completou em 3 anos um curso de 4 sendo o melhor aluno da turma. Depois de algumas tentativas inglórias de ser escritor foi realmente tomado pelo evangelho e pelo fervor missionário. Fez parte do primeiro grupo de 5 missionários americanos ao estrangeiro numa época em que a Inglaterra detinha a liderança no envio de obreiros.

Adoniran, já casado com Ana, seguiram para a Índia mas não permaneceram ali por razões políticas e d pois de 1 ano estavam na Birmânia, país budista, fechado ao evangelho onde se viram os únicos missionários ocidentais. Estudar a língua era muito difícil. Perderam seu primeiro filhinho para a malária e eles mesmos ficavam doentes com frequência. Então veio a guerra entre a Inglaterra e a Birmânia. Adoniran apesar de ser americano foi preso e assi permaneceu por 21 meses. Nesse período as condições eram terríveis. A prisão não tinha quaisquer condições e as visitas de Ana eram esporádicas e complicadas até porque ela estava grávida de Maria sua 2ª filha. Quando depois de muito sofrimento e dor Adoniran foi libertado perdeu a esposa e a filha em poucos meses. Tentou se afogar no trabalho mas acabou em depressão profunda e sem aparente saída.

Os relatos que temos da depressão de Judson são impressionantes. Ele fechou o mundo fora de sua vida e esteve perto do suicídio. Foi a lembrança da língua birmanesa e o desejo de terminar a tradução da Bíblia que o levaram a sair do buraco. Num ritmo de 30 versos por dia ele traduzia direto do hebraico para o birmanês. Passou a participar do ministério de outros missionários e a viajar bastante. A Igreja que fundou nunca chegou a prosperar. O máximo que chegou a ter foi 18 membros. Ele ainda casou-se  e enviuvou, casando uma 3ª vez e viveu até 1850, quando passou à Glória numa viagem pelo golfo de Bengala. O evangelho entre a tribo Karen a quem ele se dedicou representa hoje mais de 50% da população.



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